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Portugal

SC Braga vai para o meio de terroristas ou de uma nova nação?

RedaçãoPor Redação23/07/20186 Mins Leitura
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Falámos com Silas, jogador de um Zorya que já começou a Liga Ucraniana.

“Houve um episódio em que os meus colegas tinham voltado de férias e tinham começado os problemas. Derrubaram um avião”. É para esta realidade que vai viajar o SC Braga, ditou o sorteio da 3.ª pré-eliminatória da Liga Europa. Os minhotos vão defrontar o Zorya Lugansk, da Ucrânia, um clube no exílio. O Zorya pertence a uma cidade de uma nação independente. Pelo menos é o que dizem as gentes de lá, depois de terem declarado, unilateralmente, a independência da ainda oficialmente inexistente e autoproclamada “República Popular de Luhansk” (RPL). Guerra Civil, conflitos políticos, sociais e geográficos, ataques militares brutais, milhares de mortos e milhões de cidadãos em fuga da região onde pertencem. Em traços gerais, é isto que se passa por lá. Mas nada disto pode ser visto com olhos de “traço geral”. É muito mais complexo. É, como dissemos, um clube no exílio.

O Bancada falou com Silas Araújo, atual jogador do Zorya Lugansk. Falámos do jogo com os minhotos, mas não só. Quisemos perceber o que se passa em Luhansk e de que forma o futebol sofre. O médio brasileiro, de 22 anos, chegou à Ucrânia em abril de 2017, pelo que já não apanhou o pináculo do conflito.

“Quando eu cheguei, o clube já tinha mudado de cidade, para Zaporizhzhya”, explica, contando que nunca chegou a viver na problemática Luhansk. “Mas os meus colegas contaram-me que houve um episódio em que tinham voltado de férias e tinham começado os problemas. Derrubaram o avião. Falei com amigos meus que estavam aqui e eles disseram que tiveram medo e voltaram para o Brasil”.

Foto: Maria Turchenkova

Uma república que, na verdade, não o é

Para que percebamos do que estamos a falar, vamos a uma rápida aula de geopolítica ucraniana, ainda que, com a cidade bloqueada pelos separatistas russos, seja difícil saber o que realmente se passa em Luhansk.

Em 2014, estalou a Guerra Civil no oeste da Ucrânia. O problema-base é relativamente simples: a grande fatia da população daquela zona é russa e fala russo. Mais do que ucraniano. Com o descontentamento perante as políticas de Kiev – tanto ao nível da distribuição de recursos como ao nível da tentativa de “abafar” as regiões de maioria russa – e com o facto de Luhansk considerar que a entrada na União Europeia era prejudicial, veio o “forrobodó”. Com os separatistas pró-Rússia a tomar conta da cidade, o estádio do Zorya foi atingido por um morteiro. A Guerra Civil fez a cidade passar de mais de 2 milhões de habitantes para pouco mais de 1 milhão.

As cidades de Donetsk e Luhansk – conhecidas como Dombass –, ambas no extremo oeste da Ucrânia, declararam a sua independência, como República Popular de Donetsk e República Popular de Luhansk. E aqui vem o problema: o Kremlin – apesar das evidências de que os apoia financeira e militarmente – já garantiu que não tem pretensões de anexar a RPL, Kiev diz que só aceita Luhansk de novo caso abdiquem da autonomia que pretenderam conquistar e o “governo” local não quer assumir o fracasso, cedendo aos ucranianos. Resumindo: a zona está congelada. Tão congelada como o frio que por lá faz no “General Inverno”.

O governo ucraniano apelida-os de rebeldes e terroristas. Por outro lado, eles consideram-se uma nova nação.

Sorte minhota?

Será sempre cruel dizer que o SC Braga agradece os problemas atuais daquela zona da Ucrânia, mas, se nos cingirmos à índole puramente futebolística, será seguro dizer que os minhotos beneficiam com a situação política do país de leste. É que, com estes problemas, o Zorya joga os seus jogos em casa na Slavutych Arena, em Zaporizhzhya, a cerca de 400 quilómetros de Luhansk (quase sete horas de carro). Por extensão, os seus adeptos têm dificuldades para irem aos jogos. Resultado: pouco apoio no estádio. E nada disto é palpite nosso. Foi o próprio Silas Araújo que o contou.

