Portugal
"Só pode ser presidente do Benfica um reformado, um rico ou quem vai roubar"
2021-09-11 14:40:00
Adão e Silva defende que “não é possível a oposição vencer formalmente as eleições”

As próximas eleições do Benfica, marcadas para 9 de outubro, vão ser uma "farsa" que apenas vai servir para agravar um problema estrutural do clube, tornado público pela "tragédia" que foi o ato eleitoral de outubro de 2020. O aviso é de Pedro Adão e Silva, que nessas eleições de outubro de 2020 se candidatou a uma vice-presidência, na lista de João Noronha Lopes, e surge na mesma semana em que Noronha anunciou que não se vai recandidatar.

"As eleições de há um ano foram uma tragédia, desperdiçou-se uma oportunidade para os sócios resolverem um problema. Deixaram que fosse o Ministério Público e a Polícia Judiciária a resolver. Há uma reflexão a fazer, dos quatro últimos presidentes do Benfica tiveram problemas com a Justiça. E isto não se prende apenas com as caraterísticas das pessoas, há qualquer coisa no modelo do Benfica que precisa de ser repensado. E isto não pode ser feito por aqueles que há dias faziam guarda de honra a Luís Filipe Vieira", explicou.

Em comentário na Sport TV, Adão e Silva deixou fortes críticas a Rui Costa por ir a votos sem 'permitir' que apareçam outras candidaturas, destacando o "contexto absolutamente insólito" de estarem já a serem preparadas as eleições sem haver regulamento eleitoral ou cadernos eleitorais.

"O Benfica marcou eleições para 9 de outubro, mas até à próxima sexta-feira não sabemos como é que as eleições vão decorrer. Como é que alguém, no seu perfeito juízo, pode participar neste ano eleitoral? Para estas eleições serem levadas a sério e não serem um plesbicito ao presidente em exercício tinham de ser partilhadas com antecedência as regras do jogo. O que está a ser pedido é que as pessoas [candidatos] participem sem conhecerem as regras", sustentou.

O presidente do Benfica, Rui Costa, "vai ter aqui um plesbicito", uma vez que a concorrência está manietada pelos estatutos. "Tenho dúvidas que seja possível a uma oposição vencer as eleições no Benfica. Vencer formalmente. Não é possível e as últimas eleições provaram isso. Continuo sem saber qual foi o resultado das últimas eleições. Rui Costa falou de transparência, mas não vi nenhum sinal de transparência. Quem quer ir a jogo tem de suspender a sua vida profissional e pagar para ir a jogo num jogo do qual não conhece as regras. As pessoas sérias não estão disponíveis para isto. Vai-se eventualmente saber a 15 dias das eleições, é nisto que está transformado o Benfica", salientou.

O ex-candidato lembrou Rui Costa "era dirigente do Benfica quando foram aprovados estes estatutos aberrantes" e citou outro ex-candidato, Bruno Costa Carvalho: "Esta coisa de alguém poder ser Presidente da República, mas não poder ser presidente do Benfica por não ter 25 anos de sócio efetivo depois dos 18 anos [de idade]... Quase ninguém pode ser presidente do Benfica. Só pode ser presidente do Benfica alguém que seja reformado (ou seja, que tenha um rendimento que não implique trabalhar), alguém muito rico que não precisa de trabalhar ou alguém que vai para o Benfica para roubar".

Para Adão e Silva, "Rui Costa foi sempre conivente com aquilo que se passava no Benfica", apresentando como argumentos a questão da OPA e o acordo para a venda de 25 por cento da SAD a John Textor. "Há tempo suficiente que havia informação mais do que suficiente para que quem estava na administração da SAD tivesse a responsabilidade de colocar questões. Se nada mais, colocar questões. Não foram colocadas. Na altura da OPA, o que é que Rui Costa perguntou? O que ficou em ata? Qual foi a sua posição sobre o assunto, se é que a teve?", questionou.

"Não me esqueço que, quando Rui Costa se autoentronizou como presidente do Benfica no relvado, não falou em eleições", continuou: "Essa conversa de que Rui Costa desde o primeiro momento falou em eleições é falsa. Só falou depois de muito pressionado. Naquele dia, quando vai ali fazer aquele discurso, não falou".

Tal como os restantes administradores da SAD e dirigentes do clube, Rui Costa falhou ao não ter exigido a perda de mandato de Luís Filipe Vieira, depois de conhecida a "historieta do rei dos frangos e do senhor Vieira". "Luís Filipe Vieira devia ter perdido o mandato a partir do momento em que se soube que era sócio do principal acionista privado [da SAD do Benfica] e isso não foi comunicado aos órgãos sociais. Todos os que estão sentados na direção do clube tiveram responsabilidades nesse momento. Não promoveram a perda de mandato, são responsáveis por tudo o que se passou a seguir", frisou.

"É quem está na direção de um clube que tem efetivamente capacidade para promover a mudança. E, no quadro do Benfica de hoje, promover a mudança é uma regeneração radical, é uma limpeza ética. Não tenho grande otimismo que Rui Costa o possa fazer e que o queira fazer. São coisas diferentes, querer e poder. Os sinais que têm sido dados não deixam ninguém com otimismo", finalizou Adão e Silva.