Prolongamento
“Paga, tuga”. Ana Gomes reage ao arquivamento de processo contra Vieira
Redação
2021-04-06 17:55:00
Jurista critica procuradora que concluiu não haver "indícios suficientes da prática de crime"

Ana Gomes, jurista que no mundo do futebol é conhecida pela defesa de Rui Pinto como "denunciante", reagiu com ironia à notícia do arquivamento, pelo Ministério Público (MP), de um processo que envolvia Luís Filipe Vieira, por suspeita de branqueamento de capitais e burla qualificada, num caso relativo ao já extinto Banco Português de Negócios (BPN). De acordo com o jornal Expresso, o MP arquivou o caso por considerar que existia “uma dúvida razoável” sobre as funções que Vieira exercia na Inland, empresa que não terá liquidado junto do banco um empréstimo de 20 milhões de euros.

Com um breve comentário, Ana Gomes, ativista contra a corrupção, antiga eurodeputada e que já este ano foi candidata à Presidência da República, deu a entender que não ficou surpreendida com a falta de “indícios suficientes da prática de crime” alegada pelo MP: se o grupo Inland (que, de acordo com o Expresso, era detido a 80 por cento por Luís Filipe Vieira) não pagou ao BPN, vai ser o contribuinte português a pagar. “Paga, tuga! E não bufes, que à bolina zela a procuradora Bonina...”, escreveu Ana Gomes, no Twitter, numa referência à procuradora Inês Bonina, que assinou o despacho de arquivamento do processo, datado de 30 de março, a par do procurador Pedro Roque (de acordo com a notícia avançada pelo semanário).

Em várias intervenções públicas, a jurista e diplomata tem abordado o “passado de delinquência” de Luís Filipe Vieira. “O Benfica é um dos grandes do futebol, o maior do nosso país em número de adeptos e um dos mais envoltos em acusações e em alegações de envolvimento em esquemas de corrupção. Não só o clube, mas também os principais responsáveis. Temos o caso do E-Toupeira, que se concluiu com uma decisão judicial que levantou muitas suspeitas. São acusados alguns dirigentes do clube por crimes de devassa, entre outros, e de manipulação de agentes judiciais. Sabemos que o dirigente máximo do clube está referenciado em várias listas de grandes devedores do país por vários empréstimos não pagos. Há todo um passado de delinquência ligado a essa pessoa”, disse Ana Gomes, no final de março de 2019.

Esse terá sido o ataque mais contundente da ex-eurodeputada ao dirigente desportivo, que anunciou, tal como o Benfica, que iria avançar para os tribunais, com uma queixa por difamação. O tempo foi passando e Ana Gomes ficou “sentadinha à espera”, como referiu numa entrevista cerca de meio ano depois: “Há uns tempos, Luís Filipe Vieira tinha dito que me processava por eu ter dito o óbvio: que ele era um delinquente. É um facto comprovado. Luís Filipe Vieira foi julgado e condenado pelo roubo de um camião. Há uma sentença”.

Já em setembro do ano passado, depois de conhecida a candidatura à Presidência da República, Ana Gomes esclareceu que nada a move contra o Benfica, mas sim contra quem usa o clube para “negócios escuros” cuja fatura é depois paga pelos contribuintes. “Nunca ataquei o Benfica. Ataquei aqueles que se servem do Benfica para fazer negócios escuros à conta dos portugueses e dos adeptos do Benfica”, garantiu.

Luís Filipe Vieira é um dos principais alvos de Ana Gomes no mundo do futebol, mas a ativista contra a corrupção tem denunciado e criticado muitos outros agentes, como “os advogados, contabilistas, consultores e similares, que ajudaram a cleptocracia angolana, ou os escroques dos negócios do futebol, a branquear capitais e a driblar o fisco em Portugal”.

Em março do ano passado, novo ataque às “máfias do futebol”, mais uma vez com uma referência direta a Luís Filipe Vieira: “Ainda em relação aos clubes de futebol, porque me ocorreu enquanto estava a falar de crime organizado, de máfias, um dado objetivo: nós temos em dois dos maiores clubes de futebol - Benfica e Porto - presidentes que perduram há anos e anos e anos. Acha que é por acaso?”. “Alguém que faça uma lista das empresas que esse senhor [Vieira] foi deixando juncadas com cadáveres, em insolvência. (...)  O polvo da corrupção está por todo o lado, incluindo até no setor da justiça, e que entre outras coisas servirá exatamente para fingir que se fazem investigações, depois elas ficam pelo caminho porque são morosas, porque há prescrições...”, comentou Ana Gomes, nessa entrevista em março de 2020, pouco mais de um ano antes de uma investigação a Luís Filipe Vieira ‘ficar pelo caminho’, arquivada pelo MP por falta de “indícios suficientes da prática de crime”.