Portugal
“Dá jeito ter um maluco como o Bruno de Carvalho à frente do Sporting”
Redação
2020-05-15 14:40:00
Hélder Amaral recorda raciocínio "egoísta". Elogia Bruno de Carvalho e critica Varandas, Patrício, Adrien e William

“Prefiro um exército de ovelhas comandado por um leão, do que um exército de leões comandado por uma ovelha”. A metáfora, do antigo deputado eleito pelo CDS e adepto do Sporting, Hélder Amaral (num podcast do ‘Rugido Verde’, nesta quinta-feira à noite), resume, na perfeição, a sua visão sobre a diferença das últimas lideranças diretivas no Sporting. De um lado, Bruno de Carvalho, alvo de elogios (apesar dos erros cometidos). Do outro, Frederico Varandas.

Hélder Amaral, que abordou a realidade leonina recuando aos tempos do antigo presidente, lamenta falhas de perceção da realidade, mas não deixa de considerar que aquele era o homem certo no lugar certo.

“Não votei em Bruno de Carvalho. Não gostava do estilo. Mas percebi que, afinal, ele tinha o perfil de que o Sporting precisava, no momento em que o futebol atravessava. Ele disse coisas de uma forma que eu não diria, mas que precisavam de ser ditas. Eu teria feito tudo um pouco diferente. Tomava menos decisões, tratava um problema de cada vez e estaria muito atento. Talvez um dia, quando o encontrar, vou falar com ele sobre isso... Ele tinha noção dos perigos. Por isso, ele disse, um dia, ‘ou fujo, ou morro’”, realçou.

O deputado insiste que não se revia no perfil, mas a mensagem agradava: “Confesso que fui um daqueles egoístas que acharam ‘dá-me jeito ter um maluco como o Bruno de Carvalho à frente do Sporting’. Ele diz as coisas que eu não quero dizer, corre riscos que eu não quero correr. E até parece estar a funcionar. Mas senti que isso seria cobarde da minha parte e achei que não poderia deixar a direção sozinha. Não controlo o perfil, mas faz parte do homem...”. E por isso manifestou todo o apoio, nas intervenções públicas.

O ex-presidente, no entanto, não estava acompanhado das pessoas certas, segundo Hélder Amaral. “Ele sabia que ia para a Síria. Não percebo porque é que ele, sabendo para onde ia, não teve presentes os riscos e as minas que tinha no caminho. Quem vai para a guerra, arranja uma direção com gente solidária e competente. E essas coisas foram falhando”, defende.

E esta é uma das coisas que Bruno de Carvalho “deveria ter feito de forma diferente”. E aqui, sem citar nomes, Hélder Amaral sugere que Rui Patrício, William e Adrien deveriam ter sido afastados da equipa, logo no início do processo de deterioração de relações, que terminou no ataque em Alcochete.

“Bruno de Carvalho cometeu falhas de perceção, deveria ter protegido melhor a instituição, em vez de ir até ao limite... Quando damos um passo atrás, poderemos não estar a recuar, mas a apanhar balanço... Porventura, Bruno de Carvalho deveria sido consequente, despedindo dois ou três atletas, com justa causa, ou posto esses atletas a treinar na equipa C. Podíamos ter arranjado uma unidade de queimados, para dar o exemplo e acabar com a brincadeira. E se calhar Bruno de Carvalho ainda estaria hoje à frente do Sporting, em vez de ter entrado naquela espiral", lamenta.

"Mas prefiro um exército de ovelhas comandado por um leão, do que um exército de leões comandado por uma ovelha”, salientou Hélder Amaral, numa aparente comparação entre o antigo presidente e o atual líder.

Num olhar a esse momento conturbado da história do Sporting, o sportinguista recua a um momento decisivo da época – que termina com uma derrota com o Marítimo, o que abriu as portas da Champions ao Benfica.

“Nem Patrício, nem Adrien, nem William tiveram uma frase sobre a sua pouca entrega. Basta que olhemos para as diferenças das exibições do William na primeira época, na segunda e na terceira. Como é que um jogador que é formado no Sporting, acarinhado pelos adeptos, a única coisa que quer é sair?”, questiona.

Amaral recorda essa derrota do Sporting com o Marítimo, na última jornada da temporada 2017/18, em que um golo nos descontos permitiu a vitória dos insulares e a queda leonina no terceiro lugar, com o Benfica a ‘herdar’ a vaga nas pré-eliminatórias da Liga dos Campeões.

“Confesso que gostava de um dia confrontar os três [Patrício, Adrien e William] com o seguinte. O jogo valia o segundo lugar, Liga dos Campeões, que tinha um prémio-extra que era deixar o nosso eterno adversário fora da Liga dos Campeões. Porventura, o Benfica não teria hoje a força, a pujança, a dinâmica, a influência que tem em todo o mundo do futebol. Nós tínhamos provocado dano. Como é que se chega ao Marítimo e se perde aquele jogo? Jogadores de futebol com quem falei disseram-me que jogos daqueles é para sair de lá com as pernas partidas, mas para ganhar. Depois, até poderiam dizer ‘vamos sair, ou muda a direção ou saímos nós’”, afirma.

Dirigindo-se aos três ex-jogadores do Sporting, faz um raciocínio: “Ok, há razões, não vale a pena escamotear, de uma relação difícil com o presidente do clube [Bruno de Carvalho]. Mas não há com o treinador, com os colegas, com os sócios, com a instituição, com a vossa profissão, com o vosso valor de mercado”.

Frederico Varandas também é alvo de críticas: “Não está a saber gerir o Sporting sem olhar para o retrovisor. Gostava de ver o meu clube reabilitar Bruno de Carvalho e permitir que ele volte a ser sócio. Por mais que tenham havido atropelos”.

No campo desportivo, o atual presidente leonino está a falhar.

Hélder Amaral critica política desportiva do Sporting, por dispensar jovens talentos com muita qualidade e contratar jogadores de qualidade duvidosa, alguns dos quais por empréstimo e com elevados salários. “Com pernetas a titular, estamos a dar um péssimo sinal à formação”, salienta

Segundo o ex-deputado, o clube de Alvalade não pode repetir um processo em que “atletas são sistematicamente emprestados e que fazem boas pré-épocas” são dispensados, para dar lugar a jogadores que chegam “só porque têm o empresário ‘a’, ‘b’, ou ‘c’”.

“Depois de tudo o que andamos a pôr nos jornais, ou mandamos pôr nos jornais, para promover um determinado atleta, chega um perneta e fica a titular. O sinal que estamos a dar à nossa formação é que eles não contam. Quando nós não temos um modelo desportivo que permita que o clube, em vez de estar enredado em interesses de dirigentes, em vez de querer ser campeão”, conclui.