Da geração campeã mundial de juniores (1989 e 1991), 18 são hoje treinadores e há ainda quem siga o método queirosiano
Os heróis de Riade e Lisboa são hoje uma geração de treinadores quarentões que continua a aplicar alguns dos ensinamentos de Carlos Queiroz, o professor que os conduziu a dois títulos mundiais nas camadas jovens em 1989 e 1991. Liderança e organização, cultura de exigência, estudo exaustivo dos adversários, assim como a atenção às bolas paradas e a repetição de lances até à exaustão são alguns dos métodos queirosianos que os técnicos contatados por Bancada dizem seguir, ainda que ajustados ao tempo atual. Já lá vão quase 30 anos…
Paulo Alves, de 47 anos, campeão do mundo de Riade, e atual treinador do União da Madeira, aponta a capacidade de liderança e de organização de Carlos Queiroz como inspiradoras. “A forma como ele nos levou a ser campeões do mundo, como nos motivou e convenceu de que era possível chegar lá, é algo que procuro incutir nas minhas equipas”. A propósito de liderança, Paulo Alves refere um episódio marcante. “Ainda antes do Europeu de Sub-19, ele olhou para nós e disse-nos que íamos começar um processo que nos iria levar a ser campeões do mundo na Arábia Saudita. Era a liderança dele a manifestar-se e a confiança que tinha do título mundial”.
A capacidade de organização de Carlos Queiroz é outra das características do ‘professor’ referenciadas pelos treinadores contactados por Bancada. “Ele era implacável. Muito exigente com o cumprimento de horários e com a nossa conduta como homens. Ele exigia, por exemplo, que num estágio respeitássemos toda a gente, desde o gerente do hotel até ao simples empregado”, refere Bizarro, campeão do mundo em Riade e hoje treinador do SC Coimbrões, do Campeonato de Portugal Prio, que se revê nesta conduta. “Era como um pai para nós, havia uma cumplicidade muito grande entre todos nós”, recorda Jorge Costa, campeão mundial de Lisboa e ex-selecionador do Gabão. “Lembro-me que por dia havia, para além do capitão, sempre dois jogadores responsáveis por tudo o que tinha a ver com o dia-a-dia, controlavam os atrasos ao treino, ao hotel, ao autocarro”, recorda Paulo Alves.
A par da liderança e da organização, nas quais Paulo Alves se revê, e tenta aplicar nas equipas que treina, o treinador de 47 anos diz que hoje tenta colocar em prática algumas das situações de treino que Queiroz aplicava na altura, ainda que ajustadas ao tempo atual. “O futebol evoluiu, já passaram 30 anos, mas na altura foi ele quem inovou. Chegávamos aos treinos e encontrávamos tudo organizado, por sectores, e treinávamos até à exaustão. Ele treinava todos os comportamentos que tínhamos de adotar em determinada situação do jogo, tudo ao ínfimo pormenor”.
Rui Bento, campeão de Lisboa, e a treinar os sub-16 da Seleção Nacional, revê-se na metodologia de treino de Queiroz – “capaz de projetar de forma muito clara o desempenho de uma equipa no jogo” – e na forma do professor pensar o futebol. “Tem um trabalho feito na Faculdade nos anos 80, em conjunto com Jesualdo Ferreira, em que pensa o futebol já numa perspetiva diferente”.
José Bizarro, de 47 anos, que vai para a quinta temporada como treinador do SC Coimbrões, do Campeonato de Portugal Prio, destaca o trabalho de treino de bolas paradas a que Queiroz dedicava muito tempo. “Ainda hoje tenho vários exercícios que ele fazia. Cantos, livres, lançamentos laterais…Ele dava muito importância a isso e eu tento replicar”, diz aquele que foi o guarda-redes titular de Portugal na campanha do Mundial de Riade. “Muitas das coisas que Queiroz nos ensinou ajustam-se ao treino de hoje. Hoje como treinador percebo o aconteceu. Na altura, não tinha muita noção”, afirma Paulo Alves.
A este propósito, Bizarro conta um episódio caricato que sucedeu num dos treinos da seleção. “O Valido estava a treinar uma bola parada e, sem querer, acertou no professor de tal maneira que ele caiu e desmaiou. Parecia um pinheiro a cair [ri-se]. Ele estava no centro da área, a orientar a barreira. Só por aqui via-se o empenho dele”.
Bizarro retém ainda outra ideia-chave do ‘professor’ que procura seguir na carreira. “Ele dizia-nos que as equipas são todas iguais, são todas difíceis. Para ele jogar com Malta ou Brasil era a mesma coisa. Este respeito pelo adversário, a necessidade de estudá-lo ao pormenor aliado a um espírito competitivo permanente, tento aplicá-lo nas minhas equipas”.
