Prolongamento
O sucesso de Nagelsmann no Hoffenheim: o efeito ‘wonder boys’ nos treinadores
2017-07-05 21:00:00
Aos 29 anos, o menino prodígio do futebol alemão levou o TSG Hoffenheim à Champions e é um exemplo para jovens técnicos

É o novo menino prodígio do futebol europeu. No final da temporada 15/16, a Alemanha, e não só, ficou um pouco incrédula com o feito de Julian Nagelsmann de 28 anos, o mais jovem treinador na Bundesliga, ao evitar a descida de divisão do Hoffenheim. Não só o conseguiu como na última época fez mais e melhor e atingiu um fantástico 4º lugar garantindo a presença no playoff da Liga dos Campeões. O “puto” que colocou uma equipa de uma pequena localidade do sudoeste alemão com três mil e quinhentos habitantes a jogar de peito feito com os melhores da Bundesliga tornou-se um exemplo para muitos jovens treinadores que vêm nele um exemplo de que é possível dar o salto para outros patamares.

Nagelsmann tem cara de miúdo, só tem 29 anos, mas fala com a autoridade de um maduro. Em entrevista ao site spox.com disse, por exemplo, que as táticas para ele são sobrevalorizadas. “É uma questão de 5 ou 10 metros estares a jogar em 4x4x2 ou 4x3x2x1”, ou que ser treinador é “30 por cento tática, 70 por cento competências sociais”. Para o ‘wonder boy’ alemão, pressão é a palavra chave. “Dou muita importância ao nosso comportamento quando não temos a posse. No futebol de hoje é preciso duas coisas: soluções quando se tem a bola e quando não se a tem”.

No atual panorama do futebol português não há um caso similar ao de Nagelsmann que antes de chegar à casa dos trinta é já um caso mediático no futebol europeu, sustentado em resultados. O benjamim da I Liga 2017/18, por exemplo, é Vasco Seabra, treinador do Paços de Ferreira, com 33 anos, e só descendo ao Campeonato Pro encontramos o primeiro caso de precocidade na casa dos vinte anos. É ele Pedro Andrade, de 27 anos, treinador do Camacha, que procura seguir as pisadas de Leonardo Jardim. O atual treinador do AS Mónaco, recorde-se, iniciou, aos 27 anos, a carreira profissional como treinador principal na Associação Desportiva da Camacha, cargo que exerceu durante cinco épocas antes de conhecer um percurso fulminante no continente.

Descendo ainda mais, nos Distritais descobrimos dois ‘míudos’ a liderar, contrariando a ideia que a idade é um posto. Pedro Paiva, 24 anos, do Gafetense, dos distritais da AF Portalegre, e João Correia, 23 anos, da AD Oeiras, dos Distritais da AF Lisboa, este possivelmente o treinador principal mais novo a trabalhar em Portugal na atualidade. Une-os a todos os sonhos que uma carreira ainda a dar os primeiros passos alberga. Chegar um dia ao topo.

Há idade perfeita para se ser treinador?

Depois de vários anos a treinar várias equipas seniores de escalões secundários, Pedro Abranja, 43 anos, está agora a coordenar o futebol de formação do GS Loures e treinar a equipa de Juvenis A. Para ele, em Portugal, nos últimos anos, “têm-se assistido a um fenómeno muito interessante: jovens que preferem ser treinadores do que jogadores. Vivemos numa era de maior precocidade. E, em minha opinião, houve um facto que veio mudar a forma como os treinadores se emanciparam. A entrada em cena de José Mourinho que pela sua irreverência mas, também, pela sua competência, foi uma ‘pedrada no charco’ influenciando uma jovem geração a querer ser igual. É por isso, que vemos vários jovens treinadores a despontar, sobretudo, nas divisões mais baixas, desde as distritais aos campeonatos de Portugal”, refere ao Bancada.

Para Pedro Abranja, que também já exerceu as funções de coach desportivo, Julian Nagelsmann é a exceção que confirma a regra que os treinadores atingem o auge profissional depois dos 40 anos. “Percebem-se que muitos jovens treinadores vejam no treinador alemão um exemplo para darem o salto”, diz, para, no entanto, alertar: “A competência não tem idade. O nível de preparação baseia-se muito no compromisso que cada treinador tem para consigo próprio, no investimento que faz para o exercício da função. Quem é competente terá sempre lugar para treinar, seja jovem ou menos jovem”.

E dá um exemplo oposto de um treinador que chegou tarde à competição: “Em sentido oposto, temos o caso de um treinador com pouco tempo de ribalta mas já considerado um treinador de culto, visto ter cada vez uma maior quantidade de seguidores. Falo de Maurizio Sarri, do Nápoles SSC. Sarri, chegou à Serie A italiana já com 54 anos. Muitos podem considerar tarde, mas penso que vem muito a tempo de deixar a sua marca”.

João Correia, o ‘wonder boy’ que fazia relatórios para Marco Silva e que treinou na China; o gestor Pedro Paiva e o novo Jardim da Camacha

O caso mais paradigmático da precocidade de um treinador encontramo-lo nos Distritais da AF Lisboa. João Correia, de 23 anos, vai assumir esta época pela primeira vez o comando técnico de uma equipa sénior, neste caso a AD Oeiras, mas já tem um percurso muito rico em experiências diversificadas. Com 18 anos fazia relatórios de análise aos adversários para Marco Silva, então treinador do Estoril; foi adjunto de Paulo Mendes ‘Paulinho’, antigo jogador do Benfica, Estoril e Estrela da Amadora, no 1º de Dezembro, e de Tuck, antigo jogador do Belenenses, no Loures; trabalhou como observador para o AEK de José Morais e esteve um ano na China a treinar na formação do Hangzhou Ange, a convite do Benfica quando o clube encarnado abriu uma Academia naquele país asiático. “Não foi fácil, ao princípio não conseguia comunicar com ninguém, mas depois acabei por aprender alguma coisa. Ganhei experiência de vida, sobretudo”, afirma ao Bancada.

