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Início » O ‘Tio Barbosa’, a falta de paz na Taça UEFA e a paixão vimaranense
Prolongamento

O ‘Tio Barbosa’, a falta de paz na Taça UEFA e a paixão vimaranense

RedaçãoPor Redação16/10/201813 Mins Leitura
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Paíto esteve à conversa com o Bancada e falou sobre tudo

Depois de uma abordagem inicial via Facebook, onde foram trocados números de telemóvel, e de outra curta conversa pelo WhatsApp, Paíto atende a nossa chamada e pede um momento para colocar o auricular, visto estar a conduzir. Ia ter com amigos para assistir ao Namíbia-Moçambique, que os visitados venceram, referente à qualificação para a próxima Taça das Nações Africanas, mas guardou aquele tempo para o Bancada e para recordar uma carreira dentro das quatro linhas que já terminou. Hoje, aos 36 anos, Paíto é dono de várias lojas de conveniência e está a tirar o curso de treinador, ainda que as saudades de jogar futebol sejam muitas. E não foi preciso dizer – percebe-se assim que o moçambicano começou a responder às nossas perguntas. Paíto é bastante simpático e gosta de falar. E fala de futebol com uma felicidade que se nota até por telefone.

Assim que leu o nome do protagonista desta peça, o leitor deve-se ter lembrado do golo que Paíto marcou ao Benfica em pleno Estádio da Luz durante a época 2004/05. Foi para a Taça de Portugal, o encontro terminou 3-3 e as águias venceram no desempate por pontapés de penálti. Se assim foi, o leitor está longe de ser o único. Aliás, a maioria das pessoas que aborda o antigo lateral-esquerdo leonino começa por falar desse lance em que Luisão sofreu uma cueca antes do golo que Paíto considera ser o melhor da carreira. “Estaria a ser injusto se não dissesse que foi o melhor em todos os sentidos. Foi o mais famoso, foi num dérbi, num estádio fantástico e cheio. Foi melhor, sem dúvida. Até hoje, tanto os sportinguistas como os benfiquistas não se esquecem. Quando as pessoas me encontram, as pessoas lembram-se do «golo da cueca ao Luisão». Fico feliz e honrado com isso, mas foi pena porque não passou de um golo, não conseguimos ganhar nada”, disse Paíto ao Bancada.

https://playbuffer.com/watch_video.php?v=KRHXM1NAON3X

Contudo, Paíto representou vários clubes de outros tantos países durante a carreira. Começou nos moçambicanos do Maxaquene, seguiu para o Sporting, vestiu as camisolas de Vitória de Guimarães e SC Braga, foi jogador do FC Sion e do Neuchâtel Xamax na Suíça e ainda representou o FC Vaslui (Roménia) e o Xanthi (Grécia) antes de regressar ao Maxaquene para pendurar as botas de vez. Mas comecemos pelo início.

De Moçambique para Lisboa com a indicação de Hilário

O futebol entrou na vida de Paíto de forma natural. Jogava no bairro, com os amigos, e garante-nos que “não era com as bolas de hoje em dia, eram de trapo e chamavam-se ‘xingufo’”. Fazia parte da equipa da escola e sabia que tinha jeito, mas nunca pensou fazer do jogo a sua profissão. Aliás, Paíto só foi para o futebol federado por um motivo: poder continuar a assistir a jogos de futebol sem pagar. “O que me puxou para o futebol federado foi o facto de eu, para além de jogar, gostar também de assistir. Quando fiz 12 anos comecei a não ter idade para entrar de borla nos estádios. Eu gostava muito de acompanhar o futebol moçambicano, ia sempre aos estádios. Por isso inscrevi-me no Maxaquene, mas não foi fácil no início. O clube é em Maputo e eu estava na Matola. O impacto é forte, era tímido. Mas o que eu queria era o cartão [da Federação] para ir ver os jogos de graça. Tanto que só treinei um mês, recebi o cartão e fui para casa, muito devido ao preço dos bilhetes de autocarro”, contou-nos.

