O penálti é o castigo máximo num jogo de futebol e, como tal, um permanente foco de tensão. Mas sabe como surgiu a grande penalidade?
Na verdade, a ideia do penálti foi recebida com absoluto desprezo quando foi proposta pela primeira vez. Se o futebol era um “desporto para cavalheiros”, a mera sugestão de uma grande penalidade para castigar uma falta intencional no sentido de evitar um golo foi considerada um “insulto moral”
No entanto, um escândalo em 1891, durante uma partida a contar para a Taça de Inglaterra, forçou a implementação do castigo máximo.
Recuemos, então, até ao final do século XIX para conhecer a origem do penálti.
Castigo máximo ou “afronta” ao futebol?
Na era vitoriana, o futebol britânico era um “desporto de cavalheiros”. E, como tal, era impensável que um jogador cometesse batota (ou seja, uma falta intencional) para evitar um golo.
Porém, a modalidade caminhava para a profissionalização, aumentando a pressão dos resultados.
E a verdade é que William McCrum, um guarda-redes amador do Milford Football Club e herdeiro de uma fortuna no setor têxtil na Irlanda do Norte, se apercebeu que as faltas deliberadas sobre a linha de golo eram recorrentes. E com tendência para aumentarem.
Em junho de 1890, o guarda-redes do Milford apresentou uma sugestão polémica à Associação de Futebol da Irlanda do Norte. Se um jogador cometesse falta a menos de 11 metros da baliza, o adversário teria direito a um remate livre e sem barreira.
Ora, a ideia um “cavalheiro” cometer batota para travar um golo mereceu imediato repúdio geral. Os dirigentes de clubes, a imprensa e a elite aristocrática ridicularizaram a proposta da grande penalidade.
Aliás, era um “insulto moral” considerar uma punição tão severa num “jogo de cavalheiros”. Como tal, a International Football Association Board (IFAB), o organismo que define e regulamenta as regras do futebol, guardou a proposta de William McCrum numa gaveta.
O escândalo na Taça de Inglaterra que levou à criação do penálti
Contudo, o aumento das faltas deliberadas para evitar golo era uma realidade incontornável. E, em 1891, aconteceu um escândalo que abalou o dogma do fair-play no “jogo de cavalheiros”.
A 14 de fevereiro, o Notts County recebeu o Stoke City para os quartos de final da FA Cup, a Taça de Inglaterra.
Com o resultado de 1 a 0 para a equipa da casa a minutos do fim, o Stoke fez um remate com “selo de golo”. Então, um jogador do Notts saltou e bloqueou o remate com as duas mãos, em cima da linha de golo.
De acordo com as regras da altura, o Stoke beneficiou de um livre indireto no local da infração, ou seja, junto à linha de golo. Portanto, toda a equipa do Notts se posicionou em cima da linha.
Como era previsível, o livre bateu na muralha defensiva e o Notts avançou para as meias-finais da Taça graças à batota de um “cavalheiro”.
O escândalo foi tão grande que a IFAB demorou apenas quatro meses para tirar a proposta da grande penalidade da gaveta. Não dava mais para adiar a criação do penálti.
O que aconteceu a quem criou o penálti?
Ora, e o que aconteceu a William McCrum, o guarda-redes amador que criou a grande penalidade?
O jogador do Milford ajudou a modernizar o futebol, mas morreu sem o devido reconhecimento.
Incapaz de gerir os negócios da família, William McCrum perdeu a herança e acabou por morrer num quarto de aluguer em Armagh, em 1932.
Apesar do fim trágico do seu criador, o penálti permanece como um dos pilares do futebol moderno: o duelo solitário a 11 metros da baliza que provou que a paixão do jogo não subsiste sem a rigidez da regra.
