José Peseiro chegou a dar uma justificação para contrariar a teoria clássica.
Nos últimos dez anos, a equipa que viria a ser campeã nacional apenas uma vez saiu da Europa em dezembro, ou seja, na primeira fase da respetiva prova europeia. Este dado contraria a célebre teoria de que sair precocemente das competições europeias dá a essa equipa maior frescura e concentração para abordar as provas internas.
Vamos a números.

Como vemos, a palavrinha “dezembro” – indicadora de fracasso europeu – apenas uma vez aparece preenchida a verde. Isto significa que, na última década, apenas uma vez o campeão nacional saiu cedo das provas europeias, beneficiando da tão falada frescura física. Essa exceção foi o Benfica, em 2014/15, precisamente com… Jorge Jesus. Curiosamente, nessa temporada, o Benfica saiu cedo da Europa sendo o campeão nacional, ficando “à vontade” para defender e revalidar o título do ano anterior.
Outro dado curioso remete-nos para o facto de em metade destes dez anos o campeão ter chegado mesmo às fases decisivas das competições europeias (que considerámos ser a partir de abril).
Quer mais? Temos mais. Nas últimas cinco temporadas, o Sporting tem saído em fases precoces das competições europeias (apenas chegou a fevereiro, em 2015/16), mas nem por isso tem conseguido chegar ao título. 2013/14, ano em que nem teve competições europeias, é o exemplo mais claro disto mesmo, com os leões a terminarem na segunda posição da Liga Portuguesa.
São Kelvin dos pesadelos e os anos das longas jornadas europeias
Os clubes portugueses têm conseguido chegar a fases de decisões nas competições europeias. O FC Porto venceu a Liga Europa, em 2010/11, enquanto o Benfica chegou a duas finais dessa prova e a uma meia-final.
Nestes anos, a Liga Europa não foi sempre um fator perturbador nas competições internas. Em 2010/11, Villas-Boas levou o FC Porto à conquista da Liga Europa (frente ao SC Braga) e acabou por… ser campeão. Nesse ano, o Benfica chegou à meia-final e, mesmo assim, terminou no segundo lugar do campeonato. Isto significa que o Sporting, que saiu da Europa em fevereiro, não beneficiou desse facto para superar os rivais (superou apenas o SC Braga na luta pelo terceiro lugar).
Em 2012/13 e 2013/14 – anos das duas finais europeias do Benfica – há equilíbrio. No primeiro, os encarnados acabaram por sucumbir perante um FC Porto livre da Europa desde março, algo que até parece ir ao encontro da tal teoria do desgaste da Europa. Não sendo possível medir e atribuir ao desgaste o falhanço interno do Benfica, o facto é que os encarnados perderam tudo na reta final. Liga Europa, Liga Portuguesa e Taça de Portugal. Nessa altura, tanto o FC Porto – que venceu o campeonato com o célebre golo de Kelvin – como o Vitória de Guimarães – que venceu a Taça, com Rui Vitória ao leme – já há algum tempo não tinham competições europeias. Em 2013/14, no entanto, apesar de FC Porto e Sporting não terem chegado a maio nas competições europeias, o Benfica conseguiu vencer o campeonato.
No meio de tantos números, destacamos uma justificação para tudo isto. José Peseiro, quando levou o Sporting à final da Taça UEFA, em 2004/05, explicou por que motivo o excesso de competições não era a sua grande preocupação. “Agora, haverá mais motivação”, disse, depois de da meia-final, frente ao AZ Alkmaar, antes de acrescentar: “Nunca abdicámos de nenhum dos objetivos, nem vamos abdicar”.
A motivação da boa campanha europeia supera o cansaço do excesso de jogos? Os números dizem que sim e a psicologia di-lo-á também.