Portugal
“Optei por manter-me fiel a mim mesmo e não gastar muitos tiros”
Redação
2021-04-16 17:05:00
Rui Vitória recorda Benfica e momento em que preferiu seguir os seus princípios e evitar quezílias

Quando chegou ao Benfica, Rui Vitória manteve o low-profile que o carateriza e evitou confrontos verbais, quezílias, numa altura em que Jorge Jesus, timoneiro do Sporting, recorria a um discurso agressivo. O técnico não foi confrontado com nomes, e não quer entrar em controvérsias, mas explica agora, em entrevista à Sport TV, que, no Benfica, decidiu manter-se fiel aos seus princípios. 

O técnico, atualmente sem clube, viaja por esse passado recente e lembra “um registo” com o qual foi confrontado, numa alusão às provocações que surgiam do outro lado da Segunda Circular. Rui Vitória diz que se sentiu melhor em “não gastar tiros”, exceto nos momentos em que considerou ser adequado.  

Quando cheguei a um clube grande, e também ao Vitória, senti que teria de ser eu próprio e tinha de ter uma forma de estar, não poderia ir por determinados caminhos”, recorda Rui Vitória. Até que chegou a altura em que foi obrigado a seguir uma de duas vias, quando orientava o Benfica. 

“A partir de determinada altura fui confrontado com isso. E pensei: vou entrar num registo que não é o meu, que as pessoas até gostam, ou vou manter-me fiel a mim mesmo? Optei por manter-me fiel a mim mesmo e não gastar muitos tiros. Quando achasse que seria o momento ideal, fá-lo-ia", refere, numa alusão aos duros ataques que teve de enfrentar. 

Rui Vitória assume que a sua decisão possa ter “jogado” contra si. Porém, teve noção da importância da sua função, adequando a sua postura a esse cargo. E por isso não entrou na ‘guerra’ de palavras. 

“Acredito que isso possa ter jogado contra mim. Temos de perceber se esta comunicação é aquilo que as pessoas querem ouvir. Quando cheguei a um patamar mais alto, no Benfica e mesmo no Vitória, colei a minha função de treinador ao clube onde estou. A identidade do próprio clube. E entendo que temos uma imagem a passar”, explica. 

Por outro lado, Rui Vitória lembra a exposição mediática que um treinador de futebol tem. Nesse cargo, não é, naturalmente, a pessoa mais importante do clube, mas é aquela que mais vezes dá ‘o corpo às balas’. Daí que medir as palavras seja um dever moral.  

O treinador é quase a pessoa mais importante no clube, não porque mande mais do que o presidente, mas porque tem maior exposição. Num clube com 50 jogos, o treinador aparece 150 vezes perante a imprensa”, realça. 

E aqui o técnico entra na cultura desportiva. Rui Vitória traça um quadro do futebol português, e mesmo das modalidades, e observa que Portugal tem “os melhores jogadores, os melhores treinadores, as melhores infraestruturas, empresários, futebol de praia, futsal”. O que é que falta? “Cultura desportiva”. 

“Temos de fazer um plano para que isso aconteça. Toda a gente deveria sentar-se e pensar: andar com estas guerrilhas tem algum interesse, vende algum produto? Falta cultura desportiva? Toca a fazer isso”, sustenta. 

Recorrendo à sua experiência fora de Portugal, Rui Vitória lamenta, nesta entrevista, “a cultura muito resultadista” que se vive em Portugal, em que se observa mais o resultado do que o jogo. “Contactando com colegas meus, os ambientes lá fora são mais saudáveis. Eu vivi isso agora, na Arábia. Não há ambientes quezilentos, conflituosos”, aponta.  

A cultura da quezília e do conflito não é agradável. É fundamental fazermos um trabalho educativo, de cultura desportiva, que passa pela formação, pela base. Entender melhor o jogo. Podemos não ser grandes jogadores, mas se tivermos um conhecimento mínimo do fenómeno do desporto é fundamental para sermos melhores adeptos. Não há esforço em criar melhores adeptos, não há esse debate”, lamenta 

E neste campo do perfil do adepto português, ainda há um longo caminho a percorrer. “Os adeptos vão ao estádio pela iminência de os seus clubes ganharem. Mas uma coisa que carateriza o futebol é a imprevisibilidade do resultado. No teatro, contam-nos a peça, já sabemos mais ou menos o que vai acontecer, mas vamos na mesma. No cinema, contam-nos o filme, mas nós queremos ver. No futebol, podem contar o que quiserem, mas nós nunca sabemos. Não devemos ir aos estádios só pela satisfação do nosso clube vencer”, sublinha o técnico 

É necessário “percorrer esse caminho” e aprender com os bons exemplos. E Rui Vitória recorda um deles. “Lembro-me de ir com o Benfica ir a Inglaterra e de aplaudirem uma jogada nossa, coisa que aqui é impensável. E lembro-me de aplaudirem os próprios adeptos do Benfica, em Inglaterra. Isto aconteceu. Aqui é impensável”, lamenta. 

Rui Vitória abordou também a sua pausa na carreira, que foi pensada. Sente-se bem fora do banco de suplentes e não vai regressar a qualquer custo. “Quero fazer uma pausa. Estive 10 anos em clubes com exigências elevadas: Vitória, Benfica e Al Nassr. Agora, quero privilegiar a família, ter uma visão de helicóptero sobre isto tudo, ver o futebol de outra maneira, conversar de forma descontraída. Estou muito bem, com a família”, explica. 

Passar pelo Benfica e pelo Al Nasr deu a Rui Vitória “o gosto de ganhar”E “este sabor é muito agradável, assinalaSe eu pudesse escolher, escolheria equipas que pudessem ganhar títulos. Temos 364 dias de trabalho para ter um dia de glória. E esse momento é bom que possamos experimentar”, destaca. 

Rui Vitória não esconde que espera abraçar um projeto que lhe permita ganhar. Procura um “projeto competitivo forte”.