Prolongamento
Amoreirinha: a porrada “para matar”, o Benfica e o distrital
2018-03-06 21:00:00
Campeão pelo Benfica com fim de carreira no distrital.

Eurípedes Daniel Adão, um campeão pelo Benfica. Soa mal, não soa? Chamemos-lhe pelo apelido, que fica logo a parecer jogador. Amoreirinha é um central que esteve muitos anos na primeira divisão e que decidiu terminar a carreira no futebol distrital, jogando no Sampedrense. Amoreirinha é um central que prometeu muito, mas ficou abaixo do que se esperou. 

Amoreirinha é um central que, um dia não percebeu bem o que José Couceiro queria dizer com “mata, mata, mata”. Mas já lá vamos.

“Não gosto de arranjar desculpas”

Antes, apresentamos-lhe o craque humilde. À conversa com o Bancada, Amoreirinha não nos deixou dúvidas: a humildade, bem como a simpatia, são traços incontornáveis da personalidade do ribatejano. É que estamos a falar de um campeão pelo Benfica, em 2004/05, de um internacional sub-21 e de alguém que fez, por exemplo, um hat-trick no Torneio de Toulon. Tenha calma e não se deixe enganar: o homem era defesa... fez um hat-trick, mas de participações! Amoreirinha era um craque, mas, apesar dos muitos anos de primeira divisão, parece ter ficado aquém das expectativas.

Quisemos saber se o outrora rapazola de Vila Franca de Xira sente que as lesões foram um entrave à sua carreira (só por três vezes fez mais de 30 jogos numa temporada). “Não gosto de arranjar desculpas. Não fiz a carreira que desejava porque, se calhar, em alguns momentos, também falhei. Tenho de reconhecer isso e fazer mea culpa”, reconhece, humildemente, antes de assumir: “Sim, acabo a carreira com o sentimento de que que poderia ter feito um pouco mais. Orgulho-me da carreira que fiz, mas fica essa sensação”.

Temos o reconhecimento de que poderia ter ido longe e a garantia de não arranja desculpas. Sendo assim, o que falhou? “Algumas más opções, sobretudo nas escolhas dos clubes. Recordo-me de uma ida para a Roménia que, se fosse hoje, se calhar não teria ido. Mas atenção: não se trata de arrependimento, porque, na altura, tomei as decisões em consciência”, alerta, ao Bancada.

FC Porto estava de olho. E Amoreirinha poderia ter imitado Álvaro Pereira

António Cotrim/Lusa

Formado no Alverca, Amoreirinha foi contratado pelo Benfica, em 2004, numa altura em que, dizia-se, tinha o FC Porto interessado em “lançar-lhe o isco”. Não foram os dragões a pescar aquele peixe ribatejano, mas sim o Benfica, clube pelo qual Amoreirinha fez apenas onze jogos. Porquê?

“Na altura, as coisas até começaram bem. A pré-época foi boa e os primeiros jogos também. Mas depois deixei de ser opção. As coisas foram como foram”, recorda, acrescentando que não considera que, se fosse hoje – com o Benfica mais predisposto a apostar em jovens –, teria tido mais oportunidades: “Não sei. Não é comparável”.

O certo é que, apesar dos parcos onze jogos, Amoreirinha esteve no sítio certo, no ano certo. O Benfica foi campeão, com Trappatoni, e isso ninguém tira ao central.

E foi quando chegou ao Benfica que Amoreirinha sentiu que poderia chegar a outros voos: “Na altura em que cheguei ao Benfica, achei que, com trabalho, poderia ter dado para ser internacional A”. Isto – o não ter chegado à seleção principal – é o grande sonho que, diz-nos Amoreirinha, ficou por cumprir no futebol. Mas a saída do Benfica não fechou essa porta. “Fui emprestado ao Estrela da Amadora e, depois, fui para o Cluj, da Roménia. Era um clube com alguma projeção e eu achava que, jogando com regularidade, apesar de ser um campeonato secundário na Europa, poderia ajudar-me a conseguir voltar para um grande clube. O Álvaro Pereira, por exemplo, saiu do Cluj para o FC Porto”.

“Olha lá, aquele gajo não era aquele central do Benfica?”

Alverca, Benfica, Estoril, Estrela, Cluj, Uta Arad, Académica, Vitória de Setúbal, Benfica de Castelo Branco, Santa Clara e Penafiel. Depois desta longa jornada, Amoreirinha sentiu o país real. Sentiu que, aos 31 anos, merecia propostas melhores do que as que teve. “Até tive alguns convites para a II Liga, mas recusei. Financeiramente não foram atrativos. Não fazia sentido, já com a minha idade, aceitar aquilo que me foi proposto”.

Vamos, então, acabar para o futebol profissional, pensou Amoreirinha. De São Pedro do Sul, em Viseu, surgiu o convite do Sampedrense, do distrital. “Foi difícil aceitar porque, a partir do momento em que decidi vir para aqui, abdiquei do futebol. Abdiquei no sentido em que sabia que não voltaria a ser profissional e mentalizado de que o futebol passaria para segundo plano”.

Facebook/Sampedrense

Pausa na história. Imagine que é domingo à tarde e vai ver o jogo do clube da sua terra. No aquecimento, está lá um rapaz que lhe diz qualquer coisa. “Olha lá, aquele gajo do sinal na testa não era central do Benfica? Aquele que andou pelo Estrela, pela Académica e pelo Vitória de Setúbal”. “É ele, é. É o Amoreirinha”. Este diálogo pode, certamente, ser ouvido em qualquer campo da Divisão de Honra dos distritais de Viseu.

Mas nada disto, para Amoreirinha, representa um tratamento diferente. “Não sinto tratamento diferente e não me sinto beneficiado nem prejudicado. Sinto reconhecimento, isso sim. Não me julgo mais do que ninguém só porque fiz a carreira que fiz”. Pois é, outra vez a tal história da humildade.

“Porra, miúdo! Mata não é o jogador, é a jogada”

Antes da história do “mata, mata”, desafiámos Amoreirinha para uma série de questões rápidas.

- Melhor treinador que teve: André Villas-Boas
- Melhor jogador com quem jogou: Simão Sabrosa. Ups, esperem lá. Mais tarde, veio a correção: “É o Cristiano Ronaldo! Disse Simão porque estava a pensar só no tempo do Benfica”.
- Adversário mais difícil de marcar: Jackson Martínez
- Melhor momento da carreira: Título nacional pelo Benfica
- Pior momento da carreira: Descida de divisão pelo Alverca

Vamos lá à historinha prometida. Pedimos a Amoreirinha que nos contasse uma história curiosa, que seja novidade para o público. “Vou contar uma que até nem conto muitas vezes”, começa por informar, antes de disparar: “É uma história gira. Num jogo no Alverca, estava eu a começar a carreira, há um contra-ataque contra o Alverca, junto ao nosso banco, e o mister José Couceiro grita “mata, mata, mata”, para eu matar a jogada. Mata mata? Eu sempre fui um jogador impetuoso e lá fui eu dar uma porrada no adversário. O árbitro chega, dá amarelo e o Couceiro grita: “Porra, miúdo! Mata não é o jogador, é a jogada!”