Portugal
Alexandre Guedes e a história do Robocop que deixou de o ser
Diogo Cardoso Oliveira
2018-05-20 22:10:00
Guedes representa a tranquilidade em pessoa. E não se misturava com o resto da malta.

Alexandre Guedes é o herói do dia. Derrubou o Clube de Poetas Mortos, como escrevemos no Bancada, e deu a Taça de Portugal ao Aves. Dois golos que são uma “traição” ao clube que o formou, em Alcochete, por parte de um rapaz que não gostava de ser o "Robocop", que foi muito “apertado” por culpa de um símbolo do Youtube e que chegou a prometer muito mais do que aquilo que conseguiu. Histórias a ler mais à frente.

Primeiro, conheçamos o herói de 24 anos. Mica Pinto, Mateus Fonseca, Luís Cortez e Vítor Alves, ex-colegas, falaram ao Bancada, destacando que Guedes representa a tranquilidade em pessoa. E não se misturava com o resto da malta.

“O Guedes é um miúdo calmo, no seu canto. No balneário não falava muito, mas dava-se bem com toda a gente”, recorda Mateus Fonseca, colega em Alcochete, tal como Cortez: “O Guedes era um rapaz muito calmo e não se misturava muito com a malta, mas é mesmo da personalidade dele”. "Como pessoa, defino-o como muito tranquilo, pacato e que gosta de estar no seu canto”, diz Vítor Alves.

Quatro depoimentos, quatro ideias semelhantes. Com isto, é difícil não acreditar que Guedes é, realmente, um rapaz muito pacato. Mica Pinto, por sua vez, prefere referir um rapaz simples: “Guedes sempre foi uma pessoa cinco estrelas. Muito simples e muito amigo”. “Sempre foi um rapaz simples”, reforça.

Sai da Frente, Guedes!

Alexandre Guedes, um gaiense, deu nas vistas no São Félix da Marinha e foi caçado pelo Sporting, ainda iniciado. Viajou para o sul e foi viver para Alcochete, algo que lhe permitiu ir a um Europeu sub-19. E chegou a ser grande. Em 2013, na Lituânia, foi o melhor marcador da competição na qual Portugal caiu nas meias-finais, frente à Sérvia Drulovic, onde estavam Milinkovic-Savic ou Mitrovic. Nessa equipa portuguesa, havia gente que já está bem no topo: Bernardo, Cancelo, Varela, Rony Lopes ou Ricardo Horta. Lá na frente, o rei da festa era Guedes.

Pausa lúdica. Não é fácil arranjar boas histórias de alguém tão tímido e recatado como Guedes. Ainda assim, Mica Pinto recorda-se de que Guedes foi “entalado” pelo… Youtube. “Gozávamos muito com o vídeo que se tornou viral do ‘sai da frente, Guedes’”

Guedes, por acaso, até acabou por sair da frente. Saiu da frente do Sporting, que não o quis. Luís Cortez até assume, ao Bancada, que não sabia de Guedes. “Sinceramente, deixei de ouvir falar dele quando saiu do Sporting. Depois voltei a ouvir falar dele e hoje lá apareceu. Ele luta muito e acabou em grande esta Taça de Portugal”.

Pergunta de um milhão de euros: se o rapaz era do Sporting e deu tanto nas vistas nesse Europeu sub-19, por que motivo desapareceu? É uma boa questão. Guedes fez uns joguinhos na equipa B leonina, mas acabou por ir para o Réus, com Rúben Semedo. Na Catalunha, conseguiu um número bem redondo: zero golos em duas temporadas. Sejamos justos: o homem saía quase sempre do banco. Assim é difícil, amigos espanhóis. Assim é difícil.

Guedes regressou a Portugal e o Sporting voltou a não olhar para ele. Para Mica Pinto, Guedes passou pelo que passam muitos outros: “Sempre soube que o Guedes tinha muita qualidade. Hoje em dia, muitos jogadores passam pelo o que o Guedes passou: falta de oportunidades e de confiança por parte dos clubes que os formam”.

Atirou-se de cabeça para o Aves e, por lá, Vítor Alves diz o que viu.

“Quando chegou ao Aves, vi nele um jogador com grande margem de progressão, um 9 muito móvel na procura de espaços e agressivo nesse momento. Sabia segurar muito bem a bola entregava com qualidade. Procurava constantemente zonas de finalização com uma agressividade muito forte, finalizando com muita qualidade, com ambos os pés e cabeça”.

Oh Vítor, esta descrição soa a craque... “Era, claramente, um jogador de clube grande e isso vai surgir com naturalidade”, prevê, ao Bancada. Mateus Fonseca até lembra que Guedes “é um ponta de lança diferente do que, em Portugal, estamos habituados”, referindo-se à boa estampa física e mobilidade do ex-colega.

Quanto a golos, tem tido altos e baixos. Era goleador na formação, mas vacilou na passagem a sénior. Na Vila das Aves, em três anos, Guedes tem conseguido melhores registos de golos nas últimas temporadas do que nesta – o salto da II para a I Liga ajuda a explicá-lo –, mas, neste domingo, no Jamor, os golos valeram mais do que todos os outros.

Guedes deu a volta por cima e chegou a herói, tal como destaca Mateus Fonseca. “Infelizmente, não conseguiu subir à equipa profissional, mas conseguiu dar a volta e, agora, está a mostrar as suas qualidades. Não tinha dúvidas de que poderia chegar lá, porque sempre foi muito trabalhador”.

O futuro? Os amigos de Guedes apontam-no a outros voos. “Fico muito contente por ele, pois merece tudo o que se está a passar hoje. Mas sei que não vai ficar por aí. Eu sabia que ele podia marcar a diferença neste jogo e sei que pode chegar a patamares muito mais elevados, pois qualidade nunca lhe faltou e sempre foi muito trabalhador", diz Mica Pinto.

O Robocop

No famoso filme Robocop, havia um robô. Em Alcochete, também havia um robô. Luís Cortez lembra-se de muitos colegas viam Alexandre Guedes como tal.

“Lembro-me de que o Guedes não gostava nada que lhe chamássemos “Robocop”, por ele ser assim todo rijo”, conta-nos, entre risos.

Uma coisa é certa: no Jamor, Guedes foi rijo. Tão rijo que deu cabo de onze leões. Mas também uma coisa é certa: olhando para a exibição de Guedes, sempre com muita mobilidade, ele foi tudo menos um robô.

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