A FADU – Federação Académica de Desporto Universitário apresenta o “Estudo de Diagnóstico do Desporto Universitário nas Instituições de Ensino Superior em Portugal”. Este documento revela carência estrutural severa, dependência crítica de parcerias externas, défice de financiamento e desalinhamento com as melhores políticas europeias de promoção do Desporto e de saúde mental da população estudantil.
De acordo com o “Estudo de Diagnóstico do Desporto Universitário nas Instituições de Ensino Superior em Portugal”, apresentado no ISCTE, em Lisboa, 61% das Instituições de Ensino Superior não dispõem de instalações desportivas e 89% das instituições estão dependentes de parcerias externas para a prática desportiva.
Em suma, este levantamento setorial enquadra a realidade da prática desportiva nas universidades e evidencia uma realidade “estruturalmente muito desafiante para a prática desportiva no ensino superior português, aconselhando uma nova visão e implementação de medidas de apoio urgentes”.
Universidades dependem de parcerias para a prática desportiva
O estudo conclui que 61% das Instituições de Ensino Superior (IES) não dispõem de instalações desportivas próprias. Ao mesmo tempo, 89% das instituições estão dependentes de parcerias externas para que possam garantir a prática desportiva regular aos seus estudantes.
Em consequência, esta carência traduz-se em constrangimentos logísticos relevantes, como a escassez de horários disponíveis e a degradação de espaços utilizados, limitando a capacidade de resposta à procura crescente por atividade física no contexto académico, com impacto direto na experiência e na saúde da população universitária.
“Estamos perante um cenário muito preocupante, que evidencia um atraso estrutural significativo do desporto universitário português face a outras realidades europeias. Se queremos que o desporto seja realmente parte da experiência académica e uma ferramenta de promoção da saúde e do sucesso dos estudantes, é indispensável criar melhores condições de acesso e investimento nas instituições”, afirmou Diogo Braz, presidente da FADU, na sessão oficial de apresentação.
Na ocasião, a secretária de Estado do Ensino Superior, Cláudia Sarrico, destacou a importância do estudo enquanto instrumento de apoio à decisão política: “Eu acho que é muito boa ideia porque para políticas públicas temos que ter sempre dados. Temos que ter evidência. E eu sei que a FADU tem vindo a realizar um grande trabalho nesta área e tem incrementado o volume e isso são boas notícias.”
A governante sublinhou ainda a evolução positiva da prática desportiva no ensino superior, defendendo uma leitura equilibrada dos resultados: “O facto de termos cada vez mais jovens universitários a fazer desporto […] nós podemos olhar um bocadinho para o copo meio cheio ou meio vazio. Eu gosto sempre de olhar para o copo meio cheio. Há algumas coisas a fazer, mas, por outro lado, também nos devemos congratular com o que já temos.”
Relativamente à ausência de infraestruturas próprias em muitas instituições, considerou prioritário garantir o acesso à prática desportiva, independentemente do modelo adotado: “Devo dizer, por exemplo, relativamente a não haver infraestruturas desportivas próprias, isso não me preocupa tanto. O que eu acho é que deve haver acesso e, quando não há acesso, é ver se isso passa por infraestruturas próprias ou por colaboração […] Temos que pensar sempre que operamos em rede e em colaboração.”
Cláudia Sarrico acrescentou ainda que o estudo deve servir como base para futuras melhorias no sistema: “Acho que temos que também agora utilizar o estudo como ponto de partida para ver o copo meio cheio e o que é que podemos ainda fazer para melhorar a situação.”
Promovido pela FADU, o estudo teve como objetivo realizar um diagnóstico aprofundado sobre o estado do desporto universitário no país, analisando dimensões como infraestruturas, financiamento, recursos humanos e impacto no bem-estar estudantil.
A investigação adotou uma abordagem quantitativa, de natureza exploratória e descritiva, baseada num inquérito por questionário estruturado dirigido a entidades responsáveis pela gestão desportiva no ensino superior, tendo sido recolhidas 72 respostas provenientes de clubes universitários, associações académicas e instituições de ensino superior, com predominância do setor público.
O diagnóstico apresenta uma forte representatividade nacional, envolvendo 76 clubes desportivos universitários — cerca de 70% do universo de clubes da FADU —, com respostas provenientes de 16 distritos do território continental e das duas regiões autónomas, representando instituições onde estudam aproximadamente 75% dos 456 mil estudantes inscritos no ensino superior português.
O sub-financiamento
Entre as principais conclusões destaca-se também a perceção generalizada de subfinanciamento público, com a realidade do apoio estatal ao desporto universitário, numa escala de 1 a 5, a ser classificado com uma média de apenas 2,32 pontos.
Este cenário impacta diretamente a capacidade das instituições para construir ou requalificar instalações, bem como contratar técnicos especializados, agravando as limitações existentes no sistema.
Em termos globais, apenas 46% dos inquiridos apresentou algum nível de satisfação com o financiamento público do desporto universitário.
A defesa da prática desportiva e da saúde mental dos estudantes
Paradoxalmente, os responsáveis institucionais reconhecem de forma muito significativa (87%) a relevância do desporto para a experiência académica e para a saúde mental dos estudantes.
O estudo evidencia um elevado consenso quanto ao papel da atividade física na integração social e na redução do stress académico, sublinhando, contudo, um claro desfasamento entre o reconhecimento estratégico desta importância e a prioridade efetivamente refletida nos orçamentos e planos institucionais.
Este paradoxo torna-se ainda mais evidente quando comparado com outros contextos europeus.
Enquanto em Portugal 61% das instituições não dispõem de instalações desportivas próprias, em países como Espanha mais de 90% das universidades públicas possuem complexos desportivos próprios, frequentemente geridos pelos respetivos serviços de desporto universitário.
Também ao nível do financiamento existem diferenças relevantes: em vários países europeus, como França ou Alemanha, o desporto universitário está integrado nos serviços de ação social e beneficia de dotações públicas diretas, refletindo uma visão estratégica que encara o desporto como instrumento de promoção da saúde e do bem-estar estudantil.
“Portugal reconhece quase de forma unânime o contributo do desporto para a saúde mental dos estudantes — com uma valorização próxima do nível máximo — mas continua a ser um dos países europeus com menor investimento em infraestruturas próprias no ensino superior. Este é um paradoxo que precisa de ser enfrentado com políticas públicas mais consistentes”, acrescentou Diogo Braz.
Medidas necessárias
Paralelamente, o estudo evidencia também a necessidade de reforçar as políticas públicas de apoio ao Desporto Universitário, nomeadamente através da criação de linhas de financiamento específicas para infraestruturas desportivas, maior integração do desporto nos modelos de financiamento do ensino superior e reforço do investimento em recursos humanos especializados e programas de prática desportiva para estudantes.
“Para a FADU, este diagnóstico constitui uma ferramenta essencial de conhecimento e de advocacy institucional, permitindo sustentar a necessidade de políticas públicas mais robustas para o setor. A federação defende a criação de linhas de financiamento específicas para infraestruturas desportivas no ensino superior, bem como a integração formal do desporto nos modelos de financiamento base das instituições, garantindo o acesso universal à prática desportiva enquanto instrumento de saúde, sucesso académico e desenvolvimento integral dos estudantes”, termina Diogo Braz, presidente da FADU.
