Saúl é expoente máximo de futebolistas que brilham ao mais alto nível após terem sido desaproveitados por clubes rivais
Saúl Ñíguez é já um dos maiores talentos do futebol espanhol na atualidade, afirmando-se também como um dos símbolos mais cintilantes do Atlético Madrid de Diego Simeone – recentemente foi blindado com um contrato de nove temporadas, até 2026. Contudo, poderia estar, agora, a despontar do outro lado da barricada, no rival Real Madrid, não tivesse deixado os merengues aos 12 anos. Uma dispensa complicada para o jovem jogador, mas que poderá ter despoletado, logo aí, uma das carreiras mais promissoras do futebol mundial. “Um momento negativo pode transformar-se, claramente, numa coisa extremamente positiva para um jogador; uma dispensa pode mesmo ser o clique que faltava para uma carreira”, defende Jorge Silvério, professor e especialista em questões de psicologia desportiva.
Até que ponto uma dispensa na juventude pode ser o principal catalisador para uma carreira de sucesso? Embora esta possa parecer uma “pergunta para um milhão de dólares”, recorrendo à psicologia é possível encontrar algumas respostas à questão. “De facto, muitas das vezes podem existir momentos determinantes e o facto de acontecer uma dispensa pode ser decisiva para o jogador, quer pela positiva como pela negativa. Tudo depende de como o jogador reage”, explica-nos o professor e doutor Jorge Silvério, que foi o primeiro mestre em psicologia do desporto em Portugal e que define os fatores “físicos, técnicos, táticos e psicológicos” como os quatro principais pilares para o rendimento de um jogador.
A mesma ideia é corroborada por Pedro Almeida, psicólogo desportivo que trabalha no Benfica há vários anos. “Um acontecimento negativo pode deixar uma marca”, começa por dizer ao Bancada. “Qualquer acontecimento na vida de uma pessoa pode provocar uma reação, porque interpretamos as coisas que nos acontecem e dessas interpretações resultam pensamentos e emoções. Guardar mágoa ou não guardar mágoa é a tal interpretação. Tem a ver com o sentido que o jogador dá àquilo que pensa, que sente ou que acontece na sua vida. Isso, sim, pode determinar outros acontecimentos seguintes, outros pensamentos ou sensações”, sublinha.
“Roubavam-me comida, as chuteiras…”, confessou Saúl, em fevereiro deste ano, em entrevista ao jornal espanhol “El Mundo”, prosseguindo depois com outros episódios “extradesportivos” ocorridos enquanto jogador da formação merengue e que na sua opinião “não deveriam ter sido vividos por um rapaz de 11 ou 12 anos”. “Colocaram-me de castigo, sem poder pisar Valdebebas [centro de estágio do Real Madrid] durante duas semanas, por algo que não fiz. Enviaram uma carta ao treinador e disseram que fui eu que a escrevi”, relembrou o, agora, internacional espanhol.
Depois de um caso destes, a reação de um jogador poderá passar por mostrar ao ex-clube o que ficou a perder. “O jogador pode reagir, como terá sido o caso do Saúl, e pensar: ‘ok, fui dispensado, então vou provar a estes tipos que estavam errados e vou fazer tudo o que está ao meu alcance para atingir um valor desportivo que me permita dizer que consigo lá chegar, mesmo depois de me terem dispensado’. Tudo depende da atitude com que o jogador encara a situação, mas ser dispensado pode mesmo ser o clique que faltava. Podem pensar para si mesmos que vão conseguir reagir à situação e dar a volta a isso”, exemplifica o professor Jorge Silvério.
Passaram dez anos e, desde então, Saúl conseguiu trilhar com brilho a escada para o sucesso, mas sem nunca esquecer as situações delicadas vividas no começo da carreira, ao serviço do Real Madrid, mesmo que tenha garantido não guardar rancor delas. “Desde pequeno que tinha muita confiança em mim. Quando saí do Real sabia que não era o fim do Mundo e que acabaria por jogar noutro lado qualquer. Não me magoou nada. Foi uma boa experiência porque ajudou-me a aprender muitas coisas e a amadurecer”, frisou o jovem natural de Elche, na mesma entrevista.
Um amadurecimento forçado, que tantas vezes falta a outros jovens promissores, que se acabam por perder, não conseguindo ultrapassar com sucesso as contrariedades que as exigências do futebol lhe apresentam. “Existem casos em que as expectativas de jogar e ser profissional naquele clube eram tão grandes que a dispensa pode ser vista como um sinal de que não se tem valor para continuar com a carreira, acabando o jogador por baixar os braços e seguir para clubes de menor valor desportivo – na maior parte destes casos os jogadores até acabam por desistir da carreira. Se optar por baixar os braços não vai permitir-se chegar longe”, salienta o professor Jorge Silvério.
