Opinião
Das análises ao jogo
Carlos Daniel
2017-11-20 14:30:00

Sou um daqueles que cresceram à espera que chegasse de autocarro o jornal desportivo, à vez A Bola, o Record ou a Gazeta dos Desportos, que ainda não os havia diários. Nos dias após os jogos importantes crescia a ansiedade, sobretudo de ler a análise individual dos jogadores: quem tinha jogado melhor, se o meu preferido ou outro, quem teve mais oportunidades, quem errou mais também, e sempre as pontuações individuais, de 1 a 3 ou 1 a 10, que me pareciam encerrar toda a ciência do jogo. O futebol interpretado começou por ser, para mim, o saldo de uma adição de individualidades. Uma equipa nunca era mais que a soma das partes, dos seus onze avos, era apenas isso.

Como me influenciou, seguramente esse hábito moldou a forma de tantos entenderem uma partida, talvez a maioria, ainda. No meu caso, passou, no entanto, do topo das prioridades para simples curiosidade, até se tornar, hoje, uma absoluta inutilidade. Sei que os próprios jogadores continuam a dar atenção particular a essa frase que lhes resume noventa minutos mas confesso que, entendendo que essa valoração é atractiva para o leitor – sim, se fosse director de um jornal manteria pontuações individuais -, considero que diz muito pouco do que interessa entender num jogo. É uma visão parcelar, que nega o princípio do colectivo como fundamental e cria a ilusão de que o sucesso de uma equipa está no dia mais feliz deste ou daquele jogador, na simples opção de um treinador em fazer alinha A em vez de B. Um resquício relevante desta forma redutora de analisar é a importância exagerada que se dá à eleição, tão fatal como inócua, do melhor em campo. Televisões, rádios, os novos media, ninguém abdica de nos dizer que, naquele jogo, houve um que se destacou dos demais, normalmente porque marcou golos, defendeu um penalti, brilhou num par de jogadas. Mas o que nos diz isso da qualidade do futebol de uma equipa, do seu processo de jogo, da eficácia da estratégia assumida? Diz-nos o que já sabíamos. Aliás, identificar um jogador que se destaca num jogo está no domínio do óbvio. Não é preciso ser grande especialista para lá chegar.

A propósito, costumo colocar uma pergunta em tertúlias com amigos sobre o jogo: faz sentido um treinador substituir um jogador apenas porque está num dia menos feliz? Se o jogador tem qualidade, e há-de ter senão não era escolhido, se tacticamente está a cumprir o que foi delineado, e o treinador sabe sempre se sim ou não, se apenas lhe saiu menos bem um drible, uma intercepção ou um remate, que sentido faz trocá-lo por outro? A célebre explicação de Thierry Henry sobre Guardiola dá aqui imenso jeito. O francês tinha brilhado na primeira parte de um jogo do Barcelona com o Sporting, fizera até um golo – podemos supor que estaria a ser “o melhor em campo” – mas foi substituído ao intervalo porque o técnico lhe pedira um comportamento e ele resolveu adoptar outro. Henry aprendeu a lição, assume.

Não pretendo estabelecer um postulado sobre análises e comentários, apenas motivar alguma reflexão sobre clichés gastos e de duvidosa validade. Por exemplo, a importância dada às substituições é manifestamente exagerada. Reflexo desses tempos em que o futebol partia de uma perspectiva individual, de marcação ao homem no momento defensivo e liberdade aos artistas na hora de atacar, a ideia de que mudando um jogador se altera toda a história do jogo não tem, na maioria das vezes, correspondência com a realidade. Não, não estou a negar nem a importância da estratégia para um dado jogo, que recomenda este atleta e não aquele, muito menos a importância da gestão do jogo – a capacidade de o entender no banco - que tantas vezes faz a diferença entre um simples treinador e um grande treinador. É no plano da análise que me situo hoje, de quem ignora o modelo de jogo, a dinâmica colectiva, e vê na troca de uma peça a solução mágica para virar a mesa. Há quem comece a projectar substituições e mudanças de sistema ainda o intervalo vem longe, como se pudesse haver sempre um passe de mágica garantido por um jogador que nem mereceu estar nas primeiras escolhas. Depois exagera-se também em pedir ao suplente utilizado, ao homem que entra em campo sozinho, que faça o que os outros todos juntos não estavam a conseguir. “Não trouxe nada de novo…” diz-se tantas vezes, numa injustiça absurda e cruel. Como há obsessão em ver qual a equipa que está “por cima” – o que costuma ser óbvio, de novo – como se estar melhor no jogo fosse apenas ter chegado mais perto da baliza contrária nos 5 minutos anteriores, quando isso pode ser desmentido de seguida e depende tantas vezes de uma estratégia deliberada. É normal que as equipas mais fracas optem por se proteger, por terem menos iniciativa, o que não é sinónimo de estarem menos bem no jogo.

Talvez se dê demasiada importância aos sistemas tácticos, como se não houvesse uma dinâmica posterior e factores mais determinantes do jogo, mas, mesmo assim, antes o excesso de 4.3.3. ou 4.4.2, que ignorar qualquer intenção colectiva de jogo ou a insistência em explicar-nos  o gesto técnico que todos já percebemos, como aquela coisa de que o homem “devia ter chutado com o pé esquerdo” ou que “tinha um colega mais bem colocado”. E que dizer da facilidade – e até felicidade - com que se comparam alturas de jogadores, como se ter mais 20 centímetros que o rival de ocasião fosse algo muito relevante. Maus mesmo, o que de todo me parece ser necessário denunciar para que acabe, são as narrações ou comentários televisivos esquizofrénicos, que que nos estão a mostrar um jogo mas a falar-nos de tudo menos dele: é o calendário anterior e posterior de cada equipa, o clube onde o defesa-esquerdo alinhou nas dez épocas anteriores, o número de jogos que fez contra aquele mesmo rival, a percentagem de vitórias em jogos em casa, até ao supremo absurdo estatístico do jogador que “tem sorte” perante ou guarda-redes rival ou naquele estádio.

A essência do jogo é colectiva. Entendê-lo é, antes de mais, perceber como cada equipa pretende defender e atacar, identificar comportamentos-padrão que concretizam intenções, nos melhores casos previamente (bem) treinadas. Silas, que chegou há pouco aos comentários, dizia e bem um destes dias, a propósito do histórico “entrosamento”, sugerido pelo narrador como objectivo difícil, que “tempo para treinar todas as equipas têm”. É mesmo isso, perceber o jogo também é perceber o que resulta do treino. E essa capacidade, como dizia um anúncio de um perfume aqui há uns anos, uns têm, outros não. Os melhores analistas são os que têm.

Carlos Daniel é jornalista na RTP e escreve no Bancada às segundas-feiras.

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