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Portugal

“Se virem como festejávamos os golos, não havia suplentes, mas uma equipa”

RedaçãoPor Redação17/05/20215 Mins Leitura
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Martelinho lembra ainda o papel de Manuel José, na génese do título do Boavista, há 20 anos

Os golos solitários marcados a FC Porto e Sporting foram os “momentos decisivos” na caminhada triunfal do Boavista para o único título de campeão da I Liga, conquistado há 20 anos, assumiu o ex-avançado Martelinho.

“Começámos a acreditar que era possível quando fiz o golo da vitória ao FC Porto [1-0, à 17.ª jornada] e passámos para o primeiro lugar. Depois, senti a chamada estrelinha de campeão frente ao Sporting [1-0, à 29.ª], quando também marquei aos 89 minutos. Senti verdadeiramente que o título nunca mais nos fugia”, frisou à agência Lusa o ex-extremo.

Em 18 de maio de 2001, os axadrezados venceram o já despromovido Desportivo das Aves (3-0) e confirmaram o título a uma jornada do final, imitando o feito do Belenenses, que, 55 anos antes, se tinha intrometido na hegemonia de Benfica, FC Porto e Sporting.

“Não é fácil ter a fibra e o espírito de sacrifício e aguentar a pressão num campeonato de 34 jornadas muito competitivo. Depois, muita gente esquece-se de valorizar que a equipa tinha muita qualidade e muitos bons jogadores, sem tanto nome nem tão falados. Provou-se isso no futuro, quando a maioria foi para os grandes ou para o estrangeiro”, notou.

Depois de cinco Taças de Portugal e três Supertaças, o Boavista lograva erguer o maior troféu do futebol nacional em 117 anos de história, ao contrariar todas as previsões com 23 vitórias, oito empates e três derrotas, num total de 63 golos marcados e 22 sofridos.

“Não há impossíveis no futebol e, se andássemos a morder sempre os calcanhares aos grandes, intrometeríamos na luta. Se podíamos ser campeões? Achava difícil, mas na época seguinte ficámos em segundo e, não fosse um super Sporting, podíamos ter sido bicampeões. Ou seja, provou-se que este título não foi por acaso”, observou Martelinho.

O ex-avançado ressalva que o plantel “nem sequer tinha discutido o prémio de campeão nacional” no arranque de 2000/01, quando a meta era aceder às provas europeias, se possível através da Liga dos Campeões, além de reconquistar a Taça de Portugal.

“Tínhamos discutido esses prémios todos e havia ainda um prémio que já estava estipulado há muitos anos no clube e passava pela hipótese de um dia ser campeão nacional. Havia um valor tabelado por jogador, mediante a sua utilização, mas nem o discutimos. Assumir esse objetivo no início da época estava fora de questão”, apontou.

Joaquim Pereira da Silva, conhecido no futebol por Martelinho, cumpria a sexta de 10 temporadas pelo clube do Bessa, no qual terminou a formação e se estreou na I Liga sob alçada de Manuel José, volvido um ano de empréstimo ao Marco, da então II Divisão B.

“Conseguimos ser um ‘outsider’, mas é evidente que não era fácil surpreender todos os anos nem ter uma geração de jogadores como o Boavista teve. Estamos a falar de um projeto que já vinha de há alguns anos com o Manuel José, que foi lançando jovens da formação, como o meu caso, e começou a aproximar o clube dos grandes”, admitiu.

A entrada de Jaime Pacheco a meio de 1997/98, em substituição de Mário Reis, permitiu “prosseguir esse trabalho de base e dar um passo em frente”, unindo “novos talentos e estrangeiros conhecedores da realidade” da I Liga portuguesa num “grupo humilde”.

“O segredo era a maneira como todos nos dávamos. Éramos uma família. Se virem a maneira como festejávamos os golos, não havia suplentes, mas uma equipa. Jogasse quem jogasse, todos os que estavam de fora torciam pelos colegas. Isso foi um dos segredos, aliado à qualidade, ao trabalho e à fantástica massa associativa”, elencou.

Martelinho, então com 26 anos, fez quatro golos em 30 rondas e atravessava o auge de uma carreira estendida até 2007/08, considerando que o Boavista encarou a eliminação precoce da Taça UEFA frente aos italianos da Roma como “um mal que veio por bem”.

“O jogo com o Aves foi o mais tenso que tive. De uma maneira geral, ficava muito calmo antes dos jogos, mas naquela noite o meu coração batia a mil. É engraçado que se vê na fotografia tirada ao onze que estávamos tensos e cientes da responsabilidade de não podermos falhar e de termos o sonho de todos os boavisteiros em cima de nós”, vincou.

O dianteiro natural de São Paio de Oleiros sentia que “era impossível tropeçar nessa fase decisiva” face ao apoio dos adeptos, que “encheram completamente” o Estádio do Bessa nesse jogo da penúltima jornada e invadiram o relvado após o apito final para festejar.

“A equipa libertou-se com o primeiro golo e, sem ser brilhante, jogou quanto baste para vencer. Perto do final, quase passei para lateral. Já estava ali a arranjar uma estratégia para escapulir, porque via as pessoas a quererem entrar no campo. Pensei que me ia ajoelhar e chorar quando o árbitro apitou, mas nem soube festejar no campo”, gracejou.

Boavista Campeão Marelinho
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