Prolongamento
Miguel Cardoso, um “perfecionista” e “viciado no trabalho” com o topo em mente
João Vasco Nunes
2017-09-02 20:30:00
Técnico do Rio Ave destacou-se com um arranque de temporada imbatível; algo que não surpreende quem bem o conhece

A primeira experiência como técnico principal surgiu apenas aos 45 anos. Mas Miguel Cardoso demorou muito menos tempo que isso para dar nas vistas e chamar para si as atenções, depois de um arranque de temporada quase perfeito no Rio Ave. Só o campeão Benfica lhe roubou pontos, à quarta jornada, numa partida onde os vila-condenses impressionaram pela personalidade que mostraram em campo. Nada que surpreenda quem o conhece de perto. “Perfecionista”, “viciado no trabalho”, “inteligente” e “predestinado”. Entre ex-jogadores, ex-colegas de equipa técnica, o irmão e “conselheiro” ou o professor todos lhe apontam virtudes que o distinguem dos demais.

O novo técnico do Rio Ave é já um “filho” da Universidade. Mais do que isso é um dos muitos candidatos a treinador que passaram pelas mãos do Professor Vítor Frade na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto. Após uma carreira demasiado curta como aspirante a jogador no clube da terra, o Trofense, rapidamente se apaixonou pela vertente do treino. Seria impossível ser de outra forma, ou o futebol não corresse no sangue familiar, por influência do “patrono” José Manuel Cardoso. “O nosso pai foi jogador de futebol também no Trofense e treinador - esteve ligado a vários clubes e trabalhou com o Prof. Fernando Duarte no Leixões. A nossa paixão vem daí, de irmos aos treinos, aos jogos e de ver as coisas acontecer”, explica-nos Luís Cardoso, que, tal como o pai e o irmão, também é professor de Educação Física e tem ligação ao desporto rei.

Teve a primeira experiência muito cedo, quando ainda estudava, aos 21 anos, nos escalões de formação do SC Espinho, que serviu como um “estágio” à licenciatura e especialização em futebol que estava a tirar na Universidade. “Conheci-o na faculdade. Foi meu aluno em metodologia de treino e especialização em futebol e fui eu também que lhe orientei a tese. Juntamente com mais uns quantos, o Miguel [Cardoso] era um indivíduo que se destacava por ser muito responsável e muito fixado na sua opção de dominância no futebol. Eram indivíduos capazes de com o tempo serem alguém, como está a ser o caso”, recorda ao Bancada Vítor Frade. Seguiu-se o mestrado em crianças e jovens e rapidamente chegou aos escalões de formação do FC Porto. Tal como muitos dos “discípulos” do Professor Vítor Frade também teve o cunho do Dragão.

"Tive centenas de alunos, alguns muito bons e que tive poucas dúvidas que, se as condições se proporcionassem, seriam à parte dos outros. O Miguel é um deles". Professor Vítor Frade

“Nessa altura começaram a ir muitos ex-alunos meus para o FC Porto, depois de o Ilídio Vale ter sido o primeiro. Tenho a impressão que ele era da turma do Vítor Pereira. Tive centenas de alunos, alguns muito bons e que tive poucas dúvidas que, se as condições se proporcionassem, seriam à parte dos outros. O Miguel [Cardoso], o Vítor Pereira, o Rui Faria, o Ilídio Vale, o José Guilherme, o Joaquim Milheiro, que está na Federação e é o coordenador da formação, todos passaram pelo FC Porto”, recorda-nos Vítor Frade, que foi professor durante cerca de 35 anos na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto.

Na conferência de imprensa de apresentação no Rio Ave, Miguel Cardoso agradeceu ao histórico técnico Costa Soares, que passou durante décadas pela formação do FC Porto, e a Ilídio Vale, um dos grandes responsáveis pelo acompanhamento do seu crescimento no clube. “Tudo passa pelo Professor Costa Soares. A proximidade com ele fez com que depois trabalhasse com o Professor Ilídio Vale em vários escalões. Penso que foi campeão nacional de juvenis e depois foi para a equipa B. Na equipa B conheceu o Domingos”, lembra Luís Cardoso, atualmente responsável pela Academia de Futebol da Louseira, onde o irmão mais velho, Miguel, já participou, esporadicamente, em algumas atividades.