O que poderá, então, ajudar a que um acontecimento negativo seja interpretado de forma positiva por um jovem? Para Pedro Almeida a resposta está na família e em todo o contexto em que o jogador está envolvido. “A capacidade que a pessoa tem de dar a volta à situação está relacionada com muitos detalhes, mas, sobretudo, com a capacidade de ter suporte social à sua volta que o ajude a lidar com o assunto. O que mais pode ajudar a que a resposta seja positiva é ter adultos de referência à volta que o ajudem a interpretar as coisas, o enquadrem e apoiem nessas fases. Particularmente os pais, mas também aqueles que em determinado momento são treinadores e vão estar mais próximo da situação”, elabora o psicólogo desportivo dos encarnados.
Foi na figura de Pepe Fernández, hoje um “amigo”, que Saúl encontrou a base de suporte nos anos que se seguiram à dispensa do Real Madrid. “Foi o meu treinador, uma pessoa que me ajudou nos momentos de fraqueza. Quando estava pior e a pensar no que fazer, chamou-me para ir para o Atlético Madrid, dizendo que ia cuidar de mim e que tudo iria ser diferente do que tinha vivido no Real. Viemos para o Atleti e vivemos grandes momentos juntos”, recordou o médio, de 22 anos, ao “El Mundo”.
Curiosamente, o caso de Manuel Fernandes, que não teve lugar no Sporting e rumou ao rival Benfica, até contraria o de Saúl. “O primeiro treinador no Benfica foi o Rui Rodrigues, mas também não ficou muito meu fã”, recorda ao Bancada. Acabou por ser José Morais, antigo adjunto de Mourinho, quem acreditou nas capacidades do médio. “Na altura fazia parte dos infantis e que quis ficar comigo. No entanto, não foi necessária essa ajuda, porque aconteceu quase tudo seguido. Saí do Sporting e na semana a seguir fui treinar ao Benfica. Não houve necessidade de passar por aquele processo de a família vir falar comigo a dizer que estava tudo bem”, assegura-nos.
“Na altura fiquei triste por não poder competir, mas não posso dizer que tenha levado isso a peito. Fiquei desapontado, mas não foi algo que possa dizer que me tenha afetado ou que tivesse influenciado aquilo que vim a fazer no Benfica. Se no Benfica tivesse acontecido o mesmo, talvez aí tivesse ficado afetado… Ia fazer oito anos, foi mais a desilusão do momento do que algo que levei comigo até chegar ao Benfica ou a profissional”, aponta Manuel Fernandes.
Jorge Silvério acredita que “a capacidade de enfrentar e lidar com situações difíceis” é o que separa os grandes jogadores dos outros. “Há jogadores que têm a tenacidade de transformar acontecimentos que à partida seriam negativos em positivos e isso acaba por ser o ponto fulcral para conseguir atingir uma carreira de grande nível. Claro que a técnica e o físico são importantes, mas a maneira como os jogadores reagem às contrariedades é extremamente importante. Uma carreira desportiva, até dos grandes jogadores, não é só feita de momentos bons”, assegura ao Bancada.
De Kane a Miguel Veloso, outros casos marcantes
O exemplo de Saúl não é único no mundo do futebol. Há até um caso inverso ao do médio do Atlético Madrid: Raúl foi uma das maiores estrelas da história do Real Madrid depois de ter começado por bilhar no… Atleti. No entanto, a medida do malogrado presidente “colchonero” Jesús Gil e Gil de reduzir com as despesas geradas pela formação acabou por “oferecer de bandeja” o jovem craque ao rival. Cerca de 20 anos depois, eis que surge a “vingança”, através de um jogador que representa melhor que ninguém o orgulho e a forma de viver “colchonera”, com Simeone a já ter dito publicamente que Saúl “pode chegar onde quiser”.
Harry Kane é outro caso que ainda hoje deve fazer corar os responsáveis rivais. Atualmente, o avançado inglês marca golos em catadupa no Tottenham, isto depois de o Arsenal o ter rejeitado com apenas oito anos. Já Marcus Rashford esteve à experiência no Manchester City aos nove anos sem ter sucesso. Dez anos depois é uma das estrelas de José Mourinho no ataque do Manchester United.
Luka Modric é outro exemplo, pois foi rejeitado pelo clube do coração, o Hajduk Split, na juventude, por ser demasiado pequeno e frágil, tornando-se depois num dos maiores produtos do rival Dínamo Zagreb. Imaginem ainda que Franco Baresi poderia não ser uma das maiores referências da história do Milan, caso tivesse sido aproveitado pelo rival Inter Milão na infância. Os “nerazzurri” duvidaram das qualidades físicas do defesa e pediram para ele voltar um ano depois, mas este rumou ao rival, onde acabou por ser fazer 719 jogos como profissional, entre 1977 e 1997, sendo ainda considerado o jogador do século do clube.