João Correia desvaloriza o facto de ser um treinador tão jovem e trabalhar com jogadores mais velhos. “Reconheço que ser treinador principal com 23 anos não é normal, mas sinto-o como se fosse. Sinceramente, sinto que tenho experiência suficiente para estar onde estou”, refere, traçando um objetivo ambicioso para a sua carreira. “Até aos 35 anos quero ser campeão nacional. Faltam-me 12 anos para atingir essa meta”.

Nuno Gomes, com 37 anos, que veio do Mafra, e Mustafá Siila, de 36 anos, que já foi treinado por Paulo Fonseca no Pinhalnovense, são os jogadores mais velhos do plantel da AD Oeiras. “O relacionamento entre todos é bom. A diferença de idades não se nota. O importante é treinarmos bem”, diz João Correia que reconhece, no entanto, que ao princípio “toda a gente olhava para mim com desconfiança mas depois de uma conversa e de começarmos a trabalhar sentiram a ambição que quero trazer para a equipa”.

Na Distrital de Portalegre, no Gafetense, mora outro candidato a ‘wonder boy’. Contratato pelo clube do Crato para atacar a subida aos campeonatos nacionais, Pedro Paiva, de 24 anos, vai para a sua oitava época como treinador, com passagens pela Naval 1º de Maio, como adjunto e depois diretor desportivo com apenas 21 anos, ele que assume o gosto pela área de gestão. “ Na Naval, foi complicado porque a situação financeira era muito difícil. Tínhamos um orçamento de 2 mil euros por mês para pagar a um plantel inteiro…”. O objetivo é igual aos outros jovens, “ganhar experiência nos escalões mais baixos” para depois subir para "outros patamares", ele que confessa que a paixão pelos livros de treino desportivo nasceram desde muito cedo. "Sempre foi a minha leitura preferida".

Na AD Camacha, na Madeira, Pedro Andrade, de 27 anos, carrega o estatuto de treinador mais jovem dos campeonatos nacionais. Depois de três épocas como adjunto no clube madeirense, estreou-se a época passada, substituindo José Barros que saiu para integrar a equipa técnica de Leonardo Jardim no AS Mónaco, concluindo a última edição do Campeonato de Portugal com a melhor classificação de sempre no novo formato, um 3.º lugar na Série A da fase de manutenção.

“Desde muito jovem que sempre tive o sonho de ser treinador, em vez de jogador. Gostava de perceber como é que as coisas eram feitas. Apesar de ter jogado durante alguns anos, optei depois por seguir a carreira de treinador. Licenciei-me em Educação Física na Universidade da Madeira e iniciei o meu percurso de forma normal, digamos. Comecei por treinar petizes [sub-10 e sub-11], orientei os sub-17 no União da Madeira. Depois cheguei mesmo a colaborar com a equipa principal”, afirmou em recente entrevista.

Três jovens treinadores portugueses à procura de um lugar ao sol. Não com o mesmo sucesso de Nagelsmann, mas com o sonho de um dia chegar lá, mais cedo ou mais tarde. Ou como diz João Correia, num texto publicado no facebook sobre o treinador do Hoffeinham: "Em muitos ofícios, a idade da pessoa é irrelevante, até porque há uma coisa que não vem discriminada no cartão de cidadão: a competência.

Outros casos internacionais

No plano internacional, mais recentemente, e segundo os registos da UEFA, um treinador de 25 anos levou o FC Dila Gori ao título na Geórgia, em 2014/15. Ucha Sosiashvili não foi no entanto o primeiro campeão numa primeira divisão antes dos 30 anos. E talvez o feito mais notável, segundo a UEFA, tenha pertencido ao treinador húngaro Lippo Hertzka, que levou o Real Madrid a conquistar a Liga espanhola sem derrotas em 1931/32, então na sua primeira época no clube, com a idade de 28 anos. Um técnico com ligações a Portugal onde treinou Benfica, FC Porto, Belenenses, Académica, Estoril e União de Montemor.

Não na casa dos vinte, mas na lista dos treinadores mais jovens a vencer finais das competições de clubes da UEFA, o português André Villas-Boas (AVB) foi o mais novo a conquistar a UEFA Europa League em 2011 ao serviço da equipa portista, com 33 anos, depois de aos 32 ter-se tornado no técnico mais jovem a assumir o FC Porto. AVB que aos 21 anos ganhou a primeira oportunidade de ser técnico na seleção das Ilhas Virgens Britânicas depois de ter mandado o currículo para a federação daquele país. 

Neste pódio particular surgem dois técnicos com ligações a Portugal. O sueco Sven-Göran Eriksson, três vezes campeão pelo Benfica, que com 34 anos conquistou a Taça UEFA em 1982 pelo IFK Göteborg, e o espanhol Víctor Fernández, com passagem efémera pelo FC Porto, que conquistou a extinta Taça das Taças pelo Real Zaragoza, com 34 anos. O treinador mais novo a vencer a Champions League foi Joseph Guardiola pelo FC Barcelona, em 2009, com 38 anos. Nagelsmann fará a estreia na Liga dos Campeões já na casa dos 30, que completará no dia 23 deste mês.