Com a ida para o Manchester City, Ederson passará a fazer mais passes curtos e menos longos. Ou será Guardiola a mudar?
A mudança de Ederson do Benfica para o Manchester City significa um grande desafio na carreira do jovem guarda-redes brasileiro não só por se tratar de uma mudança para um dos campeonatos mais exigentes do mundo, mas também pelo que Pep Guardiola exige dos seus guarda-redes. Por outro lado, será também curioso perceber se o treinador catalão aproveitará as características do seu novo jogador.
Como se adaptará Ederson a Guardiola?
Fosse no Barcelona, no Bayern ou já em Manchester, fosse com Víctor Valdés, Manuel Neuer, Claudio Bravo ou Willy Caballero, os guarda-redes das equipas de Guardiola são sempre forçados a participar no jogo de posse de bola da equipa, saindo a jogar de forma curta sempre que possível. Ora, o “jogo de pés” de Ederson destaca-se muito mais pela qualidade dos seus passes longos do que dos passes curtos que agora será forçado a fazer com maior frequência.
Tome-se, como exemplo, o caso de Manuel Neuer. Nos três anos em que foi treinado por Guardiola, o guarda-redes alemão passou a fazer muito mais passes por jogo do que fazia nas épocas anteriores e do que fez nesta temporada, com Carlo Ancelotti.

O gráfico demonstra bem o impacto que Guardiola teve no jogo de Neuer. Nos três anos em que foi treinado pelo catalão, Neuer fez uma média de 32,3 passes por jogo, o que representa um aumento de cerca de 25% relativamente aos seus números nas restantes épocas.* Relativamente ao número de passes longos feitos por Neuer, a sua proporção já apresentava uma tendência de descida antes de Guardiola e, na realidade, em termos absolutos a diferença não é significativa. Com Guardiola, o número de passes longos de Neuer não se alterou muito, a diferença está no aumento do número de passes curtos.

Como se adaptará Guardiola a Ederson?
Além da curiosidade de saber como Ederson se adaptará ao jogo de Guardiola, há também o outro lado da questão: como é que o treinador catalão tentará tirar partido do excecional pontapé do brasileiro? Já com a venda praticamente confirmada, Rui Vitória dizia, em entrevista à Sic Notícias, que “jogador como o Ederson, com aquele pontapé, não há. De facto, é uma arma tática. Só para relembrarmos isto: o lance em que toda a gente ficou espantada do golo contra o Vitória [de Guimarães] foi experimentado desde o jogo com o Bayern do ano passado. Quase em todos os jogos nós tentámos este lance.”
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Olhando os dados dos guarda-redes mais utilizados pelos seis primeiros classificados da Liga Inglesa na última época, verifica-se que Claudio Bravo, treinado por Guardiola, foi o que menos recorreu aos pontapés longos (4,5 vezes por jogo), seguido de Courtois (4,8) e Mignolet (5,3). Willy Caballero, que também foi bastante utilizado por Guardiola, fez ainda menos passes longos que o seu companheiro de equipa: apenas 4,2 por jogo.
Na época que terminou, Ederson fez sete passes longos por jogo, o que é bastante mais do que o que fizeram os guarda-redes do Manchester City esta temporada. Daí a curiosidade de saber se e como Guardiola tentará tirar proveito da capacidade do seu novo guarda-redes de colocar a bola de um lado ao outro do campo.
Deste ponto de vista, outras equipas talvez pudessem explorar melhor a invulgar capacidade de Ederson. Veja-se o Manchester United, que é, claramente, a equipa cujo guarda-redes recorre mais aos pontapés longos (9,2 vezes por jogo), de entre os clubes de topo em Inglaterra. Não é difícil imaginar Mourinho a ensaiar algumas jogadas com Ederson a bater longo na frente com Fellaini como destinatário, por exemplo.
*Todos os dados estatísticos do artigo foram retirados do site WhoScored e são respeitantes apenas a jogos das ligas nacionais.