Tarantini alertou para um problema que existe entre os ex-jogadores, mas há quem tenha encontrado saída alternativa
“Mais de 90 por cento dos jogadores profissionais vão ter de continuar a trabalhar após o futebol.” Foi esta a premissa que levou Tarantini, médio do Rio Ave, a lançar um projeto que aborda uma temática muito pouco abordada: a problemática da gestão das carreiras de alta competição e o que fazem os jogadores após se retirarem dos relvados. O mercado é “muito competitivo” e faz com que muitos deles entrem em falência e passem por dificuldades. Outros seguem ligados ao futebol, porque “é o caminho mais fácil”, dizem. E há quem antecipe cenários e procure alternativas “fora da caixa”, como produzir framboesas, por exemplo.
Luís Filipe e Cláudio são dois exemplos de jogadores que passaram pelos relvados nacionais na última década e que não fazem parte dos exemplos negativos que levaram o médio do Rio Ave a lançar o projeto “A Minha Causa”. São exceções à regra. Tudo porque pensaram antecipadamente naquilo que iriam fazer quando deixassem os relvados. Um continua ligado ao futebol, embora atualmente a desempenhar funções mais relacionadas com a comunicação e marketing. O outro destaca-se na agricultura. “A carreira de futebolista é curta e não pode passar pela cabeça de um jogador não fazer nada a seguir a deixar os relvados. A percentagem de jogadores que o pode fazer é muito diminuta. Todos os outros terão de deixar o futebol e ir trabalhar noutra área”, sintetiza ao Bancada o antigo jogador do Benfica, Sporting e SC Braga.
“Cada vez a coisas se tornam mais difíceis, porque o mercado é complicado e a competitividade é muito grande. Olhamos para a classe de treinadores e há tanta gente com curso e sem trabalhar”, frisa Tozé, antigo jogador do Benfica, que, aos 60 anos, é delegado do Sindicato de Jogadores, função que exerce há 22 anos, após ter arrumado as chuteiras. Por sua vez, Cláudio recebeu um convite do FC Vizela, clube que representou durante várias épocas e onde terminou a carreira, para trabalhar a ligação do emblema nortenho com os adeptos. “Nunca tinha tido experiência nesta área. É a primeira vez que estou a trabalhar com marketing e comunicação, mas estou a gostar muito”, garante-nos.
O essencial, nestes casos, foi estar preparado para o passo seguinte. “O futebol é uma profissão como outra qualquer e quando deixas de jogar tens de procurar trabalho noutra área qualquer. Muitos ficam dentro do futebol porque é o caminho mais fácil e aquilo que conhecem. Foi aquilo que sempre viveram e, sem dúvida, que é uma mais-valia. Mas há outros que vão por outros caminhos porque surgem outras oportunidades. Acima de tudo, é essencial que o jogador pense que termina a carreira e tem de ir trabalhar. É impensável não acontecer isso. No meu caso, sabia de ante mão que era isso que ia acontecer”, assegura Luís Filipe.
“O mais importante, às vezes, é antes de deixarmos de jogar irmos preparando o futuro. Fiz alguns cursos de treinador, observador e dirigente desportivo. Procurei trabalhar essa área, para quando chegasse ao final da carreira ter um leque vasto de escolha. É importante sentir-me capacitado para fazer qualquer coisa no futebol. Quando acabei a carreira estava certo que queria ficar ligado ao futebol. Antes de terminar procurei fazer alguns projetos, mas tive a felicidade de encontrar um lugar no Vizela, que é a cidade onde vivo com a minha família e onde joguei durante muitos anos. Está a ser uma experiência muito boa”, explica o antigo central goleador que se destacou na Primeira Liga pelo Gil Vicente.