Jorge Costa, de 45 anos, e com dois títulos na carreira (uma liga romena ao serviço do CFR Cluj e campeão da II Liga portuguesa pelo Olhanense) também destaca os métodos de treino de Queiroz “muito avançados para a época” e a forma como “estava sempre atento aos pormenores, com questões como o posicionamento defensivo e ofensivo”, recorda, referindo que são situações que hoje fazem parte do seu léxico de treino. “Foi o primeiro grande treinador que tive, e marcou-me para sempre. Muitas das coisas que hoje faço aprendi com ele, apesar de o futebol ter evoluído e nós treinadores também”, diz Jorge Costa.
Paulo Sousa, o mais bem sucedido
Dos 18 campeões do mundo de sub-19 em 1989, 10 são ou já foram treinadores de futebol. E no grupo que se sagrou campeão do mundo em 1991, em Lisboa, 8 estão no ativo como técnicos. Uns no estrangeiro, ao serviço de clubes e seleções, outros nas camadas jovens da seleção nacional, e outros ainda em clubes nacionais. É possível traçar pontos convergentes com o percurso de Carlos Queiroz, como as experiências no estrangeiro, passagens pela seleção nacional e seleções estrangeiras, e a permanência curta nos clubes.
À cabeça dos mais bem sucedidos no que a títulos diz respeito, está Paulo Sousa, de 46 anos, campeão de Riade, com vários títulos conquistados em equipas estrangeiras. Hélio Sousa tem no currículo um recente título de campeão da Europa sub-17 e Jorge Costa conquistou uma Liga romena. A nível nacional, Paulo Alves tem um título de campeão da II Liga pelo Gil Vicente, título que Jorge Costa também conquistou ao serviço do Olhanense. Nas camadas jovens dos clubes, António Folha foi bicampeão de juniores pelo FC Porto e Nuno Capucho campeão dos sub-17 do FC Porto.
A carreira fulminante de Paulo Sousa era impossível de prever naquela altura. “Éramos muitos jovens. Pensávamos noutras coisas [ri-se]. No meu caso, só aos 27/28 anos é que comecei a interiorizar que poderia vir a ser treinador”. Aliás, para Bizarro daquele grupo de Riade havia um jogador, esse sim, que dava todo o ar de que poderia vir a ser treinador. “O Paulo Alves. Era uma pessoa mais séria. Já com um bom uso da palavra. Sentia-se que poderia vir a ser treinador”. Paulo Alves conta que Paulo Sousa “tinha uma personalidade muito forte, alguém que já tinha as suas ideias vincadas”.
Os 10 ‘treinadores’ de Riade
José Bizarro (47 anos) – Treinador do SC Coimbrões, da Liga Pro, nas últimas quatro temporadas. Antes orientou equipas do terceiro escalão como Amares, CF Caniçal, Sertanense, Mafra e U. Leiria.
Brassard (45 anos) – Treinador dos guarda-redes dos sub-21, está na seleção desde 2004 integrando a equipa principal entre 2004 e 2007.
Pedro Valido (47 anos) – Treinador-adjunto dos sub-19 do Benfica.
Hélio Sousa (47 anos) – Atual selecionador dos sub-19, sagrou-se campeão europeu ao serviço dos sub-17, em 2016. Está nas seleções jovens desde 2010.
Paulo Sousa (46 anos) – Treinou nas duas últimas temporadas a Fiorentina, de onde saíu no final desta época sem grande sucesso mas tem para trás uma carreira recheada de títulos: uma liga suíça (FC Basel), uma liga e uma taça de Israel (Maccabi Tel Aviv), uma taça da liga húngara e duas supertaças da Hungria (Videoton). Isto para além de passagens no Queens Park Rangers, Swansea City e Leicester City. Começou a carreira de treinador nos sub-16 de Portugal onde esteve entre 2005 e 2008 para depois encetar um percurso fulgurante no estrangeiro.
Filipe Ramos (47 anos) – Selecionador dos sub-18. Nas seleções desde 2011. Antes, orientou o Mafra e Real Massamá.
Jorge Amaral (47 anos) – Está retirado, mas treinou equipas como Seixal FC, Peniche, foi adjunto no Estoril (2006/07), Fabril Barreiro, Peniche, Real, Pescadores e sub-17 do Atlético.
António Folha (46 anos) – Atual treinador da equipa B do FC Porto. Estreou-se como adjunto no Penafiel com Luís Castro, em 2005/06, tendo sido adjunto de Rui Bento nessa mesma época. Tem todo um percurso nas camadas jovens do FC Porto onde foi adjunto, de novo, de Luís Castro e depois técnico principal dos juniores onde se sagrou campeão nacional por duas vezes (14/15 e 15/16).