É nesses tempos na equipa B portista, no virar do século, que se cruza também com Gaspar, antigo defesa central do Rio Ave e de outras equipas da Liga. Conterrâneo de Miguel Cardoso e amigo chegado do irmão Luís, foi inclusivamente por influência do pai de ambos que chegou ao futebol. “Se não fosse o professor Cardoso a levar-me para o Trofense quando era miúdo talvez não tivesse sido jogador”, conta-nos Gaspar, entre risos. O primeiro contacto com Miguel enquanto técnico não lhe passou despercebido. “Era o nosso preparador físico, mas já na altura não se limitava apenas a isso. Estava junto da equipa técnica também nas decisões táticas”, frisa.

Aposta de Carvalhal

Após a experiência de vários anos de azul e branco, acabou por não trocar de cores, mas, sim, de clube. Carlos Carvalhal – outro ex-aluno de Vítor Frade, mas este sem passagem pelo FC Porto - estava ao serviço do Belenenses, em 2004/05, e necessitava de reforçar a equipa técnica. “Na altura precisávamos de um preparador físico”, começa por dizer Rifa ao Bancada, adjunto de longa data de Carvalhal. “Não o conhecia, mas o Carvalhal conhecia e sabia do potencial dele. Convidou-o. Já na altura demonstrava muita competência, liderança e era brioso no trabalho. Um ótimo profissional. Na altura foi uma mais-valia para a nossa equipa técnica”, reconhece.

"Já na altura se percebia que ele queria ser treinador e que tinha potencial. Sempre muito interessado, guardava os exercícios todos". Rifa

Em Belém volta a encontrar-se com o conterrâneo Gaspar e o central teve a oportunidade de ficar ainda com mais boas impressões do jovem técnico. “No Belenenses também era muito ativo dentro da equipa técnica. Foi sempre aprendendo”, sublinha Gaspar. Algo que é corroborado por Rifa: “Ele entrou como preparador físico, mas a nossa forma de trabalhar visava muito o jogo. O Miguel [Cardoso] preparava o aquecimento e também a parte muscular dos jogadores, mas era um treinador também. Já na altura se percebia que ele queria ser treinador e que tinha potencial. Sempre muito interessado, guardava os exercícios todos. Era uma pessoa que já se estava a preparar para no futuro ser treinador principal. Foi sempre um objetivo dele”.

Nessa equipa do Belenenses também estava o médio Marco Paulo, que confirma o lado profissional que Miguel Cardoso sempre passou. “Era bastante profissional e focado na tarefa do treino. Fora disso era uma pessoa aberta e que conversava muito sobre futebol e partilhava algumas ideias. Pareceu sempre ser bastante acessível e sempre pronto a dialogar e a explicar dúvidas que tivéssemos. É uma pessoa do futebol, bastante interessada e já na altura denotava conhecimento suficiente. Pareceu-me sempre uma pessoa ambiciosa e com vontade de chegar mais longe na carreira”, admite ao Bancada.

“Era uma pessoa com um discurso fácil e os jogadores tinham uma grande proximidade com ele”, revela, por sua vez, Wilson, antigo central dos azuis do Restelo. “Apesar de estar ligado à parte física, ele integrava-se bem na dinâmica de jogo naquilo que lhe era pedido pelo Carvalhal. Percebia-se que gostava de dar um cunho pessoal às suas equipas. As suas equipas gostam de ter a bola, procurar agredir o adversário no bom sentido. Era um tipo de pessoa que passava um discurso positivo e falava a linguagem do futebol, isso facilitava muito. Não receava o nome do adversário e gostava que fossemos nós próprios em campo. Via-se que havia ali ideias diferentes do treinador tradicional, pois gostava de assumir o jogo”, recorda-nos o antigo internacional angolano.

"Às vezes, na brincadeira, até dizia que ele era demasiado profissional. Mesmo nos treinos que eram mais para descomprimir estava constantemente a puxar por nós". Gaspar

Apesar da boa ligação aos jogadores, Miguel Cardoso sabia cobrar dos mesmos quando tinha de ser. “Às vezes, na brincadeira, até dizia que ele era demasiado profissional. Mesmo nos treinos que eram mais para descomprimir estava constantemente a puxar por nós. Para mim um treinador é um professor e quando se tem a formação e a pedagogia as provas estão por aí. Sou suspeito porque falo com o coração, mas ele vai além do profissionalismo, coloca muita paixão”, destaca Gaspar.

