As lesões graves de João Martins e Ballack; a competência de Luís Freire; um pedido de casamento no relvado
Gente feliz com lágrimas. O gesto de Leandro Borges, avançado de 26 anos do Mafra, mal terminou o encontro com a União de Leiria que garantiu o regresso à Segunda Liga da equipa do Oeste, após dois anos consecutivos no terceiro escalão, espelha bem o sentimento que paira nestes dias na equipa e adeptos do Mafra. Com a SportTV em direto, Leandro Borges encheu-se de coragem, agarrou o microfone e pediu a namorada em casamento. Cumpriu à risca a tradição: primeiro fez juras de amor e só de seguida fez a pergunta. Visivelmente emocionada, Filipa aceitou o pedido de casamento e provocou nova explosão de alegria nas gentes de Mafra, em pleno Estádio Municipal de Leiria.
Mais tarde, Leandro Borges explicou que o pedido de casamento já estava planeado caso o Mafra conseguisse a subida de divisão. “Claro que já estava pensado. Falei com o Quim Zé [diretor desportivo do Mafra] e disse-lhe que se subíssemos iria pedir a minha mulher em casamento. Aliás, agora é que vai ser minha mulher (risos)”, disse, em declarações em direto à SportTV.
É este misto de racionalidade e emotividade que espelha aquilo que foi a campanha de sucesso do Mafra, que levou a equipa à subida de divisão e levou os adeptos à loucura, primeiro no Estádio Municipal de Leiria, depois já na vila na receção na Câmara Municipal. Um dos principais obreiros da subida é o jovem treinador Luís Freire, cujo perfil Bancada traçou oportunamente. “Vencemos a série D, com mais seis pontos, e penso que isso não foi valorizado. Ninguém falou de nós quando chegámos ao play-off e isso catalisou muito a nossa força dentro do balneário, para mostrarmos que tínhamos uma palavra a dizer. Não perdemos nenhum jogo do play-off, jogando sempre contra grandes equipas. Jogámos com as nossas fraquezas e forças para conseguirmos este objetivo. O Mafra jogou sempre um bocadinho por fora, mas soube sempre motivar-se com isso”, analisou o técnico que já contava com quatro subidas no currículo em outros escalões, ao serviço dos modestos Ericeirense e Pero Pinheiro. Agora soma cinco.
“Esta equipa tem muita qualidade, é jovem, com alguns jogadores que estão há muito tempo no Mafra e que sentem bem o clube e temos uma massa adepta que se aliou muito à equipa. Unimo-nos sempre nas dificuldades. Podíamos ter abanado muito depois do golo [a União de Leiria marcou primeiro, num golo que lhe dava a subida], mas tivemos aí a nossa melhor fase. Depois do empate, foi coração, para tentar segurar a vantagem na eliminatória”, analisou Luís Freire. E a final com o Farense? “Num jogo tudo pode acontecer. O Farense é muito forte, tem um trabalho de trás, com excelentes jogadores, mas o Mafra pode discutir a possibilidade de ser novamente campeão nacional”, continuou.
Mas na campanha do Mafra nem tudo foram rosas. O médio centro João Martins, irmão de Carlos Martins, ex-jogador do Sporting e do Benfica, e o defesa central caboverdiano Kiki Ballack foram duas grandes apostas de Luís Freire para a época 2017/18 mas o infortúnio bateu à porta dos dois jogadores. Duas lesões graves na pré-época afastaram-os das opções do técnico do Mafra. João Martins passou a temporada sem jogar, Kiki Ballack ainda regressou aos relvados, num jogo em casa, mas só jogou dez minutos, ressentindo-se da lesão.
Miguel Barata foi treinador do Mafra e é amigo pessoal de Luís Freire com quem foi colega de escola e jogaram juntos desde as camadas jovens do Mafra até aos séniores. Hoje em dia faz comentários para uma rádio local e qualifica de “muito positiva” a campanha do Mafra. “Numa fase inicial, eram poucas as equipas que davam o Mafra como candidato, mas está aí o resultado de muito trabalho do míster Luís Freire e da sua equipa técnica”.
Hugo Ventosa e o carro avariado na ida para um treino
O lateral Hugo Ventosa conta um pequeno episódio que reflete o bom ambiente que se vive no seio da equipa. “Houve uma vez que o carro onde ia um grupo de jogadores avariou a meio do caminho para o treino e um colega nosso dispôs-se a vir-nos buscar para chegarmos ainda a tempo do treino. São pequenos detalhes, mas que fazem toda a diferença e fortalecem um grupo de trabalho”. Hugo Ventosa, que passou pelas camadas jovens de Sporting, Alverca, Belenenses e Estrela da Amadora,e que curiosamente já jogou no Farense, adversário do Mafra na final do Campeonato de Portugal, fala também de laços muito fortes dentro de campo. “Se um jogador falha, estamos todos aqui para ajudar. Nunca deixamos ninguém ficar no chão”, assegura.
