Portugal
"Vimos o Benfica a ser Benfica. Foi vulgar e sem identidade", diz Maniche
2020-11-27 11:50:00
Análise do antigo jogador à exibição dos encarnados diante do Rangers, ontem, na Liga Europa

O Benfica empatou com o Rangers, nesta quinta-feira, em jogo da quarta jornada do grupo D da Liga Europa, num jogo em que mostrou duas faces, 'acordando' perto do fim, com dois golos que evitaram uma derrota que parecia certa, dadas as debilidades apresentadas durante os primeiros 75 minutos.

Maniche analisou a partida e foi duro nas críticas que dirigiu à formação encarnada, numa análise individual e coletiva. "Há muita fragilidade nesta equipa do Benfica", aponta o antigo futebolista, que reconhece que podem ser apresentadas "variadíssimas desculpas", como a "falta de tempo, falta de entrosamento", mas considera que o entrosamento "trabalha-se" e Jorge Jesus já terá tido o tempo suficiente para o fazer.

Desvalorizando méritos do Benfica, pelo modo como evitou a derrota nos últimos 15 minutos, Maniche desvaloriza o adversário: "Até parece que o Rangers é uma superequipa. Naquela equipa a que o Benfica nos habituou nos últimos anos, o empate era uma derrota. Neste contexto, acho o empate justo, pelo que se passou dentro do campo. Vimos o Benfica a ser Benfica, com muita fragilidade a nível defensivo e falta de entrosamento".

"O Benfica foi uma equipa sem personalidade. Arrisco-me a dizer que foi vulgar e sem identidade. Tenho de ser crítico, porque é aquilo que vejo. Quando o Benfica joga bem, eu digo-o. Temos de ser justo connosco para sermos credíveis. Não sou por clubites. Joguei nos três grandes e dou, apenas, a minha opinião. E acerto demasiadas vezes", apontou ainda Maniche, no canal 11.

A expressão "vulgar" não mereceu consenso no estúdio e pareceu excessiva, até porque os últimos 15 minutos mostraram a outra face da águia. "O Benfica não sabe pressionar. Se não gostam da palavra ‘vulgar’, inventem outra", disparou o antigo médio.

"Quando digo que o Benfica foi vulgar, é porque está a jogar com o Rangers, não contra o Tottenham ou o Manchester City... O que é que o Benfica fez durante a partida? Dois remates à baliza a partir dos 78 minutos? O Rangers está em primeiro lugar na liga escocesa, vale o que vale... O Benfica é que não tem capacidade de controlar o jogo", defendeu.

Os dois golos que permitiram o empate, perto do fim, resultam, segundo Maniche, de uma opção errada da formação escocesa, que "nos últimos 15 minutos, abdicou de atacar". 

Para Maniche, a equipa de Jorge Jesus "não pressiona", e "tem apenas uma tentativa de pressão", porque os jogadores "raramente ganham um duelo e raramente vão com intensidade para tal". "O Benfica não faz pressão para ganhar a bola, só faz para controlar o homem. E isso é apenas uma tentativa de pressão", insiste, complementando a ideia com uma lacuna do plantel encarnado: "Caímos sempre no erro de dizer que, no tempo do Jesus [primeira passagem do técnico pela Luz], o Benfica fazia pressão alta. Mas tinha jogadores para isso". E hoje não tem, de acordo com o ex-jogador.

Numa análise aos jogadores, no encontro de ontem, o antigo futebolista não consegue encontrar "o melhor", apenas "o menos mau". E elege Gabriel, "pela disponibilidade, compromisso com a equipa" e que "saltou à vista pela garra", que segundo Maniche não se viu em mais nenhum elemento.

"Ontem disse que esperava um Rangers a fazer pressão alta e isso não aconteceu. Desiludiu-me. Marcou o golo, depois recuou e deu a iniciativa ao Benfica, que teve muito mais bola, mas não criou perigo. O Rangers aproveitou as debilidades defensivas que o Benfica tem apresentado, ao longo desta caminhada. Há erros individuais que o Benfica tem cometido. E hoje repetiu-as. Não defendeu bem, continua a ter dificuldades defensivas e não tem um meio-campo a condizer com o que Jorge Jesus pretendia. Ele tem de defender a equipa, mas o Rangers aproveitou o lado direito: Gilberto, Rafa e Chiquinho", resumiu.

Ainda num olhar a prestações individuais, Maniche não entende o destaque concedido a Gonçalo Ramos, no jogo de ontem. "Gosto do Gonçalo Ramos, mas o que ele fez não é nada do outro mundo. O golo nem é dele. Foi um autogolo. Ele tem de jogar num lugar que lhe permita explorar as capacidades que tem. E não é do lado direito que ele vai fazer a diferença", assinala.

Relativamente ao primeiro golo consentido após duas recargas, depois de uma defesa difícil de Helton Leite, que foi titular na partida de ontem da Liga Europa, Maniche encontra um culpado. "Quando dizem que o Rafa está a melhorar defensivamente, não concordo", aponta.

"Falaram muito do Gabriel no primeiro golo. E eu sou muito crítico do Gabriel - não acho que ele seja o jogador que ‘pintaram’. Mas tenho de o defender, no primeiro golo do Rangers. O Rafa tinha de se antecipar, o Vertonghen teria de estar mais próximo do ponta de lança e depois, sim, há displicência do Gabriel", conclui.

Com o empate de ontem entre Rangers e Benfica, as duas equipas dividem a liderança do grupo, ambas com oito pontos, e têm a qualificação bem encaminhada. As outras formações do grupo D, Lech Poznan e Standard Liège, contam apenas três pontos.

Leia aqui o filme da ronda, na Liga Europa.