Portugal
“Ser presidente de um clube é a pior opção de gestão”, explica Bruno de Carvalho
Redação
2021-04-22 09:00:00
Ex-líder do Sporting alerta que os clubes "estão todos em falência técnica"

Bruno de Carvalho, gestor e ex-presidente do Sporting, fez uma exaustiva análise dos modelos de gestão dos clubes, que contrariam toda a lógica da gestão, apesar de estarem assentes nos princípios seguidos por qualquer empresa. Em consequência, o endividamento generalizou-se de tal forma que todos os clubes estão “em falência técnica”.

“O futebol está todo assente em bases de gestão, mas quem está no futebol não entende isso. Uma das regras da boa gestão é que não se pode ter lideranças bicéfalas, mas no futebol já há um presidente [para além do presidente do clube], que é o treinador. Qualquer guru da gestão diz que é um modelo impossível, não há uma liderança clara. Por isso é que se dizem aqueles disparates de que o balneário é sagrado e nem o presidente lá entra. O futebol está assente em coisas da gestão e tem coisas que são a antítese da gestão”, afirmou o ex-dirigente leonino, numa conversa sobre gestão desportiva, no podcast Folha Seca.

Analisando pelo prima da gestão, Bruno de Carvalho contrariou a ideia de que a conquista da Taça de Portugal pode ‘salvar a época’ de um clube grande que falhe a conquista do campeonato e não tenha um bom desempenho nas provas europeias. “É muito redutor”, sustentou: “Montas uma estrutura de custos para seres campeão, para ganhares todos os títulos e fazeres uma belíssima internacionalização da marca, que no futebol são as competições europeias, e vêm falar contigo que foi tudo um desastre mas que ainda se pode ganhar a Taça de Portugal”.

“Ser presidente de um clube é a pior opção de gestão”, afirmou Bruno de Carvalho, realçando estar a falar como gestor e não como adepto. “Os clubes estão todos endividados”, numa realidade que não é só portuguesa. “Não conheço um clube que não esteja financeiramente atolado em dívidas. Estão organizados conforme os princípios da gestão, mas as práticas diárias são a antítese da gestão. Não é só Sporting, Benfica e FC Porto, é Barcelona, PSG, Real Madrid, Atlético Madrid, Tottenham...”, reforçou.

Para os clubes poderem “sair deste buraco”, têm de assumir que o desporto necessita de aliar um bom desempenho financeiro aos resultados desportivos: “É muito bonito dizer-se que o que interessa é competir se o resultado de um jogo não puder fazer-te ganhar ou perder 40 milhões. Quarenta milhões, é aquilo que podes ou não ganhar indo a uma competição como a Liga dos Campeões”.

Bruno de Carvalho lembrou Bernie Madoff, gestor que criou um esquema em pirâmide que se tornou na maior fraude financeira da história e que faleceu este mês, para insistir no alerta de que os clubes “estão todos em falência técnica”. “Os clubes estão a ser mortos, mas os clientes, que são os adeptos, insistem naquela frase ‘Os presidentes passam, mas os clubes ficam’. O futebol mundial vai ter de perceber que vive numa realidade tipo Maddoff. Desde que se transformaram em SAD, os clubes têm aumentado estrondosamente a dívida. Não há um empresa no mundo que, tendo as dívidas de um clube, não fosse obrigada a fechar. Isto é que as pessoas não entendem. Para um gestor, o futebol é o caos”, insistiu.

Apesar da conversa ser sobre gestão desportiva, o ex-presidente do Sporting não desperdiçou a oportunidade de deixar algumas provocações sobre Jorge Jesus, treinador com o qual se desentendeu na temporada 2017/18. Isto porque o técnico adotou um “discurso” que, muitas vezes, colidia com o da direção. Isto porque, “com o Jorge Jesus, ter uma política de comunicação é impossível”.

“Logo no dia da apresentação, ele disse ‘Agora não há dois [candidatos ao título], há três’. Não gostei dessa intervenção, achei um bocado arrogante da parte do Jesus dizer aquele disparate, porque para mim sempre houve três, mas isso é ‘à Jesus’. Com Jesus não podes ter estratégia, o Jesus é a antítese da gestão. Não se pode ter uma estratégia de comunicação, tem de se ter uma estratégia de fé, rezar para que ele não diga disparates. Não adianta ter um discurso porque ele vem e desarma o discurso todo”, afirmou.

Ao nível da gestão, a indemnização que o Sporting teve de pagar à Doyen foi um dos factos marcantes da liderança de Bruno de Carvalho. O ex-presidente não se arrepende e salientou que, devido à “belíssima gestão” que fez, os leões não tiveram dificuldades em pagar, já depois de condenados em tribunal.

“A Doyen foi um cancro que entrou no Sporting. Sorveu dinheiro de todas as maneiras e feitios. Inacreditavelmente, perdemos o processo porque o ex-presidente Godinho Lopes foi à Suíça atacar o Sporting e defender a Doyen. Tivemos de pagar e, como fizemos uma belíssima gestão, tínhamos dinheiro para pagar”, finalizou Bruno de Carvalho.