Luís Filipe, o autor do primeiro golo do Estádio de Alvalade, revela que foi a vontade de ficar no Algarve que falou mais alto, acabando por optar por enveredar por outros caminhos. “O projeto já estava a ser pensado no último ano em que joguei. Não sabia se seria o último ano a jogar, mas queria manter-me no sítio onde estava. Comecei a pensar em coisas que poderia fazer estando aqui. Curiosamente, através de amigos que trabalhavam nesta área, acabei por enveredar por esta atividade. Antes de começar fui ver muitos produtores de framboesa. Fiz planos de negócios e uma série de coisas e a partir do momento que vi viabilidade avancei. Ter disponibilidade financeira também ajudou para avançar com um negócio próprio”, admite o jogador que se retirou dos relvados em 2014, após três épocas ao serviço do Olhanense.
“Terminei a carreira porque achava que já era altura, não tinha uma proposta que me satisfizesse e já tinha este projeto. Não senti aquela dificuldade em deixar de jogar. Foi uma passagem rápida e natural de uma coisa para a outra. Como qualquer projeto este também carecia de muitas horas de atenção e absorveu-me algum tempo. Não queria sentir que andava para aí a jogar só pelo simples facto de ter prazer. Tive prazer no que fiz, mas também tenho de ir ao encontro das minhas necessidades e da minha família. Provavelmente, se não tivesse isto teria tentado jogar mais um ano ou dois, mas foi este projeto que me fez parar”, confessa o antigo jogador, campeão por águias e leões.

Atualmente, com 38 anos, e com um negócio próprio que já leva mais de três, Luís Filipe admite que a decisão tomada em relação ao futuro era algo que não imaginava fazer quando era mais novo. “Se era isto que há uns anos pensava que ia fazer? Não. Tem muito a ver com a altura em que estamos a terminar a carreira. Ao longo dos anos as coisas vão sendo diferentes e muitas vezes somos influenciados pela altura em que acabamos. São coisas que têm de ser pensadas. No meu caso surgiu por acaso, porque conheci pessoas na área e queria continuar a viver aqui no Algarve e aproveitar as condições que este sítio me oferecia”, assegura-nos Luís Filipe.
“Mesmo durante a carreira nunca ponderei, nem pensei em ser treinador. Logo à partida estava posto de parte continuar no futebol. Só noutro cargo. No entanto, querendo continuar aqui no Algarve, infelizmente não há tantos clubes num patamar superior. O que o Algarve tem de bom é o clima e para esta cultura da framboesa isso é ideal, por isso juntei o útil ao agradável. Quis dar estabilidade à família, que durante a minha carreira andou sempre de um lado para o outro atrás de mim”, justifica o antigo internacional B português.
Já Cláudio afirma que a vontade sempre passou por ficar ligado ao desporto rei. “Como estou ligado ao futebol, acabo por gostar, dentro de toda a estrutura, de tudo o que envolve o futebol, independentemente da função. Logicamente, que estamos mais capacitados para uma ou outra coisa. Mas comigo foi diferente porque assim que terminei a carreira tive o convite do presidente do clube. Já na primeira vez quando me abordou para assinar tinha falado dessa possibilidade para quando me retirasse. Conheço bem a cidade e como joguei muitos anos no Vizela era do interesse deles manterem-me ligado ao clube. Essa vontade foi passada aos novos elementos que entraram para a SAD e o convite foi feito por eles”, recorda-nos o ex-jogador, de 40 anos, natural do Rio de Janeiro.
No caso específico de Tozé as coisas passaram-se de uma forma um pouco diferente. “Na altura tinha uma microempresa com os meus irmãos, de máquinas de lavar roupa e louça. Deixei de jogar, ainda tirei alguns cursos de vendas, mas não deu certo. O projeto com os meus irmãos também não estava a correr muito bem e surgiu o convite do [José] Couceiro, que tinha sido meu colega e era presidente do Sindicato. Modéstia à parte, ele conhecia as minhas qualidades em termos sociais”, aponta o delegado do Sindicato de Jogadores, que ao longo da carreira também representou clubes como o Leixões, Marítimo, Atlético e Académica.