Sobre a campanha do Mafra, Hugo Ventosa garante que “não foi um percurso fácil” mas fala que a equipa foi sempre superando os obstáculos e contrariando as expetativas…dos outros. “Calhámos numa série complicada, mas ganhámos os duelos às equipas que tinham o objetivo de subir (Praiense, Vilafranquense, Torrense, Sintrense…). Conseguimos ficar em 1º lugar, jogámos depois com o Vilaverdense nos playoffs e ganhámos por 2-1 e eles disseram-nos logo que não ganhávamos a eliminatória, mas provámos o contrário e vencemos por 4-2. A seguir, veio a União de Leiria, e na boca de toda a gente a União de Leiria já tinha vencido. Mais uma vez, mostrámos o nosso valor e que somos uma família unida. Temos um coletivo muito forte, dentro e fora de campo”.
Chiquinho Carlos, o “histórico” do Mafra, e a primeira palestra do treinador
Chiquinho Carlos, antigo jogador do Benfica e do Vitória de Guimarães, está no Mafra há…19 anos. Jogou três épocas na equipa do Oeste até aos 38 anos, depois foi para o Igreja Nova onde esteve seis épocas, até aos…44 anos, mantendo sempre ligação ao Mafra. Apesar de ainda hoje, com 55 anos, dizer que ainda consegue “brincar” ao futebol, Chiquinho Carlos passou para a equipa técnica do Mafra onde este ano consumou a sua segunda subida ao segundo escalão. “Foi uma época fantástica. O grupo estava focado na subida. Fizemos um grande campeonato”, diz, apontando um dado curioso: “Na época anterior, com o Vilafranquense, um dos candidatos, empatámos os quatro jogos com eles. Esta época, ganhámos todos”.
Chiquinho revela que logo na primeira palestra, o treinador Luís Freire apontou a subida como a meta principal, apesar de o Mafra nunca ter sido visto como um grande candidato. “Desde o início, o treinador disse que o objetivo era subir. Não saíu cá para fora, mas esse foi sempre o foco. A maioria das equipas candidatas, sobretudo as do Norte, achavam que eram mais fortes, mas não foi isso que aconteceu. O treinador vinha de outras conquistas, já tinha subido o Ericeirense, por duas vezes, e o Pero Pinheiro, também por duas vezes”.
Cristo rendido ao valor de Freire pede apoios
“Por Mafra já passaram muitos treinadores de valor reconhecido, mas nenhum como o Luís Freire”. O presidente do Clube Desportivo de Mafra, José Cristo, está rendido ao valor do jovem técnico e augura-lhe um grande futuro. “Para além de ser natural de Mafra, o Luís Freire junta uma capacidade de trabalho acima do normal e está rodeado de uma equipa de adjuntos igualmente de grande profissionalismo. A eles, aos diretores e aos adeptos se deve o bom momento que estamos a viver”, acrescentou José Cristo.
O regresso ao segundo escalão do Mafra não deverá contar com a continuidade de Luís Freire, cobiçado pelo Estoril Praia. O treinador joga à defesa. “Agora, quero festejar. Se acontecerem coisas boas para nós e que seja também bom para o Mafra, vamos tentar fazer o melhor para a nossa vida. Sempre dei prioridade ao Mafra o ano todo, no fim vou ouvir as pessoas. O Mafra tem agora de usar essa experiência para se preparar cedo, porque o campeonato da II Liga é muito mais forte do que este. De certeza que o Mafra vai tentar-se apetrechar em termos de estrutura, jogadores, equipa técnica, e tudo o resto, para dar a melhor resposta”, terminou. O patrocinador principal do Mafra é a MotiCristo, empresa de stand de automóveis gerida por José Cristo, presidente do clube.
Consumado o regresso do Mafra aos campeonatos profissionais, com ou sem Luís Freire, José Cristo pede apoio, já que segundo o dirigente ” é incomportável o José Cristo andar há 30 anos a pagar do bolso as contas do clube. Numa 2ª Liga não vou conseguir sozinho aguentar o barco, chegou a altura de unir forças em torno do clube, pois este emblema representa uma região e não podemos andar para a frente desta forma”, alertou num momento em que o clube vive a euforia de ter subido ao segundo escalão do futebol profissional de onde desceu há dois anos com uma espinha atravessada na garganta. É que o Mafra desceu quando rebentou o escândalo das apostas ilegais, que incluiu os jogadores do Oriental, Oliveirense, Leixões, e por isso em Mafra todos falam à boca cheia, no estádio, nos cafés, onde haja uma tertúlia de adeptos do clube do Oeste, que o Mafra desceu em condições anormais. Até por isso este regresso conseguido “contra tudo e contra todos que duvidavam da subida” tem um sabor a justiça.

Foto: Facebook Mafra/Jorge Marques