É também com Carvalhal e Rifa que Miguel Cardoso tem uma primeira passagem por Braga, em 2006/07, onde mais tarde viveria uma experiência triunfal com Domingos. Mas já lá vamos. Nessa primeira passagem cruza-se com o lateral Pedro Costa, que ficou imediatamente impressionado com os métodos do (ainda) preparador físico. “O que me chamou mais à atenção – e, mais tarde, na Académica tive a confirmação – foi a qualidade que tinha no trabalho. Era uma pessoa muito interessada e competente, mesmo na análise dos adversários. Notava-se que ele estava muito comprometido e era competente no que fazia. Era nisso que ele fazia a diferença, pela qualidade do trabalho e pela forma como comunicava com os jogadores”, explica-nos.

“Era uma pessoa que se preocupava muito com os jogadores e com o estado físicos deles. Na Académica já trabalhava mais em conjunto com o Domingos. O Domingos confiava completamente nele e nas suas capacidades e notava-se que já tinha à vontade para estar no treino. Notava-se que era uma pessoa estudiosa e que sabia o que estava a fazer”, analisa Pedro Costa, sobre a passagem de Miguel por Coimbra, já como adjunto de Domingos Paciência, onde se cruzaram novamente, conduzindo os “estudantes” ao sétimo posto do campeonato em 2008/09.

Ligado ao sucesso defensivo do SC Braga

O bom trabalho realizado pela equipa técnica de Domingos em Coimbra conduziu-os a Braga. Mais um reencontro no já longo percurso de Miguel Cardoso. Mas, desta vez, a caminhada foi triunfal. Os minhotos foram vice-campeões na primeira época, em 2009/10, e finalistas vencidos da Liga Europa na segunda, em 2010/11. Feitos inéditos na história do clube e aos quais muitos atribuem grande parte da responsabilidade ao técnico natural da Trofa. Sobretudo no aspeto defensivo.

"Às vezes cobrava até demais, porque sabia que podíamos dar mais". Mossoró

“Em Braga, já lhe era reconhecida grande competência pelo plantel”, comenta Diogo Valente ao Bancada, que passou pelos “arsenalistas” em 2009/10. “O trabalho defensivo era muito o Miguel [Cardoso] que fazia. Ele pegava nos jogadores mais defensivos e fazia o trabalho de linhas”, recorda. Também Márcio Mossoró, uma das estrelas dessa equipa, destaca o trabalho feito pelo técnico adjunto de Domingos. “Foi um dos maiores responsáveis pela parte defensiva da equipa. Estava sempre a exigir e a trabalhar a parte defensiva. Era um dos homens de confiança do Domingos. Entende bastante de futebol, percebe muito da parte tática. Sempre conversou com todos os jogadores e sempre incentivou. Às vezes cobrava até demais, porque sabia que podíamos dar mais. Foram dois anos muito bons”, assevera o médio brasileiro, atualmente a jogar na Turquia, ao serviço do Basaksehir.

“O sucesso em Braga terá de ter sido partilhado por toda a equipa técnica e por toda a estrutura. Agora, que o Miguel Cardoso tinha um papel preponderante não duvido nada”, atira Pedro Costa, que nunca mais deixou de seguir a carreira do antigo técnico. De Braga a equipa técnica mudou-se para o Sporting, onde acabou por não ficar muito tempo. Depois seguiu-se a experiência na Liga espanhola ao serviço do Deportivo Corunha, que também não foi profícua, e, desde então, a “dupla” que conduziu o SC Braga ao céu separou-se.

Numa altura em que estava sem emprego, após o final da experiência na Galiza, Miguel Cardoso recebeu um convite do Leste europeu e não rejeitou a possibilidade. “Quando trabalhou na formação do FC Porto estava lá também o engenheiro Luís Gonçalves. Nessa altura, o engenheiro já estava a trabalhar com o Shakhtar Donetsk e conhecia o trabalho do meu irmão, vendo nele capacidade para executar um plano de recuperação da formação do Shakhtar. O convite surgiu por intermédio dele e o Miguel aceitou”, conta-nos Luís Cardoso.

