Prolongamento
“Fiquei chocado com a prisão preventiva” de Rui Pinto, adianta Louçã
Redação
2021-04-29 22:50:00
Ex-coordenador do Bloco de Esquerda destaca a "enorme relevância pública" da informação publicada pelo Football Leaks

Francisco Louçã, ouvido na sessão de hoje do julgamento do processo Football Leaks como testemunha de Rui Pinto, revelou aos jornalistas que ficou “chocado com a prisão preventiva” do criador do Football Leaks, a 22 de março de 2019, a qual só terminou a 8 de abril de 2020, quando o arguido passou para prisão domiciliária.

“Eu fiquei chocado com a prisão preventiva. Rui Pinto está a responder em tribunal e está aqui todos os dias. Não fugiu, não há perigo de fuga”, comentou o antigo líder do Bloco de Esquerda e conselheiro de Estado, ao falar com os jornalistas, à porta do Tribunal Central Criminal de Lisboa, em Lisboa.

Afirmando que “Rui Pinto é certamente um denunciante”, Francisco Louçã frisou que a informação divulgada pelo Football Leaks tem de ser avaliada pela sua relevância pública, pois pode servir como ponto de partida para a investigação a crimes económicos, difíceis de provar pela sua “altíssima complexidade”.

“Não tenho conhecimento de como obteve essa informação, nem farei nenhuma afirmação sobre isso. Mas, se não houvesse capacidade de obtermos informação sobre crimes económicos, que estão ocultados por artifícios, barreiras, proteções, segredos, ‘offshores’, se não conseguíssemos afastar o biombo da sala, nunca seria possível condenar uma pessoa corrupta ou um crime económico”, sustentou o economista.

O antigo coordenador do Bloco de Esquerda insistiu que a informação revelada por Rui Pinto, em casos como Football Leaks, Malta Files e Luanda Leaks, “é de enorme relevância pública”. “Algumas autoridades usaram essas informações para obterem pagamentos de impostos que eram devidos e só por isso a sua relevância já é importante”, reforçou.

Ao testemunhar em tribunal, Francisco Louçã apontou o exemplo do Luanda Leaks, caso também revelado por Rui Pinto, para insistir na "enorme relevância pública" da informação divulgada pelo "denunciante". "O Luanda Leaks abriu a luz numa sala que estava às escuras. Provou que este universo era uma forma de reciclagem de recursos de uma enorme dimensão. Creio que o Luanda Leaks forneceu às autoridades angolanas informação de grande valor para promover a sua própria investigação e os caminhos que a investigação tem vindo a prosseguir", considerou Louçã, autor da obra ‘Os Donos Angolanos de Portugal’.

No caso do Luanda Leaks, Rui Pinto mostrou "como 400 empresas organizavam este tráfico de dinheiro através de sucessivas operações, através das quais as autoridades portuguesas sabem agora os abusos", insistindo que "este tipo de informações precisas é o ponto de partida para o combate ao crime económico". "É ter o mapa do tesouro e poder perceber como funciona esta operação", comparou.

O julgamento prossegue na próxima quinta-feira, com as audições das testemunhas Miguel Poiares Maduro, Francisco Nina Rente e Gerard Ryle. 

Rui Pinto, de 32 anos, responde por um total de 90 crimes: 68 de acesso indevido, 14 de violação de correspondência, seis de acesso ilegítimo, visando entidades como o Sporting, a Doyen, a sociedade de advogados PLMJ, a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) e a Procuradoria-Geral da República (PGR), e ainda por sabotagem informática à SAD do Sporting e por extorsão, na forma tentada. Este último crime diz respeito à Doyen e foi o que levou também à pronúncia do advogado Aníbal Pinto.

O criador do Football Leaks encontra-se em liberdade desde 07 de agosto, “devido à sua colaboração” com a Polícia Judiciária (PJ) e ao seu “sentido crítico”, mas está, por questões de segurança, inserido no programa de proteção de testemunhas em local não revelado e sob proteção policial.