Prolongamento
"Final de Gelsenkirchen parecia um FC Porto-Benfica. Estávamos tranquilos"
2021-09-10 09:30:00
Maciel recorda palestra de Mourinho antes da final da Champions em 2004

O treinador José Mourinho encarou com naturalidade a palestra prévia à conquista da edição 2003/04 da Liga dos Campeões, o segundo título europeu ‘selado’ em duas épocas no FC Porto, contou o ex-futebolista brasileiro Maciel.

“O grupo estava tão confiante, que ele falou normalmente e já sabia aquilo que faziam os jogadores do Mónaco. Ludovic Giuly e Jérôme Rothen eram peças-chave. Se Costinha e Nuno Valente os marcassem, 50% da equipa estava controlada. Via-se nos semblantes que estávamos muito tranquilos. Parecia um FC Porto-Benfica, em que estamos a jogar em casa e sabemos que o resultado será positivo”, frisou à agência Lusa o ex-avançado.

Em 26 de maio de 2004, os golos do brasileiro Carlos Alberto, do internacional luso Deco e do russo Dmitri Alenichev valeram o triunfo dos ‘dragões’ face aos franceses do Mónaco (3-0), reeditando em solo alemão o título de 1986/87, numa campanha que Maciel assistiu fora do relvado, depois de na primeira metade da época ter sido utilizado pela União de Leiria na Taça UEFA.

“Quando tens um balneário bom e as pessoas te tratam bem, com certeza o futebol flui. Não havia ali pessoas a querer derrubar outras. O José Mourinho conseguiu conversar com os jogadores da mesma forma, fosse num clube pequeno ou grande. Alinhou as amizades de todos através do futebol praticado dentro do campo, pelo que nos unimos para lutar pelo objetivo, que era vencer. A nossa equipa não gostava de perder”, notou.

O ex-extremo recebeu mais tarde uma medalha de campeão europeu da estrutura portista, após ter sido recrutado “a pedido” do treinador, com quem já havia trabalhado duas temporadas antes, assumindo ter descartado uma “proposta concreta” do Benfica.

“O conhecimento dele sobre mim e a nossa intimidade para conversar eram tão grandes que não notei muitas diferenças. Notei mais fome de ganhar títulos. Quando chegou a Leiria, disse que nos íamos intrometer nos primeiros lugares e saiu quando estávamos na quarta posição. Mudou aquilo que já tinha anteriormente: essa ambição igual à de todos os treinadores assim que se mudam de um clube pequeno para um grande”, apontou.

Maciel saiu de Leiria em janeiro de 2004 e continuou a ser presença assídua na I Liga, conquistada pelo FC Porto, ao cumprir 21 jogos e três golos, sendo que os quase cinco meses com José Mourinho na cidade do Liz tinham rendido cinco tentos em 16 duelos.

“O que vi nos primeiros treinos, com jogos em campo reduzido, foi totalmente distinto do Brasil. Mostrou-nos que uma alta intensidade de jogo consegue dar muitos resultados. Agregando isso à técnica e qualidade de cada jogador, percebíamos que tinha muitos trunfos dentro de campo. Também impressionou a forma como se impunha com qualquer um para treinar até acima dos seus limites. Conseguiu tirar o máximo de todos”, ilustrou.

A chegada a Leiria foi acelerada por intermédio do empresário Jorge Baidek no verão de 2001, quando o técnico setubalense ficou agradado com uma exibição do ex-dianteiro do modesto Volta Redonda frente ao Flamengo, no Estádio Maracanã, no Rio de Janeiro.

“Ia ganhar 10.000 dólares mensais, mas só queriam pagar 5.000. Como na altura era um pouco meio rebelde, disse logo que pegava num avião e ia-me embora. Vieram atrás de mim o Elias Duba, que era representante do Derlei e estava na sala para renovar o contrato dele, o Mourinho e o Mozer. Pediram-me para ter calma e assinar, pois, se jogasse bem, iriam repor dinheiro que faltasse. Tiveram um papel importante”, recordou.

Mesmo sem ter titularidade garantida, o ala veloz, característica que levou Mourinho a apelidá-lo de ciclista, sentiu-se “mais seguro e confiante” para se adaptar ao plantel, que reunia o defesa Nuno Valente e o avançado Derlei, ambos vencedores da Taça UEFA pelo FC Porto frente aos escoceses do Celtic (3-2, após prolongamento), em 2002/03.

Essa dupla também seria titular na final da Liga dos Campeões, que marcou a despedida de José Mourinho do futebol nacional, rumo aos ingleses do Chelsea, para onde tentou levar Maciel, atendendo ao menor rendimento do ex-extremo nos ‘dragões’ em 2004/05.

“Houve essa conversa. Na altura, o Chelsea só contratava mesmo quem era jogador de seleção. Como eu não tinha representado a seleção brasileira, não poderia jogar no campeonato inglês. Nessa época, só tinham o Arjen Robben como extremo e poderiam utilizar-me na direita. Fiquei feliz, mas sabia que era um sonho impossível”, lamentou.

Intocável ficou a “eterna amizade” do brasileiro, de 42 anos, com “alguém especial”, que conseguiu reencontrar 13 anos depois, em junho de 2017, ao aproveitar uma passagem por Portugal para ir até Setúbal homenagear o técnico no funeral do pai Félix Mourinho.

“Sempre disse que ele se tornou um pai em termos de conduta dentro e fora do campo. Pediu-me para jogar o mesmo futebol que no Brasil e ajudar taticamente a nossa equipa. Colocou-me também na cabeça que não gastasse dinheiro à-toa, respeitasse esposa e filhos e desse algo mais à família. Foi grandioso comigo nessas atitudes”, finalizou.

José Mourinho, de 58 anos, vai cumprir o milésimo jogo nos bancos no domingo, na receção da Roma ao Sassuolo, em jogo da terceira jornada da Liga italiana, 21 anos depois da estreia como treinador principal pelo Benfica, em 23 de setembro de 2000.