Prolongamento
GS Loures e Sporting sem “tortura”, longe do "inferno" e embalados por Toy
Mauro
2018-10-12 21:10:00
E que giro seria um Loures-Sporting em plena Rua da República, em Loures, com condutores a deitarem um olhinho a Nani.

“Duas vidas separadas pelo tempo” é o que canta Toy, ele que voltou a estar tão na moda. GS Loures e Sporting foram separados pelo tempo, mas, no passado, foram dois corpos bem agarrados e duas vidas bem juntas. O tempo fez questão de as juntar, novamente, na Taça de Portugal. Que clube centenário é este? Já lá vamos.

Antes, falemos do palco da festa. Para muitos, este jogo teria de ser jogado em Loures, desse por onde desse. Mas não vai ser. Junto ao café “Preto e Branco”, bem perto do campo do Loures, Virgolino, entre uma página de jornal e uma resmunguisse com a mulher, pôs-nos tudo bem preto no branco. “Oh rapaz, jogar aqui seria um inferno para o Sporting. Uma tortura. É bom que o clube insista em recebê-los aqui”, disparou.

Este aviso é claro: O GS Loures não poderá utilizar o Campo José da Silva Faria sem autorização da Federação Portuguesa de Futebol (sim, nós sabemos que o aviso não é para isto, mas até calhou bem). Por isso, o Loures-Sporting, da Taça de Portugal, será jogado noutro sítio. Em Alverca, fora do muito urbano município de Loures. Sim, o Complexo Desportivo de Alverca, junto à Estrada Nacional 10, também é bem castiço, como nós já lhe mostrámos. Mas, para o Loures, não é a mesma coisa.

E que giro seria um Loures-Sporting em plena Rua da República, em Loures, permitindo que os condutores mais curiosos deitassem o olhinho para a direita, para ver Nani e Bruno Fernandes.

O Bancada foi até lá. Não a Alverca, mas a Loures. Sentir o pulso a quem gosta desta equipa do Campeonato de Portugal. Ver o campo. Ver do que se safou o Sporting. E safou-se de algumas coisas: safou-se de um relvado sintético que, para além de artificial, já tem mais borracha do que relva. Safou-se de um campo que, certamente, estaria “à pinha”. Safou-se de um ambiente que, com as bancadas tão próximas do campo, seria quentinho. Safou-se de jogar o futuro na Taça em condições que elevariam o humilde Loures a outro patamar e dariam mais algum equilíbrio à teoricamente desequilibrada eliminatória. Em Alverca, não serão favas contadas, mas será um pouco mais fácil, quer pelo piso, quer pelas dimensões do relvado e do recinto.

Pausa para um fun fact: o Sporting e o Loures são vizinhos na proximidade geográfica, mas já foram mais do que são agora. Há alguns anos, antes de haver pavilhão de Odivelas e pavilhão João Rocha, algumas modalidades do Sporting – o futsal, nomeadamente – jogavam no Pavilhão Paz e Amizade, mesmo em frente do campo do Loures.

Paz e Amizade é o que se espera deste jogo, a 20 de outubro. Uma festa em paz e um ambiente de amizade. Mas há uma eliminatória para disputar. Em Loures, isto não vai ser só festa. Ai não vai, não...

Lá bem perto do Campo José da Silva Faria há um simpático café chamado “Dallas”. E mal sabíamos nós que, tal como a cidade de Dallas, aquilo seria um belo Texas. Não fomos mal tratados, mas levámos um pequeno corretivo. E foi justo. Quisemos saber se, para o humilde Loures, isto seria uma eliminatória mais para desfrutar do que para competir. Arrependemo-nos da pergunta. “Desfrutar? Oh amigo, não nos desrespeite! Você não sabe do que é feito o Loures. Aqui ninguém desfruta nada. É para ganhar”, diz-nos Mário Campos, acrescentando: “E olhe que eu sou sócio do Sporting”. Perdão... como? “Tenho 364 dias para torcer pelo Sporting. Frente ao Loures, não há Sporting para ninguém”.

