Portugal
"Os jogadores morrem em campo pelo emblema. Essa é a grande força do FC Porto"
Redação
2021-02-25 09:15:00
Inácio tem um passado ligado aos dragões e aos leões e projetou o clássico

A corrida pelo título nacional apenas ficará relançada com um triunfo do atual campeão FC Porto sobre o líder invicto Sporting no sábado, no ‘clássico’ da 21.ª jornada da I Liga, assume o ex-futebolista e treinador Augusto Inácio.

“Se o Sporting não perder, tem o campeonato na mão, e o FC Porto fica automaticamente fora das contas. Não há favoritos, mas o jogo é muito mais importante para o FC Porto, que só tem uma hipótese e corre atrás dos pontos”, avaliou à agência Lusa o ex-defesa internacional português, que alinhou pelos dois clubes, nas décadas 70 e 80 do século passado.

O FC Porto, segundo colocado, com 44 pontos, recebe o Sporting, líder isolado, com 54, no sábado, às 20:30, no Estádio do Dragão, no Porto, onde os ‘leões’ podem dar um passo determinante rumo à reconquista de um título que escapa desde 2001/02.

“Contra todas as expectativas, o Sporting está na frente do campeonato, joga bem, é consistente e sofre poucos golos. É uma equipa que respira saúde e confiança, e de certeza que não vai pensar só em empatar. Cabe ao FC Porto fazer o que tem de fazer, que é ganhar ao primeiro classificado. Se assim não for, deixa de ter hipóteses”, vincou.

Augusto Inácio prevê uma tendência distinta do empate em Alvalade (2-2), na primeira volta da I Liga, e do triunfo lisboeta nas meias-finais da Taça da Liga (2-1), acreditando que os ‘leões’ irão responder em contra-ataque à pressão alta exercida pelos ‘dragões’.

“O FC Porto tem de ter iniciativa, mas o Sporting fica numa posição confortável quando é pressionado pelo adversário, pelo que poderá retirar dividendos. Se costuma ter mais dificuldades em criar espaços e oportunidades perante blocos baixos, neste jogo poderá surpreender com lançamentos dos centrais para as costas da defesa contrária”, notou.

Destacando a velocidade dos extremos Nuno Santos e Pedro Gonçalves, melhor marcador da prova, com 14 golos, o ex-treinador e dirigente e confesso adepto ‘verde e branco’ elogia ainda a dinâmica oferecida pelos laterais Nuno Mendes e Pedro Porro.

“Encaixam perfeitamente no sistema adotado. Não são só jogadores fantásticos, mas atletas, porque fazem várias ‘piscinas’ durante o jogo, atacando e defendendo com uma frescura anormal e uma resistência fortíssima. João Mário dá o ritmo que quer no meio-campo, enquanto os três defesas centrais cobrem os problemas uns dos outros”, frisou.

Augusto Inácio quebrou um ‘jejum’ de 18 anos sem títulos dos ‘leões’ em 1999/2000 e aprova o discurso cauteloso do treinador Rúben Amorim, ciente de que o clube “não é campeão há muito tempo e a expectativa dos sócios é que pode lá chegar este ano”.

“Já vi recuperações de sete pontos em poucos jogos, com Benfica [2015/16 e 2018/19] e FC Porto [2019/20]. A 10 pontos, nunca se viu isso. O Rúben tem razão quando diz que, se perder estes pontos, todos lhe vão apontar o dedo, uma vez que estão convencidos que o Sporting vai ser campeão, independentemente dos jogos que faltam”, atestou.

A diferença pontual deve-se à “elevada consistência” exibida pelos lisboetas em “jogos teoricamente mais acessíveis”, além da “grande vantagem” originada por um calendário aliviado, em função das saídas precoces da Taça de Portugal e da Liga Europa.

“Jogar na Liga dos Campeões é um esforço tremendo. Viu-se isso com o FC Porto frente ao Marítimo [triunfo por 2-1, na 20.ª ronda da I Liga]. Teve algumas dificuldades na sua intensidade de jogo, precisamente porque há jogadores desgastados. Dessa forma, à medida que o tempo vai avançando, eles diminuem o seu rendimento”, enquadrou.

Os ‘dragões’ competiram na Madeira cinco dias depois de uma exibição de superação na vitória caseira sobre a eneacampeã italiana Juventus (2-1), do ‘astro’ português Cristiano Ronaldo, na primeira mão dos oitavos de final da principal prova europeia de clubes.

“O Sporting pode retirar dividendos do cansaço mental e físico, mas gosto do FC Porto porque, salvo raras exceções, como aquela primeira parte com o Boavista [empate 2-2, na 19.ª jornada], em que não jogou nada, os jogadores morrem em campo pelo melhor resultado, pelo emblema e pela camisola. Essa é a grande força do clube”, apontou.

Numa equipa de “grande atitude e com poucos jogadores de classe”, o campeão europeu e mundial pelos ‘azuis e brancos’ em 1987 vê potencial nos extremos Jesús Corona e Luis Díaz e nos médios Otávio e Sérgio Oliveira para “marcar a diferença” no ‘clássico’.

“Esta equipa bate-se com qualquer um, mas não é muito evoluída tecnicamente. É na base da força e do antes morrer em campo que não lutar por essa mesma vida. Talvez pela gestão do plantel e pela aposta em alguns miúdos, é natural que, sendo mais vocacionada para a frente, abra espaços que os adversários sabem aproveitar”, alertou.

Augusto Inácio, de 66 anos, reconhece que o FC Porto “tem sido apanhado de surpresa” nas provas nacionais à custa dessas lacunas de “equilíbrio nas ações ofensivas”, cuja correção dependerá de “organização tática, inteligência e leitura de jogo dos atletas”.