Artigo da autoria de Ricardo Gonçalves Dias, vencedor do Prémio Branquinho da Fonseca em 2013, do Prémio Jovens Criadores do Clube Português de Artes e Ideias em 2015 e do Prémio Jovens Criadores em 2025, sobre “um dos melhores jogadores da história de Portugal, Germano Luís de Figueiredo“.
1.
No ano de 1956 houve uma transferência difícil. Sem contendas negociais ou atrasos burocráticos– o problema não foi nenhum destes – a movimentação que ficaria para a história levou o craque do Atlético Clube de Portugal para o Caramulo. Ou melhor: para Paredes do Guardão.
Eram os anos vinte. O Grande Hotel criado pelo médico Jerónimo de Lacerda acabaria por dar lugar à maior estância sanatorial da Europa. A ambição do médico de Tondela tinha razão de ser: os ares da serra curavam. Paredes do Guardão mudava de vida com a criação do sanatório, ao ponto de mudar também de nome: passou a chamar-se vila do Caramulo. Era uma vila com sanatório, mas que não tinha clube. Por isso só havia um sítio para a transferência se realizar. O sanatório do Caramulo não era o destino previsto para Germano Luís de Figueiredo. Esse destino, isto é: esse clube, era vizinho do Atlético e ficava a uns dez quilómetros – a distância de Alcântara a Alvalade. O Caramulo ficava muito mais longe.
O clube do bairro de Alcântara teve o negócio fechado com o Sporting Clube de Portugal – que pagava quatrocentos contos ao Atlético e ainda mais cem a Germano. Não fosse a tosse que se manifestara em Madrid, no aeroporto onde a equipa da Selecção de Lisboa esperava pelo voo de regresso após o jogo com a Selecção da capital espanhola e para o qual Germano tinha sido convocado, e o negócio tinha-se dado. Na vez disso, Germano partiu para o Caramulo com tuberculose e sem os cem contos. Com os pulmões revigorados pelos ares da serra, voltou aos ares da infância a tempo de integrar a equipa do Atlético na época de 1957/1958, que parecera ter servido de embalo para o registo do ano seguinte: o Atlético subira à primeira divisão, Germano marcara 12 golos e o seu lugar na Selecção consolidou-se. A estadia na estância de Jerónimo de Lacerda já parecia mais distante do que o caminho para o Caramulo.
2.
Anos depois de a tuberculose ter fintado o negócio, no dia 4 de setembro de 1960 o Sporting voltava ao encontro do Atlético. Em causa estava um jogo a contar para as meias-finais, e mesmo que a equipa de Alvalade quisesse aproveitar a nova visita a Alcântara para tentar, outra vez, contratar Germano, já alguém se tinha antecipado. Era o tempo em que se abria a época com a Taça de Honra, a competição que antecipava o começo do campeonato e que era disputada pelas equipas de Lisboa. Enquanto que às 15:00h, no Jamor, Atlético e Sporting disputaram a primeira meia-final (vitória do Atlético, de Manolo Ibanez, por 3-2), duas horas depois a segunda meia-final começava no Restelo, entre o Benfica e o Belenenses. Eis o jogo que marcou a estreia oficial de Germano com a camisola da equipa da Luz.
Bela Guttmann viu-lhe o talento e as características que se haveriam de confirmar. Para trás da sua transferência para o Benfica ficaram os anos desde o seu primeiro jogo com a camisola do Atlético ainda nos Infantis, escalão onde começou como Guarda-redes, e todo este percurso ia dando sinais sobre aquilo que aconteceria no futuro: porque a história ainda o iria levar de novo à baliza, e porque o seu primeiro jogo nos seniores do Atlético, em 1951/1952 e treinado por Janos Biri, foi contra o Benfica. O clube onde haveria de ser campeão nesta época de estreia, a de 1960/1961, e que ficaria marcada muito para além da glória nacional.
3.
A edição de 29 de maio de 1961 do jornal A Bola (à época trissemanário) tinha na capa um destaque com o título “Quase Certo – A equipa do Benfica para a Final”. O redactor Aurélio Marco era o enviado especial do jornal à Suíça para acompanhar a epopeia do Benfica. Faltavam dois dias para a final da Taça dos Campeões Europeus, em Berna, e as dúvidas não existiam: Germano seria titular. Só ainda não se sabia que seria considerado o Defesa da final e um dos seus jogadores mais influentes. Foi um festival de desarmes, como aquele que fez a Sándor Kocsis, estrela húngara do Barcelona, narrado por Artur Agostinho como uma “grande intervenção de Germano em mais um grande contra-ataque dos catalães, sem qualquer prejuízo”. A imposição física do lance levou os envolvidos – Germano e Kocsis – a uma queda junto dos fotógrafos. Já nos primeiros minutos de jogo Mário Coluna caíra inanimado depois de um choque de cabeças com Vergés. O jogo estava duro.