Situações destas também existem em Portugal. Por cá, não é raro um jogador trocar rivais na formação, depois de os seus serviços terem sido prescindidos. Mas nem todos têm o mesmo impacto dos casos de Miguel Veloso, André Gomes ou até Manuel Fernandes, por exemplo. Veloso chegou mesmo a abordar publicamente a saída do Benfica, depois de ter jogador pelo Sporting na Luz. “Não fui eu que me dispensei do Benfica”, defendeu-se na altura. “Em miúdos, por vezes, somos magrinhos e ao longo do tempo passamos a ser mais fortes. Comigo foi ao contrário, mas isso são águas passadas. Não guardo mágoas”, confessou Miguel Veloso, que foi dispensado pelo Benfica aos 13 anos, por ter peso e lentidão a mais, assinando pelos leões um ano depois, após ter representado o CAC Pontinha pelo meio.
Anos antes já havia acontecido algo semelhante, mas em direções opostas. No entanto, o caso de Manuel Fernandes foi bem diferente. “Fui ao Sporting fazer testes e tinha ficado”, lembra o internacional português ao Bancada. “Fiquei feliz porque se tratava de uma equipa forte, mas cerca de dois meses depois deram-me a notícia de que não podiam ter tantos estrangeiros. Não havia problema em ficar no plantel, mas ia jogar pouco porque um dos estrangeiros era mais velho. Como ia jogar pouco consideraram que o melhor era sair”, conta Manuel Fernandes, que na altura tinha apenas a nacionalidade cabo-verdiana.
O médio, de 31 anos, que atualmente representa os russos do Lokomotiv Moscovo, lembra-se que um dos estrangeiros em causa era Luís Pina. “Ainda joguei contra ele, mas depois dos infantis perdi-lhe o rasto”, confessa-nos. Algo que não aconteceu com Manuel Fernandes, que uma semana depois de deixar o Sporting foi fazer testes ao Benfica com sucesso. Volvidas oito épocas subiu à equipa principal, lançado por Camacho, e no ano seguinte, em 2004/05, tornou-se numa das figuras da equipa de Trapattoni que alcançou o título nacional.
Mais recentemente foi o campeão europeu André Gomes a passar por esse processo. Depois de se ter iniciado no FC Porto, que já admitiu ser o “clube de infância” e onde jogou várias temporadas, chegando a ser capitão de equipa, foi dispensado pelos dragões em 2008. Acabou por encontrar espaço nos juvenis do Boavista e bastaram dois anos para chamar a atenção do Benfica. Um ano nos juniores encarnados e mais um par de jogos na equipa B e o médio foi lançado na equipa principal das águias, onde despontou. Da Luz seguiu para Valência e agora representa o FC Barcelona.
Terá havido um erro de avaliação dos clubes que dispensaram os serviços dos jogadores? Ou as dispensas acabaram por ser mesmo decisivas na resposta dada perante as contrariedades encontradas? A imprevisibilidade da reação de cada pessoa às várias situações vividas ao longo da carreira acaba por tornar “impossível prever qual será a evolução de um jovem”. Algo que, na visão do professor e doutor Jorge Silvério, iliba os clubes que deixam sair os jogadores.
“Na altura a decisão é tomada em função de um conjunto de variáveis e é tomada porque os treinadores e responsáveis dos clubes acham que essa é a melhor decisão. Se soubessem que ia ser um grande jogador é claro que não dispensavam. Não se pode dizer que quem o dispensou no passado cometeu um grande erro, pois estamos a avaliar à posteriori. É uma análise contaminada porque já passou o tempo em que a decisão foi tomada, perante os dados que tinham na altura”, argumenta o mestrado e doutorado em psicologia desportiva.
Haverá então alguma forma de os clubes evitarem cometer estes erros que, por vezes, como no caso de Saúl, André Gomes, Miguel Veloso ou Manuel Fernandes, se revelam crassos, sobretudo em termos do rendimento desportivo e financeiro do qual não colheram frutos? As cláusulas de recompra, há muito utilizadas por Real Madrid, por exemplo, e atualmente também já usadas por clubes portugueses, poderá ser uma das soluções. “Os clubes vendem os jogadores, mas com uma cláusula de recompra, que permite ficar com prioridade ou contratar o jogador a um preço mais baixo. Isso é feito já a prever alguns desses casos”, conclui Jorge Silvério.