Chegou a Donetsk em 2013/14, tendo desempenhado o papel de coordenador da formação e também de técnico da equipa B do clube ucraniano. Na última temporada subiu a adjunto de Paulo Fonseca no Shakhtar. Uma experiência que muitos apontam como decisiva para o passo seguinte. “Foi para a Ucrânia e não duvido que teve grandes treinadores a trabalhar com ele. Primeiro com o Lucescu e depois com o Paulo Fonseca. Certamente que o Miguel Cardoso, como inteligente que é, retirou um pouco de cada um”, sublinha Diogo Valente.

“Teve experiências com muitos bons treinadores. A última das quais acho que foi fundamental, com um treinador que eu também admiro, que é o Paulo Fonseca. Teve uma aprendizagem muito boa, bebeu de muitos lados e, como é um homem muito inteligente, absorveu tudo e criou o seu estilo e o seu jogo”, destaca Rifa. Também Mossoró acredita que Miguel Cardoso está “a colher os frutos de tudo o que plantou”. “Esteve muitos anos na Ucrânia, onde passou por uma academia muito boa e aprendeu mais em relação ao muito que já sabia, e foi muito bom para a carreira dele”, afirma o médio brasileiro, de 34 anos.

“Workaholic” que continua invicto

Após a experiência adquirida na Ucrânia recebeu o convite do Rio Ave para ter a primeira experiência como treinador principal. Depois de alguma “estranheza inicial”, Miguel Cardoso começou rapidamente a responder com triunfos. Soma já dez pontos após quatro jornadas e chegou à primeira pausa do campeonato em igualdade pontual com o Benfica e apenas superado por Sporting e FC Porto. “Só é surpresa para os desatentos”, assegura Gaspar. “O sucesso dele não é novidade para mim. Isto é só o início de uma grande carreira que ele vai ter, não tenho dúvidas disso. Vai ser um treinador que vai dar muito que falar em Portugal”, augura Márcio Mossoró.

"Fica viciado e obstinado e só quando obtém o que quer é que se dá por satisfeito". Luís Cardoso

“Sempre teve uma qualidade que distingue os bons dos muitos bons, que é o foco que mete nas coisas. Fica viciado e obstinado e só quando obtém o que quer é que se dá por satisfeito. Aliado a isso, tem inteligência e capacidade de perceção das coisas antecipadamente em relação aos outros. Dessa forma, não me surpreende que as coisas estejam a acontecer naturalmente. Sabemos que no mundo do futebol é tudo muito ténue, umas vezes estamos bem e outras estamos mal, mas as coisas estão a prometer algo interessante”, refere Luís Cardoso.

A capacidade de adaptação de Miguel Cardoso é destacada também por Gaspar. “Por vezes as coisas não funcionavam nos exercícios, por alguma razão, e ele era rápido a alterar o exercício para alcançar o que queria. Se o jogador sabe a razão de estar a fazer aquele exercício chega ao jogo e, se for preciso alterar, percebe isso e altera. A grande capacidade está aí. Ser professor ajuda. Não sei se é dom ou não, mas o Miguel é assim. A nível da alta competição só os exigentes e profissionais vingam e ele é. Ponto final, parágrafo. Ele tem uma vantagem: interessa-se. Há aqueles que são profissionais e fazem. Ele faz, mas em 100 por cento das vezes quer saber porquê. O percurso dele fala por si. Não se limitou apenas a ser professor de educação física ou preparador físico”, diz-nos o conterrâneo.

"Uma vez disse-me que um dia ia chegar lá acima. Isso demonstra a vontade que tem em trabalhar e os objetivos bem definidos que tem". Pedro Costa

“O que ele está a passar agora não me surpreende”, assegura Pedro Costa. “Vou falando com ele e uma vez disse-me que um dia ia chegar lá acima. Isso demonstra a vontade que ele tem em trabalhar e os objetivos bem definidos que tem. Pela qualidade e competência que já demonstrava na altura, notava-se que era uma pessoa que gostava do que fazia. Certamente que evoluiu e foi aprendendo com outros treinadores. As equipas por onde passou apresentaram sempre qualidade de jogo, sempre muito competentes. Ele sempre procurou ser ele próprio. O modelo de treino que apresentava foi implementado por ele. Nunca me pareceu que tivesse alguém como alvo ou referência”, afirma o antigo lateral.