A multidão que recebeu o Benfica no aeroporto de Lisboa era demonstrativa da agitação no resto do país. Os jogadores eram perseguidos com a taça na mão, entre eles estava Germano. Tinham passado quatro anos desde do seu internamento no sanatório, o tempo que bastara para se tornar Campeão Europeu pela primeira vez. A segunda foi logo no ano seguinte. Em 1962 Germano era já uma referência no Benfica, ao lado de Mário Coluna ou Águas, e repetiu a titularidade na nova final europeia. Havia, sim, um jogador em estreia nesta final do Estádio Olímpico de Amesterdão. Marcou dois golos e selou a vitória do Benfica bicampeão europeu. No final do jogo, enquanto os colegas corriam na sua direcção, Eusébio corria para Di Stéfano. Dava tudo para ter a camisola do ídolo.
O ponto de situação: estávamos em 1962 e Germano tinha vinte e nove anos. Um ano depois, e comprovando a década dourada da sua história, o Benfica marcava presença na terceira final europeia consecutiva. Mas desta vez o nome de Germano não constava das formações dos onzes iniciais.
4.
Depois da tuberculose, agora eram as dificuldades físicas que começavam a condicionar uma carreira que muitos consideravam ser mais veloz do que o tempo que se vivia. Germano não acompanhou a equipa na viagem até Londres para jogar a final da Taça dos Campeões Europeus de 1963. Por isso pode-se conjecturar se José Altafini, o Mazzola, teria conseguido marcar os dois golos da vitória do Milan (um no pós-ressalto dentro de área, outro num contra-ataque fulminante), caso Germano estivesse em campo. A hipótese, especulativa, não quer questionar a qualidade dos colegas – porque eram eles, aliás, que o consideravam único. António Simões comparou-o a Beckenbauer, José Augusto achou-o predestinado e Mário João disse que Germano era mais admirado no estrangeiro do que em Portugal. Talvez por isso o nome que o próprio Mário João chamou um dia a Germano não fosse dito em português.
O golo de Eusébio não bastou e o Benfica não conseguiu ser tricampeão europeu. Terá sido estranha a ausência na final da Taça dos Campeões Europeus no ano seguinte (1964) depois de três anos consecutivos a disputar o troféu. O jejum só durou esse ano, porque a 27 de maio de 1965 o Benfica estava de volta à grande noite europeia. A chuva inundava San Siro.
5.
O Inter de Milão teve o privilégio de disputar a final no seu estádio. O temporal na cidade italiana parecia uma tentativa de Deus para equilibrar as probabilidades, mas a influência divina não ajudou o Benfica: um lance nos últimos minutos da primeira parte terminou com um remate em queda de Jair que embrulhou a bola perto de Costa Pereira. O Guarda-redes, mal batido, ainda correu em direcção da baliza para tentar evitar o golo. E não foi o único. Já com a bola para lá da linha, Germano levou as mãos à cabeça. Pouco depois o jogo foi para intervalo. Na segunda parte Costa Pereira sentiu um desconforto. A dor, somada ao desânimo pelo lance do golo, era irrecuperável. O Benfica já tinha esgotado as substituições. Com Costa Pereira lesionado, o treinador Elek Schwartz teve de encontrar dentro do campo a solução. Era altura de Germano voltar a correr em direcção da baliza – e desta vez para lá ficar. Faltavam mais de trinta minutos para o fim do jogo.
O Benfica tinha chegado a esta final de San Siro com dois jogadores no topo da lista de melhores marcadores da Taça dos Campeões Europeus de 1965: Eusébio e José Torres, ambos com nove golos. No total, eram já vinte e seis marcados pela equipa em todas as eliminatórias. Mas nessa noite invernal de maio não houve mais golos. Nem para o Benfica, nem para o Inter. Germano defendeu tudo.
Esta foi a segunda vitória do Inter na Taça dos Campeões Europeus, e a segunda final perdida do Benfica. A sua década dourada haveria de ter uma quinta final: a de 1968, frente ao Manchester United, em Wembley. O mesmo estádio onde, em 1966, Portugal voltaria a ser tema no mundo.
6.
