Opinião
GPS e fita métrica
Carlos Daniel
2017-11-13 14:00:00

Messi, Iniesta, Xavi, Dani Alves, Pedro Rodríguez, mais altos só Piqué e Busquets, que Puyol saltava alto mas não chegava a 1,80m: era feita de baixinhos a melhor equipa que vi. Aguero, Sterling, Gabriel Jesus, Fernandinho, Silva, Bernardo, altos só Ederson e Stones, que Otamendi sabe pular mas não cresceu mais que 1,83m: também é feita de baixinhos a melhor equipa que vejo hoje. Na hora de Pirlo pendurar as botas mágicas, tantos, como eu, se curvaram perante a história de um jogador sem par, lembrando de seguida a linhagem de génios que a Itália nos tem dado: Antognoni, Giannini, Mancini, Di Canio, Baggio, Zola, Totti. Nenhum monstro físico, todos gigantes da decisão, da técnica, da arte. Ironicamente, ao mesmo tempo, tantos parecem buscar o arquétipo do futebolista munidos de fita métrica, como se o sucesso num relvado tivesse passado a ser equação matemática, determinando que os mais habilitados para calçar chuteiras têm de correr mais rápido, saltar mais forte, sem esquecer a celebrada necessidade de “ganhar duelos”, coisa indispensável – dizem – nos jogos internacionais, como se os jogadores aí se transformassem nuns carrinhos de choque para uma luta em que só os grandes – em tamanho - sobrevivem.

Não, não foi por ter uma equipa com mais jogadores robustos – Felipe, Danilo, Herrera, Marega e Aboubakar – que o FC Porto deixou de perder com Besiktas e RB Leipzig (na Alemanha), como também não foi por isso que ganhou aos alemães em casa. E também não foi por ter no plantel os baixotes Zivkovic, Rafa ou Cervi que o Benfica deixou de brilhar na Champions, desde logo porque esses três criativos praticamente não calçaram e mesmo Grimaldo esteve ausente muitas vezes. Do mesmo modo que o Sporting deixou fugir dois resultados positivos com a Juventus depois de ter reforçado o meio campo com mais uma unidade robusta. Há vários caminhos para chegar ao sucesso, ninguém o negue, mas há sobretudo um rumo seguro para o fracasso no futebol: negar-lhe a especificidade e buscar nos números - altura, peso, massa muscular, metros percorridos, duelos ganhos - o critério para fundamentar as escolhas. Ser rápido é importante? É, mas determinante só no atletismo. E Carlos Lopes não era sequer muito rápido a terminar as corridas, antes melhor que quase todos a geri-las. Ser alto pode ser relevante? Claro, sobretudo para um guarda-redes ou um central, mas determinante será no basquetebol, e mesmo assim Michael Jordan, que não chegava a dois metros, foi o melhor que vi (e provavelmente verei) a voar para um cesto. E Casillas fez a carreira que se conhece na baliza sem ameaçar tocar na barra com a cabeça, Cannavaro era um central ainda mais baixo que Puyol e ganhou uma Bola de Ouro, Falcao tem estatura meã e voa também sobre os centrais. E penso em Busquets, em Silva, em Kroos, como antes em Schuster, em Laudrup, em Pirlo – sim, nova vénia a Pirlo: a velocidade de pensamento é muito mais relevante que a de pernas.

Outra coisa é identificar um perfil de jogador para uma ideia de jogo feita de mais lançamentos directos e combate por segundas bolas. É uma opção totalmente respeitável que vemos, por exemplo, num Manchester United, que Mourinho constrói sobre os ombros de Lukaku, Pogba ou Fellaini, mesmo se é quando a bola passa por Herrera, Mata ou Mkytharian (ou Matic, claro, que também há gigantes pensadores) que o jogo dos red devils ganha o critério que lhe revela a melhor face. Assumidamente, o futebol que prefiro é mais de Aguero que de Lukaku, mais de Silva que de Pogba, como gosto mais de Coentrão do que gostava de Zeegelaar, não consigo sequer comparar Pizzi a Samaris, nem me interrogo sobre quanto mede Ricardo Pereira. A Alemanha, exemplo acabado do futebol feito de centímetros e músculo no século passado, quando a preparação física tomada isoladamente ainda determinava o poderio das equipas, percebeu na viragem de século que o futebol ainda eram onze contra onze mas que no fim já perdia a Alemanha. Abandonou o perfil físico e foi em busca do talento, com Lahm, Ozil, Gotze ou Podolski, mas sobretudo modelou o seu jogar num estilo em que a posse é mais cuidada, em que a bola vive mais junto à relva que no ar, em que a evolução táctica se tornou muito mais determinante que a dimensão física. É hoje a melhor selecção do mundo – a avaliar também pelos resultados – e até como uma segunda escolha ganhou as Confederações, sem discussão, no Verão passado.

Nestes tempos do treino medido à minúcia, em que se sabe quase tudo de cada atleta, é grande a tentação de tomar decisões com base nos dados do GPS e em mais uns quantos que estão disponíveis. Isso oferece uma (aparente) grande vantagem a quem pretende tomar ou influenciar decisões: a suposta cientificidade reduzirá a dimensão subjectiva. Ou seja, santificando os números, todos sabemos do jogo - ou dos jogadores - mais ou menos o mesmo. O problema é que a quantidade nunca nos dirá o suficiente sobre a qualidade. É sempre preciso saber para que se pretende determinado atleta, para que modelo, dinâmica ou função. O mesmo jogador num contexto diferente… é outro jogador. Procurar um futebolista com balança e fita métrica será como medir o talento de um pianista pelo tamanho dos dedos ou a curvatura das costas. Pode dizer-nos muito sobre o estado físico do profissional mas quase nada quanto ao talento do artista.

Carlos Daniel é jornalista na RTP e escreve no Bancada às segundas-feiras.

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