Grande Futebol
Chris Coleman, o treinador mais corajoso do Mundo
João Pedro Cordeiro
2017-11-19 17:10:00
Chris Coleman abandonou a segurança como selecionador do País de Gales para regressar ao futebol de clubes em Sunderland

Coragem. Substantivo feminino. “Firmeza de ânimo ante o perigo, os reveses, os sofrimentos”. Bravura. Audácia. Valentia. Se há treinadores que reúnem todas estas características sinónimas, um deles tem de ser Chris Coleman. Mais. Chris Coleman é, hoje, muito provavelmente o treinador mais corajoso do Mundo. Deixar a segurança de Gales, meses depois de guiar a federação britânica a uma inédita presença numa semifinal de uma grande competição de seleções - mesmo que até tenha falhado repetir presença em torneio similar há poucos dias - para ingressar na posição mais amaldiçoada do futebol inglês atual, não é para todos. Requer coragem. Bravura. Valentia. Hoje anunciado como novo treinador do Sunderland AFC, Chris Coleman parece reunir todas estas características.

Zenica, outubro de 2015. O resultado até podia ser semelhante mas as implicações do mesmo em nada foram próximas. Quando Undiano Mallenco apitou para o final do encontro na nona jornada de qualificação para o Europeu 2016, a derrota do País de Gales na Bósnia, por 2-0, definiu-se como a derrota mais saborosa da história do futebol galês. Mesmo perante o desaire, o País de Gales confirmou a presença no Campeonato da Europa, a primeira competição de seleções da federação desde 1958. Chris Coleman festejou. Festejou como poucos. Afinal, encontrava redenção, ali, em solo bósnio. Dois anos antes, perto dali, na Sérvia, uma derrota por 6-1 colocou um ponto final nas aspirações galesas em chegar ao Mundial 2014 mas, mais que isso, colocou em sérias dúvidas a permanência de Coleman ao comando da seleção britânica. Dois anos passaram e Coleman ressurgiu. De Vilão, a herói. Uma capacidade redentora habitual ao longo da carreira. Ora como técnico, ora como jogador. Prosperar na adversidade é uma imagem de marca para Chris Coleman.

Em 2016, Chris Coleman fez história. Ao comando da seleção do País de Gales, Coleman liderou a federação britânica à primeira participação numa grande competição de seleções desde 1958. Em França, mais do que fazer figura de corpo presente, o País de Gales foi uma das sensações da prova ao alcançar a meia final do torneio gaulês, tendo caído, como se sabe, somente aos pés de Portugal que acabou por se sagrar campeão europeu. Em Cardiff Chris Coleman não tinha apenas a sua cadeira de sonho – ou uma das, até ao dia que pegue no seu Swansea. Tinha emprego para a vida e a máxima segurança possível que o futebol pode oferecer. Em Sunderland, porém, Coleman irá encontrar instabilidade e uma das posições do futebol atual mais complicadas de reverter.

Depois de vários dias (semanas até) de rumores, a novela chegou ao fim. Chris Coleman deixou o lugar de selecionador do País de Gales após ter falhado o acesso ao Mundial 2018 e assumiu o cargo de treinador em Sunderland. A decisão é corajosa. Coleman toma conta de um Sunderland enterrado na classificação na segunda divisão inglesa, último classificado e com apenas uma vitória nos dezassete jogos já disputados. Os Black Cats seguem na pior sequência de resultados caseiros da história do futebol inglês: são neste momento vinte os jogos consecutivos sem qualquer vitória para o Sunderland em casa, ainda assim, a salvação encontra-se a apenas quatro pontos. No Norte de Inglaterra o contexto é tudo menos favorável para qualquer treinador e se alguns fugiram dele (como foi o caso, segundo a imprensa, de Michael O’Neill atual técnico da Irlanda do Norte), Coleman aproximou-se. Sinal de coragem.