Portugal, que não era favorito, tinha Eusébio. A Bola de Ouro ganha em 1965 confirmava-o como a grande figura dos Magriços, a Selecção que chegou a Inglaterra para defrontar a Hungria no seu primeiro jogo no Mundial de 1966. Ao protagonismo europeu do Benfica na década de sessenta juntou-se a conquista do Sporting na Taça das Taças de 1964 – sendo as duas equipas as mais representadas na convocatória. Pelo Benfica: um dos convocados foi Germano. Embora tenha ficado fora do onze inicial contra a Hungria, a sua estreia no Mundial aconteceria no segundo jogo, frente à Bulgária, sendo titular e capitão de equipa (estatuto que tinha desde da fase de qualificação). A noite perfeita – Portugal dominou e voltou a vencer – só se contrariou com a lesão de Germano naquele que foi, ao mesmo tempo, o seu primeiro e último jogo no Mundial de 1966.
O Magriço do bairro de Alcântara não acompanhou mais a equipa no primeiro Mundial da sua história. A Selecção não era favorita, dissemos, mas os percursos europeus das equipas portuguesas – concretamente nesta década sessenta – recompunham com experiência a falta de estatuto de Portugal. Depois de eliminar a Coreia do Norte num dos jogos mais memoráveis de Eusébio, os Magriços chegavam às meias-finais para defrontar a anfitriã. Um polémico [e sinistro] volte-face fez com que o jogo, previsto inicialmente para Liverpool, se realizasse antes em Wembley. Estádio que a equipa Inglesa conhecia bem. Esta não era, porém, a primeira vez que alguns jogadores de Portugal pisavam o mítico relvado inglês: três anos antes a final da Taça dos Campeões Europeus tinha sido ali, opondo o Benfica ao Milan. Eusébio, Torres, Coluna, Simões e José Augusto voltavam assim a ser titulares em Wembley. O estádio onde as lesões não deixavam jogar Germano.
A melhor prestação de sempre da Selecção Portuguesa foi o terceiro lugar neste Mundial. Portugal caiu aos pés da Inglaterra de Bobby Charlton, autor dos dois golos da vitória, mas aquilo que o mundo viu era suficiente para que tivesse ido mais longe. Alguns colocaram as culpas na mudança repentina do estádio, outros disseram que se Vicente Lucas, ausente por lesão, tivesse ido a jogo, não teria deixado que Charlton fizesse tanto – tal como não deixou que Pelé fizesse no último jogo da fase de grupos.
No dia 29 de julho Portugal recebia o prémio de Bom Espírito Desportivo do Mundial de 1966. Os Magriços tinham mostrado muito mais do que bom futebol. Na cerimónia, ocorrida na véspera da final (entre a Inglaterra e a Alemanha Ocidental), a salva de prata foi entregue a Germano. A maneira como sorria para a fotografia não parecia a de quem viu a mais importante competição futebolística do mundo do lado de fora, estando dentro. Talvez esta fosse a postura de quem tinha as contas feitas com o destino: a carreira de Germano tinha sido feita de viagens extraordinárias, como aquelas que o levaram para o Caramulo e para o Benfica. A que o levou para a Selecção Portuguesa estava prestes a terminar. Nunca mais vestiu a sua camisola.
Prontos para regressar a Portugal, os Magriços fizeram as malas. A de Germano tinha livros.
7.
Pouco tempo depois do regresso da aventura dos Magriços, Germano soube que Fernando Rieira, treinador com quem já tinha trabalhado, o tinha na lista de dispensas do Benfica, iniciando-se o período que marcaria a parte final da sua carreira. Numa irónica movimentação do destino, Germano haveria de voltar ao Benfica na época de 1967/1968 para integrar a equipa técnica de Otto Glória, o mesmo treinador dos Magriços, estando finalmente presente num grande jogo em Wembley. Era a final da Taça dos Campeões Europeus de 1968, que o Benfica voltaria a perder, desta vez no prolongamento, frente ao Manchester United. Nesse jogo, o Guarda-redes do Benfica era José Henrique, que um dia recordou Germano antes do treino “encostado ao poste a ler um livro”.
Lia em qualquer lado. Nos cafés, nos estágios e até no relvado. No talento que tinha para o futebol poderia estar a origem de tantos nomes. Mas foi o seu vício pela leitura que fez o colega Mário João chamar-lhe de Mister Book.
Afastou-se do espaço mediático mal deixou o futebol. Não se lhe conhecem entrevistas. Foi discreto em desproporção ao seu próprio talento e numa completa mudança de vida acabou por vir a exercer funções profissionais no Reader’s Digest. É recordado como um dos melhores jogadores da história da Selecção e do Benfica. Lendário no Atlético, de onde partiu para o mundo. E como a realidade é mais complexa do que a imaginação, até quem nunca o viu jogar consegue vê-lo, neste preciso momento, a fazer um corte num lance de golo. E a depois encostar-se ao poste, lendo um livro.