No entanto, esse mês chegou para convencer o Maxaquene e o treinador foi procurar Paíto. Encontrou-o, falou com a mãe e tudo se resolveu. Paíto demorou um ano adaptar-se totalmente, mas assim que o fez já subia de escalão, ia às camadas jovens da seleção de Moçambique e destacava-se com naturalidade. Aos 17 anos, entre 1999 e 2000, começou a integrar a equipa principal do Maxaquene, clube que tinha boas ligações com o Sporting e recebeu Hilário da Conceição, lenda dos leões, como treinador principal. “Quando ele chegou, o Maxaquene tinha algumas derrotas consecutivas. O lateral-esquerdo dessa equipa era da seleção de Moçambique e eu estava nos juniores apesar de ser juvenil. Um dia, o Hilário veio ver o meu jogo e apostou em mim em vez do internacional, que já tinha mais de 30 anos. Ninguém esperava que um miúdo de 17 anos lhe tirasse o lugar. O Hilário da Conceição foi corajoso e eu comecei a jogar. Nesse mesmo ano, ele foi chamado para treinar a seleção de Moçambique e eu automaticamente passei também a ser o titular da seleção. Ainda estava na escola quando ia à seleção”, recordou Paíto.

Entretanto, Hilário deixou Moçambique e regressou a Lisboa, aconselhando Paíto aos responsáveis do Sporting. Foi essa a primeira motivação do clube de Alvalade para oferecer um contrato a um jovem moçambicano que chegou à seleção num ápice. O momento em que tudo ficou acertado para a contratação de Paíto por parte do Sporting aconteceu pouco depois, quando o Sporting B foi a Moçambique para um torneio. “O presidente falava comigo a dizer que eu não podia falhar porque o encaixe financeiro se eu fosse para o Sporting era muito importante para o clube. Joguei bem no torneio e o Sporting queria-me logo levar de volta para Lisboa. Os meus colegas e o presidente abraçaram-me, ficaram muito felizes.” O que poucos sabem é que, antes disso, Paíto esteve quase a reforçar o Benfica, mas perdeu um comboio (sim, a sério) que o impediu de cumprir com as datas estabelecidas pelo clube da Luz. “Fiquei a chorar”, acrescentou Paíto.

O turbilhão de emoções de Alvalade

“A primeira pessoa que eu vi quando cheguei foi o João Vieira Pinto e nunca mais esqueço de o ver na sala de fisioterapia. Pensava que estava a sonhar quando o vi. Quando ele se levantou pensei: «Ele é tão pequenino… Como é possível?»”, contou Paíto, que entretanto vestia a mesma camisola que alguns dos craques que via na televisão. Paíto começou pelos escalões mais altos de formação (juniores e equipa B), mas rapidamente se tornou presença regular nos treinos da equipa principal. De vez em quando ia para o banco em 2001/02, segundo ano no Sporting, e estreou-se a 16 de janeiro de 2002, quando os leões visitaram o SC Vila Real nos quartos-de-final da Taça de Portugal e venceram por 4-0. Nessa quarta-feira, Paíto cumpriu os 90 minutos ao lado de nomes como André Cruz, João Vieira Pinto, Hugo Viana, Ricardo Quaresma, Phil Babb ou Facundo Quiroga. “Quem me lançou foi o Laszlo Boloni. Confesso que não fiquei surpreso com essa minha estreia porque já se perspetivava. Já trabalhava com a equipa principal e treinava muito bem. Sempre fui empenhado e dedicado. O Boloni conversou comigo durante a semana e disse-me que ia jogar. Estava tranquilo, tínhamos uma equipa muito boa e ele não a alterou muito. Dava-me segurança, não ia ficar sozinho com outros estreantes. Tenho poucas memórias do próprio jogo, a verdade é que as coisas correram bem e voltei a merecer outras oportunidades. Nas equipas grandes é importante aproveitar as oportunidades porque a lista [de jogadores] é enorme. Poder treinar com os seniores foi uma grande vitória para mim, muitos grandes jogadores nunca tiveram essa oportunidade. O José Fonte, por exemplo”, lembrou.