Em Coleman, o Sunderland encontra ambição. Mesmo perante o cenário dantesco que absorveu o clube do Norte de Inglaterra nos últimos anos, factos são factos: nas últimas épocas, Coleman é o segundo treinador dos Black Cats que em tempos alcançou uma meia final de uma grande competição de seleções depois de Dick Advocaat. Mais do que isso, o Sunderland garante em Coleman um técnico que nos últimos anos esteve diretamente ligado à ascensão de Gales como potência do futebol mundial de seleções. Não só liderando a federação britânica à primeira participação numa grande competição de seleções em décadas, como levando Gales à melhor classificação da história da federação no ranking FIFA. Se em 2012, ano em que Chris Coleman tomou conta do País de Gales, a federação britânica se estabelecia num modesto 82º lugar no ranking FIFA, Coleman deixou Gales com a equipa instalada na 14ª posição. Em outubro de 2015, o País de Gales chegou mesmo à oitava posição, a melhor da história da federação. Tudo isto, após um início de carreira desastroso ao serviço da federação galesa durante o qual perdeu os cinco jogos iniciais que disputou e que o próprio Coleman admitiu mais tarde tê-lo levado a repensar a sua utilidade para o cargo que desempenhava. “Tive dúvidas se realmente era o certo no lugar certo. Nós não perdemos apenas na Sérvia, humilhamo-nos a nós próprios [6-1]. Mas pensei que seria um cobarde se simplesmente desistisse”, afirmou Coleman em entrevista à imprensa inglesa há alguns meses.

Em Sunderland Chris Coleman regressa ao futebol de clubes, cinco anos depois de ter prosseguido a carreira como selecionador nacional. O Sunderland será o quinto clube da carreira de Coleman, um técnico corajoso que não é estranho a cenários de stress, trauma e complexidade. Afinal, em 2012, quando pegou na seleção do País de Gales, fê-lo após o suicídio do então selecionador Gary Speed, amigo pessoal de várias décadas de Chris Coleman, e com quem partilhou a quase totalidade das 32 internacionalizações com que terminou a carreira de jogador em 2002. O mesmo Coleman que, em 2003, pegou pela primeira vez numa equipa profissional de futebol aos 33 anos e se tornou na altura o mais jovem técnico da Premier League, guiando o Fulham a um surpreendente nono lugar na primeira temporada completa da carreira como treinador. Anos depois, em 2007, Coleman aventurou-se no futebol espanhol, pegando numa Real Sociedad enterrada na segunda divisão espanhola, saindo do clube a meio da temporada por divergências de visão com a direção, e com o clube basco instalado na quinta posição da competição. Assumiu o Coventry City, meses mais tarde, numa altura em que o clube iniciava o pior momento da sua história que, ao dia de hoje, deixa o clube de Coventry na quarta divisão inglesa. Antes de pegar na seleção do País de Gales após a tragédia com Gary Speed, Coleman passou ainda pela Grécia onde problemas financeiros no AEL motivaram um afastamento precoce de Coleman, somente ao fim de uma dúzia de partidas.

Nem como jogador a carreira foi fácil para Chris Coleman. O antigo defesa e internacional galês disputou várias épocas na Premier League até um acidente rodoviário, em 2001, lhe ter terminado a carreira. Coleman sobreviveu “apenas” com uma perna partida (temeu-se a amputação de um pé), porém, não regressou ao nível que apresentara anteriormente e que o levou a internacional pelo País de Gales durante uma década – ele que até podia ter jogado pela República da Irlanda o Mundial de 1994 -, razão pela qual o hoje técnico do Sunderland enveredou de forma tão precoce na carreira como treinador.

Sem nunca se esconder ao desafio, Chris Coleman fez jus à história da própria carreira e deixou o País de Gales para assumir uma das posições mais nefastas do atual futebol inglês. Coragem. Audácia. Bravura. Valentia… Tudo isto parece ser característica de Chris Coleman. Porventura, o treinador mais corajoso do Mundo nos tempos que correm. Uma carreira construída na adversidade e que os últimos tempos possibilitaram a Chris Coleman prosperar. Chris Coleman, o treinador mais corajoso do Mundo. Herói nacional no País de Gales.

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