Trabalhar no relvado era mais fácil
Apesar da exigência que envolve ser jogador de futebol ao mais alto nível, as novas funções exigem mais responsabilidade do que quando estava tudo dependente das chuteiras. “Não diria que é mais fácil que ser jogador, mas quando fazes por gosto não olhas para essas coisas. Valorizo muito poder estar a trabalhar no futebol, onde sempre estive envolvido. Posso contactar com os jogadores no dia a dia e isso é muito gratificante. No início só via o que os outros faziam. Mas está a ser uma experiência muito boa. É preciso elaborar algumas ideias e tenho feito bastantes coisas a nível de vídeo e publicidade. Tenho também o meu filho que me ajuda, por vezes, em casa com a edição dos vídeos. Trocamos ideias e opiniões para saber se as ideias funcionam”, conta-nos Cláudio.
“Como qualquer outro negócio o risco é enorme. Por conta de outrem o risco é minimizado, fazemos o nosso trabalho, tentamos dar o nosso melhor, mas quer corra bem ou corra mal temos o nosso salário ao fim do mês. Sendo um negócio próprio, o pensamento já é outro. Se alguma coisa corre mal sai do nosso bolso. A visão é diferente e as preocupações são outras”, analisa Luís Filipe.
No entanto, Tozé admite que a experiência que adquiriu enquanto jogador lhe facilitou o futuro enquanto delegado sindical. “Isto é um trabalho em que temos de falar e relacionar muito bem com as pessoas. Houve esse convite e integrei o Sindicato como delegado sindical, que é aquilo que ainda hoje sou. Dentro do contexto tornou-se muito mais fácil esta atividade, porque tinha sido praticante, conhecia muitos jogadores, o que para este género de trabalho é muito importante. É isso que tem vindo a acontecer sempre com o sindicato, que tem colocado ex-jogadores como delegados”, lembra.
Cláudio também tem na comunicação uma das vias de sucesso do seu novo posto, sobretudo no que diz respeito às redes sociais. “Faço vídeos a promover os jogos. Já estou na cidade há 15 anos e já tenho intimidade com as pessoas, por isso tento pensar em coisas que sei que lhes vai agradar. Há muita interação nos vídeos, têm muitas visualizações e comentários. Quando colocas as ideias na prática e elas dão resultado começas a ter ainda mais gosto em trabalhar nisso. A melhor sensação é ver as pessoas satisfeitas com os resultados e dá ânimo para fazer mais. Esta área é muito importante. Quando promoves um jogo e depois vês o resultado disso nas bancadas, o jogador vai sentir que as pessoas estão a ir e a apoiar”, descreve o antigo central.
Estes são só alguns exemplos de antigos jogadores que conseguem dar um futuro à carreira numa altura tão competitiva e em que muito sentem dificuldade em fugir aos números estatísticos apresentados por Tarantini. “Naquela altura penso que existiam mais oportunidades em termos de mercado de trabalho, mesmo que não fosse para o futebol. Hoje, mesmo estando habilitado, é mais complicado. Naquela altura havia mais facilidade em ter um trabalho, mesmo que fosse extra futebol”, corrobora Tozé, que se retirou dos relvados no início dos anos 90.
Apesar das dificuldades serem maiores, atualmente os jogadores também começam a ter mais noção deste tipo de problemática que poderão ter de enfrentar no pós-carreira futebolística. Tozé admite isso mesmo e frisa que esse também foi um dos méritos do trabalho desenvolvido pelo Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol ao longo dos anos. “Tem tudo que ver com o facto de o Sindicato ter crescido. Hoje é uma instituição com bastante credibilidade, com assento em vários órgãos na Europa, incluindo a FIFA. Antigamente não havia a estrutura que há agora. Também por muito mérito do doutor [Joaquim] Evangelista”, remata.