Rui Águas, André, Mário Wilson e o Professor Alberto Barros explicam a ligação entre pais e filhos futebolistas
Rui Águas herdou do seu pai a capacidade de cabecear; Mário Wilson, muito pequenino, seguia religiosamente os jogos da Académica do Mário Wilson pai; a André André nunca faltaram em casa os conselhos de um pai jogador; mas João Cajuda (filho de Manuel Cajuda) nunca quis ser futebolista.
Em parte pela genética, em parte pelo ambiente em que cresceram, os filhos de futebolistas têm mais probabilidade de seguir esse caminho, ainda que isso não seja garantia de nada. É o que revela o saber de experiência feito de vários futebolistas contactados pelo Bancada e o saber científico do Professor Alberto Barros.
Muitos são os casos de filhos de futebolistas que seguem as pisadas dos pais. No futebol português temos, atualmente, os casos de Mattheus Oliveira, André André ou Gonçalo Paciência, mas os exemplos abundam também a nível internacional. Os filhos de Zidane estão à porta da equipa principal do Real Madrid, o filho de Kluivert já brilha no Ajax, e o filho de Diego Simeone marca golos no Genoa, por exemplo.
“É difícil fugir do ambiente em que se vive”, mas não sempre
“Uma pessoa nasce num meio desportivo e futebolístico e é evidente que é difícil fugir do ambiente em que se vive”, conta ao Bancada Rui Águas, antigo jogador do Benfica que é filho de José Águas e pai de Martim Águas, que na época passada representou o 1.º de Dezembro. “Quer eu, quer o meu filho foi isso que fizemos desde nascença”, acrescenta o antigo avançado do Benfica, cujo filho, Martim, numa outra conversa com o Bancada, confirma a forte ligação que sempre teve ao futebol: “só o facto de crescer ali com as taças em casa e com as camisolas e tudo isso… claro que acabei por ganhar o gostinho e crescer com aquela visão toda do futebol e do Benfica.”
A influência dos pais futebolistas parece ser unânime entre os filhos. É esse também o caso de Mário Wilson. “Quando eu era miúdo, o meu pai era o treinador da Académica e eu seguia religiosamente, ainda muito pequenino, os jogos. Na altura, o craque da Académica era o Artur Jorge, com o pontapé moinho, e eu treinava o pontapé moinho sozinho e essas coisas todas”, lembra o antigo jogador.
Já António André, antigo jogador do FC Porto e pai de André André, que representa os “dragões” atualmente, considera que no futebol acontece o mesmo que “em qualquer profissão. Se o pai for médico ou for advogado, vai haver mais opções aí. Em minha casa foi sempre o futebol, o meu pai já jogava e os meus irmãos jogaram todos à bola. Em casa, há sempre uma conversa a nível futebolístico, portanto isso quase que obriga os filhos a serem aquilo que os pais foram”.
No entanto, isso não tem de ser sempre assim. João Cajuda é filho de Manuel Cajuda, treinador e antigo jogador, mas não quis seguir as pisadas do pai, nem do irmão mais velho, Hugo Cajuda, que jogou no SC Braga. “Nunca tive muito interesse em ser jogador de futebol e acabei por seguir outra área, das artes. Também acho que não tinha grande jeito para futebolista, acho que era um bocadinho ‘pé de chumbo’”, conta ao Bancada. João Cajuda foi ator durante vários anos e, atualmente, tem uma agência de viagens e um espaço na internet, onde vai dando conta das suas aventuras, e diz que nunca se sentiu pressionado a ser jogador: “Até porque tenho um irmão mais velho que foi jogador e sempre esteve ligado ao futebol, portanto o meu pai acabou por ter um filho jogador e não senti grande pressão em seguir esse caminho.”
O caso de João Cajuda não é único, obviamente. Por exemplo, Mário Wilson que além de filho de um futebolista, é pai de Bruno Wilson, do SC Braga, lembra que tem “três filhos e só um é que deu jogador de futebol.”
“O meu jogo de cabeça é algo que só se explica pela hereditariedade”
Que o ambiente em que uma criança cresce tem influência no seu percurso, parece ficar claro pelos vários testemunhos que recolhemos. Mas poderão também os genes contribuir para que os filhos de jogadores saibam jogar? A resposta é sim, ainda que as coisas não funcionem “como quem mistura tintas”, explicou ao Bancada, o Professor Alberto Barros, especialista em Genética Médica pela Ordem dos Médicos, Professor Catedrático e Diretor do Serviço de Genética da Faculdade de Medicina do Porto.
O Professor salienta que, “ao contrário do que se pensava na antiguidade, as nossas características, quer físicas, quer intelectuais, não resultam da média aritmética das características dos nossos pais” e acrescenta que “inevitavelmente, para além da informação genética, que influenciará num determinado sentido, há a componente ambiental: a observação, a aprendizagem, a motivação.”
