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Oleiros e Vila Verde: uma luta para não cair no esquecimento

RedaçãoPor Redação17/11/20176 Mins Leitura
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Os dois concelhos viveram momentos inesquecíveis, mas a realidade diária é outra bem diferente

Oleiros e Vila Verde viveram momentos inesquecíveis que certamente perdurarão para sempre na história das duas localidades pertencentes aos distritos de Castelo Branco e de Braga, respetivamente. Uns por terem recebido o Sporting, outros por terem de eliminado o Boavista da Taça de Portugal. Um mês depois, o que mudou nas duas freguesias, distantes dos grandes centros, ambas marcados pelo drama dos incêndios, e muitas vezes condenadas ao esquecimento? O Bancada foi tentar perceber o sentir, o pulsar das gentes dos dois clubes, envoltos em contextos sociais difíceis, depois da euforia inerente à festa da prova rainha do futebol português.

“Foi difícil voltar à terra”, refere Natan Costa, o treinador da equipa que o deixou orgulhoso por ter conseguido “marcar dois golos ao Sporting”, embora tenha saído derrotada por 4-2. “O mediatismo que se construiu à volta desse jogo, pois não é todos os dias que se tem a oportunidade de defrontar um grande, atirou os jogadores para uma realidade virtual e depois não foi fácil sair dela.”

A realidade diária é outra, bem distinta, como sustenta ao Bancada Natan Costa, que faz votos para que a Federação Portuguesa de Futebol não se esqueça do concelho de Oleiros. “Vamos ver se a Federação se vai lembrar de nós”, afirma, sustentando: “Houve agora os jogos de solidariedade da Seleção Nacional e há projetos para a construção de casas de primeira habitação para famílias em necessidade e afetadas pelos incêndios em Portugal. Gostaríamos também de ter um pouco de atenção e que essas habitações também pudessem ser construídas nesta zona. A aldeia de Álvaro, por exemplo, foi fustigada, foi arrasada pelos incêndios e merecia a atenção das entidades responsáveis.”

O sonho de defrontar o Sporting deu lugar ao dia à dia dividido entre o trabalho e os treinos. “O jogo elevou o entusiasmo e a expetativa de todos, não só dos jogadores, como dos adeptos e criou talvez uma ideia de que a tarefa no campeonato seria mais fácil”, advoga o técnico da Associação Recreativa Cultural de Oleiros, a disputar a série C do Campeonato de Portugal, em árdua luta pela continuidade. A equipa ocupa um modesto 10º lugar, com 11 pontos, numa zona liderada pela União de Leiria, que soma 25 pontos. “Depois de todo o mediatismo inerente ao jogo com o Sporting, estamos a atravessar uma fase menos boa. As expectativas estavam muito altas, até vencemos o jogo seguinte, mas depois disso as coisas não têm corrido pelo melhor. Esperamos inverter essa tendência no próximo jogo com o Sourense.”

O baixo orçamento do clube não permite grandes aventuras, mas Natan Costa (na foto, à esquerda) espera que o “Pai Natal” lhe colque dois defesa no sapatinho. “Temos um dos orçamentos mais baixos do Campeonato de Portugal e é preciso não esquecer que descem de divisão seis equipas, pelo que o nosso objetivo passa pela continuidade.”

Se Associação Recreativa e Cultural de Oleiros acabou por cair aos pés do Sporting, o Vilaverdense fez sensação ao eliminar o Boavista da Taça de Portugal, afirmando-se como o grande tomba-gigantes da competição até ao momento. Inserida também no Campeonato de Portugal mas na série A, a equipa liderada por António Barbosa tenta, longe dos holofotes da fama, conseguir um lugar de acesso às divisões principais. O presidente do clube, Eduardo Milhão, bem pediu o Benfica, mas quis a sorte que o adversário da quarta eliminatória da Taça de Portugal fosse o FC Vizela, equipa que curiosamente luta com o Vilaverdense pela subida, ocupando precisamente o primeiro lugar a oito pontos de distância do conjunto de Vila Verde, o quarto classificado. Para o campeonato, as duas equipas empataram a zero. E no domingo, no regresso da festa da Taça, como será? “Jogamos sempre para vencer”, refere o técnico, esperando dar asas ao sonho de continuar a fazer história depois do momento único vivido frente ao Boavista. “O Vizela é uma excelente equipa, mas nós vamos lutar com as nossas armas, com muita disciplina, ambição e espírito de luta.”

O jogo com o Boavista representou o momento mais alto dos 64 anos de vida do Vilaverdense. “Não sei se sou o treinador mais feliz do mundo, mas sou feliz por ver a felicidade destes jogadores. Este grupo é especial, o que fizemos é histórico, é o ponto alto da minha carreira. Ficamos muito felizes por dar esta alegria. Foi um marco histórico para toda a vila e espera que não seja o único”, afirmava na altura António Barbosa ao Bancada. “Aproveitámos e desfrutámos do momento, mas o importante é mantermos o foco. Foi um momento diferente, de facto, deu-nos visibilidade e só mostrou a importância do trabalho que temos vindo a realizar”, afirma agora o jovem técnico, de 35 anos.

O presidente do Vilaverdense, Eduardo Milhão, não esquece a histórica eliminação dos boavisteiros, mas sublinha que a euforia foi vivida no momento. “Foi bom para a nossa comunidade, para o orgulho do nosso povo.” Agora é tempo de pensar no FC Vizela o grande rival no campeonato e adversário de domingo na quarta eliminatória da Taça de Portugal. “Vai ser um jogo interessante, um jogo de tripla, que qualquer equipa pode ganhar, mas estou confiante de que vamos fazer um bom resultado.”

Embora denote confiança, o líder diretivo do Vilaverdense tem a opinião de que este jogo será mais difícil do que o desafio com os axadrezados. “O jogo com o Boavista foi diferente. Este será mais difícil. Sem arrogância, são duas equipas muito semelhantes e, olhando de forma correta e justa, qualquer uma delas pode conquistar um resultado positivo. Esperemos que seja a nossa. A equipa está bem e está na luta pela subida.”

Vontade de continuar a fazer história na prova rainha do futebol nacional não falta ao dirigente vilaverdense até como forma de dar seguimento ao feito conseguido frente ao Boavista e poder, então, sonhar com a eventualidade de receber o Benfica, como referiu ao Bancada no rescaldo do triunfo frente à equipa dirigida por Jorge Simão. “Não tenho qualquer preferência por um clube da primeira Liga, mas olhando para a nossa terra, na zona de Braga, que tem muitos benfiquistas, gostaria de receber o Benfica até por uma questão de receita. Que venha o Benfica!”, sublinhava Eduardo Milhão. Na Luz ou em Vila Verde? Nem uma coisa, nem outra. “Teríamos de jogar noutro estádio, pois não temos as condições necessárias para receber um grande. Preferia que fosse em Braga do que no Estádio da Luz”. O campo da Cruz do Reguengo, onde joga habitualmente o Vilaverdense, tem capacidade para apenas 950 lugares sentados, explicava o presidente dos minhotos. “Quanto muito, contando com o chamado peão, pode levar três a quatro mil pessoas.”

A carreira da equipa do Vilaverdense na Taça de Portugal é um oásis no mar de tristeza vivido por um concelho também martirizado pelo flagelo dos incêndios. “Foram dias terríveis”, não deixa de lamentar Eduardo Milhão.

 

 

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