Uma das memórias mais curiosas que Paíto guarda dos tempos em que era jovem e já treinava com a equipa principal do Sporting envolve Pedro Barbosa, um dos mais veteranos e experientes desse plantel. “Quando tinha acabado de chegar ao Sporting e fui treinar à equipa principal, chamava os jogadores todos por ‘tio’, que era o que se chamava aos mais velhos em Moçambique. Uma vez chamei o ‘Tio Barbosa’, ele parou o treino e disse: «Anda cá, c******! Porque é que me estás a chamar ‘tio’?! Não é ‘tio’, é Barbosa!”. (Risos) Ele começou-se a rir no balneário e explicou-me que em Portugal não há problema em chamar pelo nome. Em Moçambique quase que me obrigavam a chamar ‘tio’ aos mais velhos”, disse-nos, entre muita gargalhada que, por pouco, não ia dando para terminar a história.

Enquanto isto, continuava a calçar bastante no Sporting B, onde foi colega, por exemplo, de Cristiano Ronaldo. E recorda com algum orgulho o dia em que o atual capitão da Seleção Nacional e vencedor de cinco Bolas de Ouro lhe foi pedir conselhos e disse que “queria ter uma perna como” a dele. “Quando o Cristiano Ronaldo começou a treinar com a equipa principal, veio-me fazer muitas perguntas porque eu já o tinha feito. Perguntou-me como tudo era e eu na altura não percebi, mas hoje percebo que ele gosta sempre de aprender. Tudo o que falam do profissionalismo dele é verdade. Eu fui testemunha disso. Ele pegava sempre na minha perna e perguntava-me o que é que eu tinha feito para ter tanto músculo. Ele ficava no ginásio porque dizia que queria ter uma perna como a minha. Ele treinava durante a noite no ginásio, no escuro. Uma vez fui com ele e pensei: «Este miúdo é maluco». Nem se viam as máquinas.”

Paíto numa visita do Sporting ao terreno do FC Paços de Ferreira (Estela Silva/Lusa)

Depois de seis jogos pela equipa principal em 2003/04, Paíto foi uma peça importante em 2004/05, famosa temporada em que o Sporting esteve muito perto de vencer o campeonato e a Taça UEFA e acabou por sair de mãos a abanar. O moçambicano, então com 22 anos, jogou 24 vezes e marcou aquele já falado golo contra o Benfica. Curiosamente, o treinador era… José Peseiro, o mesmo que hoje comanda os destinos da equipa verde e branca. O coruchense foi o técnico que mais apostou em Paíto no Sporting e o ex-jogador garante que “é um treinador fantástico”, pelo que os recentes resultados não devem servir como exemplo.

“A nossa relação era excelente. Quando um jogador faz ou tenta fazer aquilo que o treinador pede ou manda é difícil não se relacionarem bem. Sempre fui um jovem que gostava de cumprir com aquilo que eram as minhas obrigações. Não era rebelde, gostava de trabalhar. Treinava sempre da mesma maneira, fosse convocado ou não. Tinha uma concorrência muito forte, mas cheguei a dividir alguns minutos com o Rui Jorge, internacional por Portugal. Essa foi, se calhar, a minha melhor época em Portugal. Peseiro é um treinador fantástico. Impressionou-me pela forma como prepara as equipas dele. Apesar de ele estar a ser contestado nestes dias, o Sporting tem de ter paciência com ele”, pediu Paíto.

Chegou, finalmente, a altura de falar da final da Taça UEFA. Tanto nós como Paíto sabíamos que era um assunto inevitável, ainda que o antigo internacional pela seleção de Moçambique não tenha saudade alguma desse dia. E dessa semana. “Essa semana foi extremamente difícil para nós. Perder a Taça UEFA em casa da forma que perdemos foi muito duro. Não estou a tentar culpar ninguém, mas os contornos que antecederam aquele jogo não foram favoráveis. Tivemos várias reuniões na semana antes do jogo com a direção… Houve um desentendimento entre os jogadores e a direção. Não digo que esse foi o motivo que fez com que perdêssemos, mas ajudou. Não quero ser eu, passados 13 anos, a contar o que se passou nem a levantar essa poeira. O que digo é que não foi uma semana bonita para quem queria ganhar, não houve paz.”

