Prolongamento
O renascer do FC Penafiel pelo evangelho do Armando
2018-02-07 21:20:00
Do espectro da descida aos lugares de subida foi um pequeno grande passo

O FC Penafiel transformou-se na grande sensação da segunda liga mercê de uma espectacular recuperação, durante a qual venceu todas as equipas B dos denominados grandes, espelhada no terceiro lugar que ocupa. Do espectro da descida à subida no horizonte foi um pequeno grande passo. Armando Evangelista, o obreiro do renascimento, chegou à cidade duriense com a equipa no 14º lugar decorrente de oito pontos conquistados, mais quatro do que o SC Braga B, na altura o "lanterna vermelha", em sete jogos disputados. Daí para cá foi sempre a subir até ao terceiro lugar, um lugar de acesso ao escalão maior, a três pontos do segundo classificado, a Académica, tendo em conta que o líder é a equipa B do FC Porto.

Para já, a hipótese de regressar ao convívio dos grandes não passa de um sonho. E é assim que o treinador encara o momento vivido pela equipa sensação. "Não estaria a ser correto se dissesse que não penso nisso estando nesta altura na posição em que estamos, mas não quero colocar isso como objetivo", afirma ao Bancada o treinador, de 44 anos, que começou nos sub-17 do Vitória de Guimarães e que iniciou a época 2015/16 no comando técnico da equipa principal vimaranense, tendo orientado posteriormente o Varzim. "Quando ainda faltam tantas jornadas, não é correto estar a definir a subida como o grande objetivo, mas o sonho comanda a vida. Sabemos das nossas limitações, mas também das nossas virtudes e o que prometemos é muito, muito trabalho. O que vier, virá por acréscimo", sublinha Armando Evangelista.

É em clima de festa, decorrente das comemorações dos 67 anos de vida que esta quinta-feira se iniciam com o hastear de bandeira no Estádio 25 de abril, que o FC Penafiel recebe o Varzim na próxima jornada da segunda Liga. "É bom as pessoas estarem felizes mas temos de encarar todos os jogos com o máximo respeito, seja qual for o adversário. Estivemos a 14, 15, 16 pontos dos primeiros lugares e agora estamos lá em cima fruto da forma como encaramos todos os jogos. O Varzim por ser o próximo é o mais importante."

Como é que uma equipa que estava em posição de descida surge agora nos lugares de subida? Para Armando Evangelista, a resposta é muito simples. "Deve-se sobretudo ao acreditar, à crença. Fizemos os jogadores acreditar e eles estão a responder ao nosso compromisso. Todos juntos somos capazes." Neste contexto, o responsável técnico não deixa de elogiar o plantel. "A nossa mensagem foi muito bem recebida pelo grupo. Tive sorte em ter este grupo de trabalho. Receberam-me bem e vêm sempre demonstrando que querem aprender, que querem evoluir. Temos também uma direção que tem feito um trabalho fantástico. Há empatia entre todos e quando assim é ficamos mais perto do sucesso."

O FC Penafiel tem sido um terror das equipas B de FC Porto, Benfica e Sporting. De resto, a equipa duriense vem revelando particular apetência para os jogos teoricamente mais difíceis, triunfando também nos Açores, diante do Santa Clara, em Viseu, frente ao Académico, e em Vila Nova de Famalicão. Qual o segredo? "É a nossa forma de encarar os jogos. Não somos uma equipa de ataque mas uma equipa que sabe aproveitar as suas virtudes da melhor forma e esconder as fraquezas. Os jogadores têm demonstrado enorme caráter e personalidade."

O treinador penafidelense frisa a competitividade do segundo escalão e quando questionado sobre os principais candidatos à subida enumera as equipas que desceram do escalão principal (FC Arouca e Nacional) e também a Académica. "É muito difícil traçar prognósticos. Agora, há equipas com orçamentos superiores, que investiram mais", afirma, sublinhando: "As equipas que desceram de divisão têm o objetivo forte de subir e escolher três ou quatro não é nada fácil, mas Nacional, Arouca e a Académica são, à partida, aquelas que têm argumentos mais fortes."