Jorge Couto (46 anos) – Treinador-adjunto do Boavista desde 2015/16.
Paulo Alves (47 anos) – Atual treinador do União da Madeira. Estreou-se no Gil Vicente na I Liga em 2005/06 onde ficou mais uma época. Seguiram-se U. Leiria, Vizela, Portugal sub-20, Gil Vicente, Olhanense, Beira-Mar, Nassaji Mazandaran (Irão) e Penafiel. Tem um título de campeão da II Liga com o Gil Vicente, em 2010/11.
Os 8 ‘treinadores’ de Lisboa
Jorge Costa (45 anos) – Ex-selecionador do Gabão, começou a carreira de treinador como adjunto no SC Braga de Carvalhal (06/07). Nesse mesmo ano sobe a técnico principal substituindo Rogério Gonçalves. Fica em Braga até meio da época de 2007/08 e na época seguinte vai para o Olhanense onde em 08/09 é campeão da II Liga. Em 2010/11 orienta a Académica onde só faz quatro jogos. Segue-se a aventura no estrangeiro onde se sagra campeão na Liga romena ao serviço do CFRC Cluj (11/12). Seguem-se o AEL Limassol e Anorthosis (Chipre), volta a Portugal para treinar o Paços de Ferreira mas só faz 12 jogos e regressa ao estrangeiro para assumir a Seleção do Gabão onde fica de 2014 a 2016 antes de orientar um jogo do Cs Sfaxien (Tunísia), acabando por sair alegando motivos pessoais.
Rui Bento (45 anos) – Treina os sub-16 de Portugal. Começou no AC Viseu (2004/05), na II B, seguindo-se Barreirense, Penafiel e Boavista, estes dois últimos na II Liga. Em 2010, entra com outros campeões de Riade e Lisboa na FPF, mas no ano seguinte volta aos clubes para treinar o Beira-Mar na I Liga. Segue-se o estrangeiro: Al-Ahli Jeddah (sub-23 da Arábia Saudita), Bangkok United (Tailândia). Em 2015/16, regressa ao futebol português para treinar o Tondela mas sai a meio da época, voltando aos quadros da FPF.
Paulo Torres (45 anos) – Começou a treinar no Peniche (03/04) seguindo-se Fátima, Barreirense, Bombarralense, UD Rio Maior, Torreense, At. Reguengos antes de iniciar a aventura no estrangeiro em 2014: Sp. Bissau, seleção da Guiné-Bissau e, desde 2017, Interclube de Angola.
Peixe (44 anos) – Treinou sempre nas seleções mais jovens de Poertugal, desde 2008. Percorreu todos os escalões, alternando entre adjunto e técnico principal. Esteve recentemente à frente da seleção dos sub-20 no Mundial da Coreia do Sul, eliminada nos quartos de final pelo Uruguai.
Abel Xavier (44 anos) – Selecionador de Moçambique desde 2016. Antes treinou Olhanense (12/13 e 13/14), Farense (14/15) e Desportivo das Aves (15/16).
Nuno Capucho (45 anos) – Inicia a carreira de treinador no FC Porto, nos sub-15, como adjunto de João Brandão, em 07/08, seguindo-se os sub-17 também como adjunto, de José Semedo (08/09) e do holandês Patrick Greveraars (09/10). Assina em 10/11 como técnico principal dos sub-17 e é campeão na época seguinte. Em 2012/13 assume os juniores do FC Porto e em 2014/15 torna-se adjunto de Luís Castro no FC Porto B. Segue-se a estreia nos campeonatos profissionais, no Varzim, na II Liga e na última época chega à I Liga para treinar o Rio Ave, de onde sai à 14ª jornada.
Tulipa (44 anos) –Sem clube desde 2015. Iniciou-se em 05/06 como adjunto na Ovarense, na II Liga, substituindo depois Manuel Correia. Seguiram-se o GD Ribeirão (3º escalão), Estoril (II Liga), Trofense, 08/09, I Liga), Chaves (II Liga), Sp. Covilhã (II Liga) e GD Ribeirão (3º escalão).
Tó Ferreira (45 anos) – Treinador de guarda-redes sem clube. Antes passagens por Arouca (12/13), Moreirense (13/14), Beira-Mar (14/15) e Gil Vicente (15/16 e 16/17).
https://playbuffer.com/watch_video.php?v=GA9GUR7RSNAB
Portugal,2-Nigéria,0 (golos de Abel Silva e Jorge Couto) – Final do Mundial de sub-19
https://playbuffer.com/watch_video.php?v=72UHU6AHYD92
Portugal,0-Brasil,0 (4-2, gp) – Final do Mundial de sub-20