“Nós estamos numa base alugada, em Zaporizhzhya, e vivemos lá. Os adeptos estão longe. Tudo isto fez diminuir o número de pessoas no estádio. Os meus colegas mais antigos dizem-me que, antes, tinham muito mais adeptos no estádio, que agora costuma estar um pouco vazio”, detalha, acrescentando: “Mas mesmo assim, agora, o pessoal de Zaporizhzhya já vão um bocadinho mais aos jogos”.

Para que tenhamos noção das diferenças, os dirigentes do clube dizem que, até 2014, as assistências no estádio rondavam os dez mil espetadores. Agora, é uma sorte quando passam dos mil.

Silas conta-nos que, agora, o ambiente está mais calmo do que antes de o brasileiro lá chegar. Lembra ainda que, em Donetsk, o ambiente era mais “pesado” e que, por isso, o Shakhtar mudou logo de cidade, mal começaram os problemas. “Conversei com alguns jogadores e sei que o Shakhtar mudou logo de cidade. Nós não mudámos logo e isso complicou, no início, a vida do clube”.

Apesar disto, a mudança para Zaporizhzhya permitiu a Silas viver o futebol dentro da normalidade possível: “É um clube que dá condições de trabalho normais e, como já não apanhei a parte mais grave do conflito, acabei por não sentir muito a influência dos problemas”.

“Ouvir a minha língua” e “atrair olhares”

Por fim, vamos à bola. A 9 de agosto, haverá Zorya-SC Braga. A 16, joga-se a segunda mão. Uma nota: o Zorya já começou a Liga Ucraniana, pelo que está numa fase mais adiantada da sua preparação.

Silas Araújo olha para este duelo com agrado. Afinal, vai ouvir falar português. “Eu, em particular, achei interessante este duelo, por ser contra uma equipa de Portugal. Poder ouvir um pouco da minha língua”, explica-nos, antes de falar de dar nas vistas. “O SC Braga é uma grande equipa. Eu prefiro jogar contra equipas grandes e conhecidas, para atrair mais olhares”.

Silas di-lo porque, no fundo, não diria que não a mover-se para um campeonato melhor e um país mais calmo. “Todos queremos crescer e estar num lugar melhor. Se aparecer algo bom para o cube e para mim…”.

Silas diz que o SC Braga é uma grande equipa e, em termos teóricos, tem total favoritismo para esta eliminatória. Ainda que…

JOGADOR A SEGUIR: Artem Gromov
Com a saída de Yuri, melhor marcador da equipa na última temporada (quarto melhor da Liga Ucraniana), o Zorya ficou refém do seu grande goleador. Chegou outro brasileiro, Rafael Ratão, mas, para já, deverá ser Artem Gromov o homem a ter em conta. É um atacante que joga a partir da ala, sobretudo a esquerda, e que gosta de explorar o espaço. Com um SC Braga muito balanceado para a frente, Gromov poderá ser um problema, até porque, para além da velocidade, faz diagonais tanto de fora para dentro como de dentro para fora. Finaliza bem com ambos os pés. Muito bom jogador, este internacional ucraniano.

O PLANTEL (fonte: transfermarkt):
Guarda Redes: Luiz Philippe; Marharadze, Chuvaev
Defesas: Tymchyk, Sukhar, Pryvma, Vernydub, Checher, Svatok, Lytvyn, Hordiyenko, El-Bouazzati, Mykhaylychenko
Médios: Silas Araújo, Kochergin, Cherbeko, Kacavenda, Karavaev, Arveladze, Kharatin, Kamenyuka, Gromov, Gordienko, Kazakov
Avançados: Rafael Ratão, Faupala, Lunyov, Kabaev, Lednev, Khomchenovskiy

O ÚLTIMO ONZE
Makharadze, Svatok, Vernydub, Hordiyenko, Kamenyuka, Cherbeko, Kharatin, Khomchenovskiy, Gromov e Kochergin.

Liga Europa SC Braga Silas Araújo Zorya
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