Isto não é, de todo, estranho. Reza a lenda que, em 1913, o GS Loures foi fundado – ou ajudado a fundar – por Rafael Vieira, um ex-atleta do Sporting. A lenda reza, ainda, que o primeiro jogo do Loures foi precisamente um particular contra o Sporting e que, desde aí, o “gigante” ajudou o “bebé” Loures. E quem era do Loures era, também, do Sporting.

Pronto, estamos esclarecidos. A seguir, mergulhámos na pergunta de um milhão de euros. “Preferia defrontar o Sporting aqui, em Loures, no vosso campo, ou ir para um estádio maior e receber mais receita de bilheteira?”, perguntámos, um pouco a medo, a Manuel Policarpo, outro lourense que tomava um café. “Olhe, boa pergunta”. Suspirámos de alívio. Já estamos a ser mais aceites. “Sinceramente, não sei o que lhe diga. Claro que seria bom jogar aqui e seria muito difícil para o Sporting jogar nestas condições, digamos, mais humildes, mas se formos ali ao Restelo ou à Amadora acho que podemos fazer um bom dinheiro. E o dinheiro faz-nos falta”, disse-nos, antes de saber que o jogo será em Alverca.

Se jogasse em Loures, o Sporting teria, no entanto, a possibilidade de festejar perto de um sítio que fica no final da rua. Um sítio, no mínimo... motivador.

A ligação entre Loures e Sporting não se fica pelo apreço dos adeptos, pelas ajudas na fundação ou pela proximidade geográfica. Há mais. Beto, ex-guarda-redes do Sporting, andou lá perto, no rival Ponte Frielas e cresceu em Loures. André Almeida, atualmente no Benfica, também passou pelas escolinhas do Loures e, mais tarde, do Sporting. Tal como Miguel, ex-lateral da seleção portuguesa. A título de curiosidade, também jogadores como Bebé e Djalma deram os primeiros passos no futebol no Campo José da Silva Faria.

Primeiros passos dados com dificuldade. É que o GS Loures continua a ser um clube cujas infraestruturas, para além de obsoletas, são muito pequenas. O recinto tem apenas um campo sintético, para dezenas de atletas. E é só. Tem ainda um pequeno bar, uma zona de balneários degradados e um parque de estacionamento. Isto num clube que tem, até, algumas equipas jovens em campeonatos nacionais, para além dos seniores.

A caminho do campo, ente várias ruas de circulação proibida, fomos recebidos com várias placas que indicavam a direção para o edifício do “Juízo de Execução” de Loures. Aproveitamos a dica para dar voz a quem acha que, de uma forma realista, o Sporting tratará de dar um valente “juízo de execução” ao GS Loures. “Eu gostaria de lhe dizer que o Loures vai passar, mas não sou ingénuo. Acho que vai ser uma festa bonita para nós, mas um resultado pouco agradável”. “Ah e claro que vai entrar um bom dinheiro”, dizem-nos, junto ao "Dallas".

Prometendo não maçar, não há como falar de um clube sem falar um pouco de história. E a história recente do GS Loures – que já teve uma participação na Segunda Liga –, não sendo brilhante, é digna de respeito. Vejamos: o clube subiu ao Campeonato de Portugal em 2013/14, depois de alguns anos nos distritais de Lisboa. Desde aí, são cinco temporadas consecutivas sem conseguir a subida à Segunda Liga, mas são também cinco temporadas consecutivas entre os primeiros classificados. Ano após ano, a subida tem ficado presa por um fio. Em 2015/16, por exemplo, a equipa ficou apenas a um ponto do playoff de subida. Mais curiosa foi a temporada 2013/14, na qual, vindos dos distritais, os lourenses ficaram logo em primeiro lugar na Série G, falhando, depois, na fase de subida.

Já chega de dados e estatísticas: o que fica claro é que o Loures tem estado, ano após ano, com desempenhos consistentes no terceiro escalão nacional, sempre perto da subida e sempre longe da descida. Ali, não se trabalha à toa, parece-nos.

Paredes-meias com o campo do Loures está este grafitti. Ou arte urbana, para não nos acusarem de falta de sensibilidade artística. 

Resta saber se o Sporting vai comer tudo ou se vai deixar algo para o GS Loures.