Assim, a capacidade finalizadora de Rui Águas resulta tanto dos genes que herdou, como do ambiente em que cresceu, não sendo “possível estabelecer uma quantificação relativa, isto é, o que é que vale a componente genética e o que vale a componente ambiental”, segundo Alberto Barros. Além disso, há também uma fator de aleatoriedade, porque a “informação genética resulta também do que chamamos de recombinação génica.”
Mário Wilson, não tendo ouvido o Professor Alberto Barros, chega às mesmas conclusões, através da sua experiência. “Isto não é ser ‘filho de’ ou ‘neto de’. Pode-se ter algumas características genéticas, mas depois é o meio em que se está, a influência, é começar a viver um ambiente ligado ao jogo em alturas precoces. Não há famílias de jogadores, há famílias em que os miúdos nascem com uma apetência para isso, mas depois têm de desenvolver as suas potencialidades num meio propício e o meio propício está criado de família e é meio caminho andado, mas não faz tudo como é óbvio”, explica.
Mas também Rui Águas, que antes nos falou sobre a influência do ambiente onde cresceu, fala sobre o talento que herdou do pai. “Tem algo de hereditário, acredito, até porque fisicamente somos, normalmente, parecidos com os nossos pais e o físico, num desporto deste tipo, por si só é logo importante”, afirma, antes de exemplificar: “Há questões que se repetem no meu pai e em mim como, por exemplo, o jogo de cabeça. É algo que só se explica pela hereditariedade.”
“Não há duas pessoas iguais”
Apesar da vantagem de se crescer num meio futebolístico e da eventual herança genética que poderá ser importante, os filhos de futebolistas conhecidos têm algumas dificuldades adicionais para superar.
Mário Wilson sentiu o peso do seu nome até porque, no seu caso, partilha com o pai não só o apelido, mas também o nome próprio. “Senti um bocadinho porque fui um privilegiado, tive o pai que tive. Era uma pessoa super considerada e, em Coimbra, que era um meio pequeno, foi muito complicado. Era o ‘filho do capitão, filho do capitão’…”, lembra.
Outra das dificuldades, segundo Mário, é que “às vezes, entra-se em linhas de comparação e não há duas pessoas iguais”, problema que Rui Águas também teve de enfrentar. “Ser filho de alguém que foi importante no mesmo desporto é, por um lado, um orgulho, por outro, uma dificuldade acrescida. Senti-me sempre um bocadinho marcado por isso. Depois há a questão das comparações, que são naturais, mas que não são fáceis de ultrapassar”. O peso do nome que transporta é também sentido por Martim Águas, filho de Rui e neto de José, que considera que tal “acaba por ser uma responsabilidade acrescida porque tenho um nome a defender”, além de ser também “um orgulho”.
Mário Wilson enfrentou ainda outro “problema”. Foi treinado pelo próprio pai na Académica, Estoril, Louletano e Benfica, e quando tal acontece “o ambiente em termos de colegas é muito mais condicionado.”
“Tremem menos do que nós como seniores”
António André e Mário Wilson acreditam que as novas gerações de jogadores já estão preparadas para a pressão. André explica que esse não foi um problema para o seu filho “porque ele vai-se adaptando. Foi aconselhado desde miúdo, portanto percebe perfeitamente aquilo que tem de fazer”. De resto, André tem também a preocupação de ir desde já fazendo um “acompanhamento sério” ao seu filho mais novo, que, com oito anos, joga nos escalões de formação do FC Porto.
Mário Wilson acredita que o seu filho, Bruno Wilson, não sentirá a mesma pressão por que ele próprio passou. “O meu filho nesse aspeto, para além de estar muito mais preparado, é muito mais experiente. Percorreu as seleções desde os sub-15 até aos sub20, há dois anos, em que ainda foi ao Torneio de Toulon, portanto tem uma experiência internacional e uma preparação que faz com que estas novas gerações, felizmente, já não tremam coisa nenhuma quando chegam a seniores. Pelo menos estes, que foram internacionais e fizeram trajetos em grandes clubes, já estão mais do que preparados. Tremem menos do que nós como seniores com anos e anos daquilo naquela altura. Estão preparados, formatados para a competição e para a pressão, porque jogam jogos com milhares de pessoas no público nos torneios internacionais e dá na televisão”, conclui.
A dúvida que fica
Tudo pesado, Rui Águas considera que ser filho de um futebolista conhecido “é mais um obstáculo do que uma vantagem”, enquanto António André parece mais confiante na capacidade de os “miúdos” lidarem com a pressão que lhes é imposta.
A questão que não lhes pudemos colocar é como é que um pobre pai, como este jornalista, chega a casa e explica aos seus filhos que, se não conseguirem ser futebolistas, tal se poderá dever aos desajeitados genes que herdaram. Resta-me esperar que alguma recombinação génica lhes dê mais talento que ao pai.