Mas estes são apenas os primeiros passos, pois há quem acredite que será uma questão de (pouco) tempo até atingir voos maiores. “Já sabia que, mais dia menos dia, ia acontecer isto. Hoje está no Rio Ave, mas podem ter a certeza que no futuro vai estar a ser campeão. Por aquilo que conheço, ele tem enorme capacidade de trabalho, mesmo se as coisas mudarem. Podem ter a certeza que ele não tem só um plano A ou B, tem quase o abecedário todo para se o quiserem contrariar. Ele está lá porque merece, não por ter qualquer tipo de amigo ou empresário. Foi trabalho”, assevera Gaspar.

"Para quem trabalhou com ele não é surpresa este bom trabalho". Diogo Valente

“Para quem trabalhou com ele não é surpresa este bom trabalho. Embora possa vir a ter quebras, não há dúvidas que o Rio Ave vai fazer uma época de grande sucesso. Julgo que ele vai manter sempre a identidade e que os jogadores vão perceber a mensagem, de ter a personalidade de assumir o jogo, de sair a jogar a construir como ele gosta, com os centrais abertos e o trinco a baixar para vir buscar jogo, com os alas a fazer jogo interior e os laterais a dar grande largura. A ideia de jogo está muito bem definida e a continuar assim vai ser uma das surpresas da Liga”, aponta Diogo Valente.

É esse estilo de jogo arrojado do Rio Ave que está a colher adeptos por todo o lado. “Não me surpreende, ele preparou-se muito bem para isto. Nesta altura a minha equipa de referência em Portugal é o Rio Ave, adoro vê-los jogar. É uma equipa com ideia de jogo muito bem definida e com personalidade. Gosto muito”, admite Rifa, que está atualmente ao serviço dos ingleses do Sheffield Wednesday. A mesma ideia é passada por Marco Paulo: “Acima de tudo, o Rio Ave joga um futebol bastante positivo. Apesar de já ter tido equipas competitivas nos últimos anos, é sempre uma surpresa e é bom ver que há equipas a ombrear com os grandes. É com prazer que vejo o Miguel Cardoso chegar à Liga”.

“É um prazer ver o Rio Ave a jogar. É preciso ter-se muita competência naquilo que se faz, quando se bate de igual para igual com o Benfica, sendo até superior em alguns momentos. Não diria que é a surpresa, mas será um Rio Ave idêntico a este ao longo do campeonato. Até porque a forma de trabalhar dele é esta: dar continuidade, estabilizando a equipa em termos emocionais e físicos. As coisas não acontecem por acaso”, remata Pedro Costa.

É mesmo preciso mais alguém que não se surpreenda com este sucesso imediato de Miguel Cardoso? “Não me surpreende nada, embora estas coisas tenham sempre o seu quê de sorte. Ele beneficia de um contexto no Rio Ave em que a equipa no ano passado era das que melhor futebol jogava. Embora tenham saído alguns dos jogadores mais cotados, o que eu mais gosto continua, que é o Rúben [Ribeiro]. Deve andar tudo maluco, não sei como é que nenhum clube grande lhe pega”, questiona Vítor Frade, entre uma gargalhada.

"Convidou um dos indivíduos a quem eu chamo um ‘einsteinzinho’, que também foi meu aluno e estava no FC Arouca, o Jorge Maciel". Prof. Vítor Frade

Vítor Frade aponta ainda outro fator essencial para o sucesso do Rio Ave: a escolha da equipa técnica. “Fez-se acompanhar do [Nuno] Batista na equipa técnica, que já lá estava e também foi meu aluno, e depois convidou um dos indivíduos a quem eu chamo um ‘einsteinzinho’, que também foi meu aluno e estava no FC Arouca, o Jorge Maciel. Penso que ele já o tinha convidado para ir para a Ucrânia, mas por questões familiares acabou por não ir. É outro dos técnicos a quem auguro grande futuro”, vinca o antigo mentor e um dos grandes responsáveis pelo sucesso de uma “fornada” de técnicos que tem em Miguel Cardoso o mais recente representante.  

No entanto, não basta apenas passar pelos bancos da Universidade e pelas aulas do professor para se chegar ao topo. É preciso muito trabalho. Algo que não falta ao novo técnico do Rio Ave. Desafiado a escolher uma palavra para classificar o irmão, Luís Cardoso recorre a um estrangeirismo: “workaholic”. “É uma pessoa viciada no trabalho e, de alguma forma, isso, associado à inteligência, são as virtudes que melhor o definem. Acredito que somos predestinados e talvez ele tenha tido a felicidade de encontrar aquilo para que nasceu”, termina.

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