O duelo Vitória de Guimarães-SC Braga, as aventuras por Suíça, Roménia e Grécia e o regresso ao Maxaquene

Paíto acabou por ser emprestado ao Vitória de Guimarães em 2005/06. Realizou 20 jogos, marcou um golo e a equipa desceu à Segunda Liga, mas o que viveu no D. Afonso Henriques marcou-o para sempre – muito mais do que o SC Braga, clube que representou em 2006/07. Desafiámos Paíto a enumerar as diferenças e este não teve qualquer problema em o fazer.

“Joguei no Sporting e sei o que se vive no Sporting, mas quem passa pelo Guimarães jamais esquece o clube. O que se vive em Guimarães… Tenho sérias dúvidas que se possa viver noutro clube qualquer. Não falo da dimensão, falo da paixão que se vive ali. Lembro que em Lisboa havia uma criança do Benfica, outra do Sporting, outra do Porto. Em Guimarães, nos infantários, não havia crianças de outro clube que não o Vitória. Quando olhamos para o Guimarães pensamos que é uma equipa pequena, mas a pressão é fora de série. O clube não fez uma boa época, mas eu fiz uma grande época individual. Eu estava sempre de cabeça levantada, mas tinha colegas que não podiam nem ir ao café porque eram insultados. Os adeptos vimaranenses vivem o clube como ninguém. Já no Braga, a primeira impressão que tive foi que se tivéssemos aquele sucesso em Guimarães éramos levados aos ombros. Não há pressão, ganhe-se ou não. O único que sofre pelo clube parece ser o presidente, que é o único que mete pressão. Dos adeptos nem tanto. Lembro-me de um jogo em casa contra o Benfica em que o estádio parecia cheio de adeptos do SC Braga. Mas quando o Benfica marcou, 75% do estádio se levantou a festejar. Lembro-me de perguntar a um colega se estávamos a jogar em casa ou fora.”

Paíto ao serviço do Vitória de Guimarães (Estela Silva/Lusa)

Em 2007 partiu para a Suíça, onde esteve quatro temporadas e meia – três pelo FC Sion e uma meia pelo Neuchâtel Xamax. Jogou bastante e o rendimento foi agradando, mas para Paíto era óbvio que a Suíça não era um país de futebol, menos ainda em clubes como os que jogou. Valeu-lhe a comunidade lusitana que o fez sentir “em Portugal”. “Tanto que demorei a aprender francês. Tinha um treinador italiano e passava o resto do tempo com portugueses”, acrescentou.

Jogou ainda meia época no FC Vaslui, da Roménia, a convite de Augusto Inácio, e duas temporadas no Xanthi, da Grécia, mas o ‘bichinho’ já não existia. Decidiu parar de jogar no final de 2013/14, após um ano razoável no clube grego. Tinha apenas 31 anos, mas o objetivo era terminar a carreira. Até que, alguns anos mais tarde, apareceu o Maxaquene com uma proposta para regressar durante alguns meses e oficializar o término da carreira no clube onde tudo começou. “Desde que saí da Suíça que fui perdendo paixão pelo futebol. Comecei a acordar e a não pensar só em futebol, a pensar noutras coisas. Quando terminava o ano, olhava para trás e o balanço nunca era positivo. Não valia mais a pena jogar só por jogar. Deixei de jogar, tinha dito que ia acabar a carreira, mas o Maxaquene convidou-me e disse que tinha a porta aberta para eu terminar a carreira lá. Aceitei e vim para o Maxaquene.”

Agora, Paíto gere as lojas que tem e vai-se preparando para ser treinador, ainda que não seja obrigatoriamente esse o futuro que pretende. Mas nota-se bem que Paíto sente a falta do futebol. “Tenho tentado uma vida para além do que estava habituado, que era acordar, vestir um fato de treino e treinar. Agora não, tenho de acordar, vestir uma camisa e ter reuniões. Descobri que é muito difícil viver de futebol em Moçambique. Tive uma proposta para ser diretor desportivo de um clube, mas não aceitei porque as condições não eram boas. Tenciono regressar ao futebol, que é onde me sinto bem, mas terá de ser sem me preocupar com outras coisas”, concluiu.

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