O FC PENAFIEL PELAS MÃOS DE EVANGELISTA

Académica (c) 0-0

U. Madeira (f) 0-0

Sporting B (c) 4-1

Santa Clara (f) 2-1

Gil Vicente (c) 0-0

Benfica B (f) 4-3

Vitória SC (c) 2-1

Leixões (c) 1-1

Oliveirense (f) 1-2

FC Arouca (c) 2-0

Académico (f) 4-1

SC Covilhã (c) 0-1

Nacional (c) 0-3

Famalicão (f) 2-1

FC Porto B (c) 1-0

SC Braga B (f) 0-0

TOTAL: 16 jogos, 8 vitórias, 5 empates e 3 derrotas

Os números mostram um FC Penafiel destemido frente às equipas B dos chamados grandes. Goleou o Sporting em casa por 4-1 depois de ter estado a perder por 1-0, venceu o Benfica no Seixal num frenético desafio que terminou com um estonteante 4-3 e, no último fim de semana, triunfou frente ao líder FC Porto B, por 1-0. Ou seja, fez o pleno de vitórias.

A estreia de Armando Evangelista no comando técnico dos penafidelenses ocorreu a 7 de outubro, depois da derrota dos durienses diante do Vilafranquense por 1-0 em jogo da segunda eliminatória da Taça de Portugal, que ditou a saída de António Conceição. Um empate a zero perante a Académica foi o saldo do primeiro jogo, precisamente perante o adversário que nesta altura está na segunda posição, o primeiro lugar de subida, com três pontos de vantagem relativamente aos penafidelenses, também em situação privilegiada.

O desafio com a UD Oliveirense, fora de portas, a 10 de dezembro, resultou no primeiro desaire como consequência de uma derrota por 2-1. Seguiram-se importantes triunfos diante de adversários diretos como o FC Arouca e o Académico, que acabou goleado em Viseu por 4-1. Duas derrotas conscutivas frente ao SC Covilhã e ao Nacional da Madeira arrefeceram o entusiasmo, mas a equipa conseguiu retomar o rumo das vitórias ao vencer o Famalicão e o FC Porto B.

 

A equipa mais portuguesa

A utilização de jovens jogadores portugueses nas ligas profissionais, o mesmo é dizer na primeira e segunda liga, tem conhecido redução substancial nos últimos anos, ao ponto de o Sindicato de Jogadores Profissionais de Futebol ter colocado o tema em debate no início deste ano. Entre o painel de intervenientes estiveram Joaquim Evangelista, presidente do Sindicato, José Couceiro, treinador do Vitória de Setúbal e antigo líder do Sindicato, Joaquim Milheiro, coordenador técnico das seleções jovens nacionais, e... Armando Evangelista, treinador do FC Penafiel, que ostenta a bandeira de ser a equipa com mais jogadores portugueses no plantel (20 em 26).

O espaço de intervenção dos jovens portugueses tem vindo sucessivamente a diminuir nos últimos anos em antítese com a aposta em futebolistas estrangeiros, sendo o clube duriense uma clara exceção. 

Os números são claros relativamente a 2016/17: na última temporada a percentagem de utilização dos futebolistas portugueses decresceu de uma percentagem global de 57 para 43 por cento (na liga principal) e de 54 para 46 por cento (na segunda liga). "As percentagens registadas na segunda liga é que são, na minha opinião, mais surpreendentes", sublinhou na altura o líder sindical dos futebolistas profissionais. "Para nós, é determinante o aproveitamento dos jogadores portugueses. Em sub-19 ocupámos o primeiro lugar do 'ranking' da UEFA. Temos, atualmente, 145 mil jogadores portugueses a praticar futebol nos nossos atuais quadros competitivos. A Alemanha tem cerca de dois milhões de praticantes. São realidades distintas", frisava Joaquim Milheiro, coordenador técnico das seleções nacionais.

Armando Evangelista não deixa de salientar a qualidade do jogador português, mas acaba por relativizar o facto de o FC Penafiel ser a equipa mais portuguesa de Portugal. "Enquanto treinador, os meus jogadores não têm nacionalidade, religião ou raça. É assim que eu olho para esta questão. Agora, como cidadão português, agrada-me a aposta nos jogadores nacionais. O jogador português é um jogador de qualidade, mas não olho a isso. É preciso não esquecer que temos muitos jogadores e muitos treinadores a trabalhar lá fora." 

No escalão principal, só o Vitória de Setúbal se pode equiparar aos penafidelenses. A equipa dirigida por José Couceiro conta 20 portugueses em 29 jogadores.