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Visto da Bancada

Miguel Lambertini (Nº 295)

RedaçãoPor Redação06/08/20185 Mins Leitura
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Três pistas: fala-se de Fehér, de bigodes no Duarte & Cª e de Paulo Catarro a fazer de Cristina Ferreira.

Na edição n.º 295 do “Visto da Bancada”, desafiámos Miguel Lambertini. É humorista e é muito provável que já o tenha visto em ação num vídeo viral: Miguel imita Salvador Sobral, numa versão de “Amar pelos Dois”, a pedir o Benfica tetracampeão.

Pedimos ao humorista que nos contasse um jogo de futebol visto da bancada e, como a história veio tão completa e com tantas experiências distintas, colocamos o texto na íntegra e da autoria de Miguel Lambertini. Três pistas: fala-se de Fehér, de bigodes no Duarte & Cª e de Paulo Catarro a fazer de Cristina Ferreira.

“Há quatro ou cinco jogos do meu clube que de alguma forma me marcaram, seja pelo resultado final delicioso, como foi o 6-3 daquele histórico derby (e acabei de perder os leitores sportinguistas, antes do final da primeira frase) ou por ordem de circunstâncias terríveis, como no jogo em que desapareceu “Miki” Fehér. Mas como estamos em ambiente pós Mundial de Futebol, achei interessante relembrar quais os jogos da selecção nacional que me ficaram gravados na memória. São três: obviamente a final do Europeu de 2016, e curiosamente dois jogos contra a Inglaterra. Um mais recente, no Euro 2004, que ganhámos na marcação de grandes penalidades com uma exibição inesquecível do nosso guarda-redes Ricardo (de resto lanço já aqui o repto para que o novo aeroporto do Montijo venha a chamar-se aeroporto Ricardo Pereira, acho que é o mínimo) e outro, também no Campeonato Europeu, mas no ano 2000, em que ganhámos por 3-2. Poderia acrescentar também o jogo das meias-finais, desse mesmo campeonato, contra a França, mas aquela mão marota do Abel Xavier, juntamente com o penteado que ele usava na altura, ainda me dão pesadelos.

Por isso prefiro falar do nosso primeiro jogo na fase de grupos, em que Portugal defrontou uma seleção inglesa forte e repleta de jogadores de topo como Gary Neville, David Beckham, Paul Scholes, Steve McManaman ou um muito jovem Michael Owen. Do nosso lado apresentava-se uma seleção nacional onde jogavam vários nomes da minha caderneta de cromos de infância, como Rui Costa, João Vieira Pinto, Nuno Gomes, Vítor Baía, Fernando Couto (sempre gostei do Couto, talvez porque me fazia lembrar a versão sem bigode do Rocha, do Duarte & Cª) e claro, o brilhante Luís Figo, naquela que ficou conhecida como a “Geração de Ouro”. Ah, também alinhava Pedro Espinha, como é que poderia escapar-me. Quem? Vão ver à Wikipédia, vá.

Apesar de uma excelente prestação na fase de qualificação, Portugal entrou no primeiro jogo menos activo do que a Inglaterra e ao minuto dezoito estava já a perder por 2-0. Lembro-me de pensar nessa altura, como bom português, que não temos sorte nenhuma e estava na cara que íamos levar uma goleada histórica. Felizmente o Luis Figo não pensou assim e, pouco tempo depois do golo de McManaman, arranca do meio campo sem pedir licença e faz um remate épico a meia distância, que é sem dúvida um dos melhores golos que vi até hoje. Foi um género de pré “eu estou aqui”, que só os melhores do mundo conseguem tirar da cartola, perante momentos-chave.

A partir daí a equipa animou, elevou-se, ganhou motivação e ainda na primeira parte consegue o empate com um golo magnífico do João Pinto. Habituado a atirar-se para o chão, mergulha na área entre as canelas dos defesas para cabecear uma bola centrada milimetricamente por Rui Costa, num golo com clara nota artística.

Ao intervalo, como bom português, já achava que tínhamos tudo para ganhar à Inglaterra, e claro, com uma goleada histórica.

Foi a meio da segunda parte que ouvi um momento clássico da locução futebolística, pela voz de Paulo Catarro, que comentava o jogo na RTP. Muito antes dos relatos virais do Nuno Matos, ou do João Ricardo Pateiro, as emoções chegavam-nos pelas vozes do Jorge Perestrelo (na TSF) e do Paulo Catarro, no tempo em que o áudio dos comentadores de futebol na televisão ainda tinha aquela sonoridade de rádio, que lhe dava uma certa elegância. A emoção na descrição da jogada e do golo do Nuno Gomes é tão genuína e intensa que até hoje me recordo de cada palavra e da forma como a voz de Paulo Catarro ia ficando cada vez mais aguda, até chegar ao timbre da Cristina Ferreira, no momento do golo. Cheguei inclusivamente a ter um mp3 com este relato, com que massacrei os meus amigos no verão de 2000, em todas as viagens de carro. Tinha 19 anos, hormonas mais energéticas que o João Baião nos tempos do Big Show Sic e, de certa maneira, a sensação de que estava cada vez mais perto de poder ver, um dia, a minha Seleção ganhar uma competição internacional de futebol. Tive de esperar 16 anos, mas ainda hoje acho que aquela vitória de garra, frente à Inglaterra, foi o começo de um percurso que de alguma forma, levou um país inteiro a orgulhar-se de poder erguer finalmente a taça de campeão europeu de futebol”

Miguel Lambertini Visto da Bancada
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