A Euroconsumers e a Football Supporters Europe apresentam queixa à Comissão Europeia contra a FIFA relativamente às práticas de venda de bilhetes para o Mundial de 2026.
A Euroconsumers, que integra a DECO PROteste, e a Football Supporters Europe (FSE) apresentaram uma queixa formal à Comissão Europeia contra a FIFA, alegando que a entidade do futebol abusou da sua posição de monopólio para impor preços excessivos dos bilhetes, condições e processos de compra pouco transparentes e injustos aos adeptos europeus, na perspetiva do Campeonato do Mundo de 2026.
“A FIFA detém o monopólio da venda de bilhetes para o Mundial de 2026 e tem usado esse poder para impor aos adeptos condições que nunca seriam aceitáveis num mercado competitivo”, alega a Euroconsumers.
Para muitos esta é uma experiência única na vida e o acesso justo e transparente aos bilhetes é fundamental.
Euroconsumers e FSE detetam abusos da FIFA
Desde preços elevados a publicidade enganosa, a Euroconsumers e a FSE detetam comportamentos de abuso de posição dominante.
E pede intervenção da Comissão Europeia, tendo em vista a defesa dos consumidores, para combater as seguintes práticas.
Preços exorbitantes, mais elevados do que nas edições anteriores e superiores à própria estimativa da FIFA
Os bilhetes para a final mais baratos disponíveis ao público custam agora a partir de 4,185 dólares – mais de sete vezes o preço do bilhete mais barato para a final do Mundial de 2022. Em contrapartida, os bilhetes mais baratos para a final do UEFA EURO 2024 custam 95 euros (aproximadamente 100 dólares). Os próprios documentos da candidatura da FIFA previam um preço médio de 1,408 dólares por bilhete, mas esse valor foi largamente ultrapassado.
Publicidade enganosa: o bilhete de 60 dólares que quase não existia
A FIFA anunciou, repetidamente, bilhetes para a fase de grupos a 60 dólares. Na prática, eram tão escassos que todo o stock da Categoria 4 estavam praticamentem esgotado antes do início da venda ao público em geral. Isto não só deixou os adeptos desapontados, como também constitui publicidade enganosa, uma vez que se anunciou um preço que não estava realmente disponível. Esta prática é ilegal ao abrigo da legislação da UE em matéria de defesa do consumidor.
Preços dinâmicos descontrolados, que continuavam a subir sem aviso prévio
A FIFA utilizou a “fixação de preços variável”, ou preços dinâmicos, sem limites máximos e sem transparência quanto à forma como os preços são definidos. Alguns bilhetes subiram 25% entre as fases de venda. Os adeptos não tinham forma clara de saber o preço final antes de entrarem na fila.
Regras pouco claras: falta estrutural de transparência
A localização dos lugares, os mapas do estádio e até mesmo as equipas que vão jogar não são garantidos no momento da compra – sendo, em muitos casos, o direito a reembolso limitado ou inexistente. Os adeptos estão a gastar milhares de dólares sem saber o que vão receber.
Táticas de venda agressivas, alimentando o medo de perder a oportunidade
E-mails enviados aos adeptos alegavam ‘acesso exclusivo’»’ a uma janela de venda de bilhetes “limitada” que não reflete a realidade. Ao criar uma urgência artificial, a FIFA pressionou os adeptos a tomarem decisões precipitadas.
Uma dupla vitória: a FIFA lucra duas vezes nas revendas
A FIFA desencoraja as plataformas de revenda estabelecidas, considerando-as “inseguras”, e direciona os adeptos para o seu próprio mercado, onde tanto o comprador como o vendedor pagam uma comissão de 15%, o que aumenta, significativamente, o custo total para os adeptos.
Num bilhete de 800 dólares, a FIFA ganha 240 dólares adicionais para além do preço de venda original.
Comissão Europeia deve garantir que FIFA respeite os consumidores
- A Euroconsumers e a FSE apelam à Comissão Europeia para que atue agora e exija à FIFA que:
- Deixe de aplicar preços dinâmicos a todos os bilhetes vendidos aos adeptos no EEA até ao final do Campeonato do Mundo de 2026;
- Congele os preços dos bilhetes para a próxima fase de vendas de abril nos níveis anunciados pela própria FIFA em dezembro de 2025;
- Divulgue, pelo menos 48 horas antes do início do período de vendas de abril, quantos bilhetes restam em cada categoria e a localização exata desses lugares no estádio;
- Respeite os direitos dos consumidores tanto no mercado primário como no mercado secundário de bilhetes.
“O futebol é uma paixão universal, mas a FIFA trata-o como um luxo privado, explorando o seu monopólio absoluto da venda de bilhetes para o Mundial. Ao impor preços pouco transparentes, práticas desleais para pressionar os compradores e taxas de revenda exorbitantes, a FIFA está a impor um encargo financeiro injusto a milhões de adeptos europeus. Apelamos à Comissão Europeia para que intervenha imediatamente com medidas provisórias para pôr fim a estas práticas de exploração antes do início do campeonato de 2026”, referiu Marco Scialdone, Diretor de Litígios da Euroconsumers.
“Há já vários meses que temos vindo a apelar à FIFA para que faça o que é certo pelos adeptos e reconsidere as suas políticas de venda de bilhetes agressivas e exploradoras. O facto de a FIFA, mais uma vez, não ter realizado consultoria significativas às partes interessadas deixou-nos sem outra opção senão unir forças com a Euroconsumers para apresentar esta queixa à Comissão Europeia. A FIFA aponta os seus números de vendas não confirmados como justificação para as suas práticas injustas de venda de bilhetes, quando a realidade é que deixa os adeptos leais sem outra escolha – pagar ou ficar de fora”, sublinhou Ronan Evain, Diretor Executivo da Football Supporters Europe.
O caso da FIFA e a ação da Euroconsumers
A Euroconsumers tem estado na vanguarda para alertar sobre os riscos da tarifação dinâmica em eventos ao vivo.
Em conjunto com a Football Supporters Europe, a Live DMA e a Reset Network, tem apelado à proibição desta prática, nomeadamente em eventos desportivos e culturais, onde a oferta limitada e a elevada procura deixam os consumidores com poucas opções reais.
O caso da FIFA “é uma demonstração real do que a fixação dinâmica de preços acarreta quando um único organizador detém todo o poder”.
“A fixação dinâmica de preços transforma a lealdade dos adeptos numa guerra de licitações, inflaciona os custos sem valor acrescentado e exclui muitos adeptos. A FIFA deve pôr fim a esta prática e garantir que todos os adeptos possam aceder aos bilhetes em condições justas e transparentes”, conclui Els Bruggeman, Diretora de Política e Execução da Euroconsumers.
