Prolongamento
“A justiça que pôs Rui Pinto na cadeia é a mesma que deixa Vieira em casa"
2021-07-11 20:15:00
Antigo inspetor da Polícia Judiciária, Carlos Anjos, concorda com tweet do fundador do Football Leaks

O antigo investigador da Polícia Judiciária, Carlos Anjos, concorda com a ideia transmitida por Rui Pinto, ontem, depois de tornadas públicas as medidas de caução a Luís Filipe Vieira, que ficará em liberdade, após pagamento de três milhões de euros, por decisão do juiz Carlos Alexandre.

Rui Pinto falou em "benesses" concedidas ao autossuspenso presidente do Benfica e alargou esse raciocínio a Joe Berardo, que também ficou sujeito a medida semelhante. "Perigos de fuga, de continuação da atividade criminosa e de perturbação do inquérito, mitigados com uma caução milionária. Arguidos com tostões na conta bancária, e sem contas offshore, não têm essa benesse", escreveu o fundador da plataforma Football Leaks.

Carlos Anjos compreende esta ideia e concorda com a mesma. "Rui Pinto tem razão, no tweet que escreve. Ele esteve um ano em prisão preventiva e não consta que tenha offshores e muito menos milhões nessas offshores", disse o inspetor da Polícia Judiciária, em declarações na CMTV.

Acresce que Rui Pinto "deu o exemplo dele, por oposição com os casos de Luís Filipe Vieira e de Joe Berardo", por exemplo. "A justiça que mandou Rui Pinto para a cadeia, durante um ano, preventivamente, é a mesma justiça que deixa Vieira e Berardo em casa, sob cauções milionárias", assinala Carlos Anjos.

"Nesse aspeto, ao dizer que quem tem dinheiro pode ficar em casa com uma caução e quem não tem vai para a cadeia, Rui Pinto não está a invocar o caso do senhor ‘a’ ou do senhor ‘b’. Está a invocar a sua experiência. Está a falar na primeira pessoa", complementa o antigo investigador. 

Outra diferença entre os casos reside na pulseira eletrónica: Rui Pinto foi sujeito a esse tipo de vigilância, quando viu a medida de coação ser alterada para prisão domiciliária, ao contrário de Luís Filipe Vieira e de Joe Berardo. Mas aqui Carlos Anjos não confere razão a quem critique a ausência dessa vigilância eletrónica.

"O que levou Luís Filipe Vieira a ficar em prisão domiciliária sem controlo de pulseira eletrónica não é caso virgem. E muito menos diria que Vieira é a única pessoa em Portugal que está nessas circunstâncias. As pulseiras eletrónicas têm menos de 10 anos e a prisão domiciliária existe no nosso Código Penal há muitos e muitos anos. Sempre houve prisões domiciliárias, controladas pela autoridade de polícia criminal mais próxima, e não por pulseira eletrónica", explica o inspetor. 

“Se quiserem que eu seja um pouco mauzinho, é mais fácil prender quem está sem pulseira eletrónica e sob controlo da polícia. Quem está sem pulseira eletrónica tem sempre a tentação de ir tomar um café, ou comprar o jornal, acreditando que a polícia não passa naquele momento. Se a polícia o quiser prender, monta uma vigilância à espera que ele ponha um pé fora de casa, para o prender por desrespeito da prisão domiciliária", encena Carlos Anjos, num cenário hipotético.

"O juiz Carlos Alexandre acha que a prisão domiciliária deve ser controlada pelas polícias, porque quando é controlada por pulseira eletrónica constitui um encargo muito grande para o Estado. É normal que as prisões domiciliárias decretadas por aquele juiz não sejam controladas por pulseira", assinala.

No âmbito do processo ‘Cartão Vermelho’, Luís Filipe Vieira está obrigado a permanecer em casa até à prestação de uma caução de três milhões de euros no prazo de 20 dias. Está também proibido de sair do país, com a entrega do passaporte no prazo de 10 dias, e de contactar com os outros arguidos do processo, à exceção do filho, Tiago Vieira. 

Luís Filipe Vieira também não pode contactar com Nuno Sérgio Durães Lopes, António Rodrigues de Sá e Dantas de Machado (colaboradores de Bruno Macedo), José Gouveia e Diogo Chalbert Santos (ligados à Capital Criativo, sociedade ligada ao seu filho), Vítor Fernandes (novo ‘chairman’ do Banco de Fomento) e qualquer administrador ou funcionário do Novo Banco, bem como qualquer membro da administração da SAD do Benfica, de acordo com o comunicado do juiz, divulgado ontem pelo Conselho Superior da Magistratura. 

Quanto aos outros arguidos do processo, também escaparam a prisão preventiva. O filho do presidente autossuspenso do Benfica, Tiago Vieira, fica impedido de contactar com administradores ou funcionários do Novo Banco (e os outros nomes também vedados ao pai), até novembro de 2021, e terá de prestar uma caução de 600 mil euros em 20 dias. O agente de futebol e advogado Bruno Macedo terá de prestar caução no montante de 300 mil euros.