O novo treinador do Wolverhampton WFC foi o primeiro jogador transferido para o estrangeiro pelo agora superagente
A conferência de imprensa de apresentação de Nuno Espírito Santo como treinador do Wolverhampton WFC ficou marcada pelo ‘bombardeamento’ de perguntas dos jornalistas sobre a ligação do ex-técnico do FC Porto a Jorge Mendes, o denominado ‘superempresário’. O próprio treinador português fez questão de falar sobre a sua ligação com Mendes: “Só vos queria dizer uma coisa: sou um cliente do melhor empresário do mundo. Ele faz o seu trabalho, eu faço o meu”, salientou.
Já aquando da chegada a Valencia no verão de 2014, em entrevista ao jornal A Marca, NES falou sobre a relação com Jorge Mendes. “É um empreendedor. Vive para o trabalho e faz tudo para defender os seus. Tem muito sentido de humor. Eu aprendo muito com ele, é um sábio. É mais inteligente do que nós todos juntos”, disse na altura Nuno Espírito Santo.
A relação de amizade entre os dois, que ninguém esconde, tem mais de duas décadas. Remonta a 1996, quando o guarda-redes são-tomense ficou na história do futebol mundial por ter sido o primeiro jogador transferido para o estrangeiro por Jorge Mendes, naquele que foi o primeiro caso de sucesso do superagente. Corria a época de 1995/96, e Nuno era um jovem guarda-redes que começava a dar nas vistas no Vitória de Guimarães. Um encontro com um então desconhecido, numa discoteca do Minho, a meio caminho da Corunha, iria mudar a vida do guardião são-tomense. O estranho era Jorge Mendes e nascia uma amizade entre os dois que ainda hoje perdura. O agente prometeu então ao jovem de 22 anos que o ia ajudar a cumprir um dos sonhos de carreira: jogar no estrangeiro, de preferência no futebol espanhol. Dito e feito. Jorge Mendes criou a Gestifute e Nuno esteve seis anos em Espanha, onde jogou no Depor, no Mérida e no Osasuna, este dois últimos clubes na condição de empréstimo.
Em 2002, o guarda-redes pediu a Jorge Mendes para o ajudar a cumprir outro sonho, o de jogar no FC Porto. Por essa altura já o empresário estava fixado no futebol português e no futebol mundial. Tinha boas relações com o clube portista e com Pinto da Costa, e naquele plantel dos azuis-e-brancos Mendes era representante de jogadores como Costinha, Deco e até do treinador José Mourinho. Não foi, por isso, difícil ao agente colocar Nuno no plantel, onde acabaria por chegar como moeda de troca para abater o preço de Jorge Andrade que rumou à Corunha.
No Dragão, Nuno foi quase sempre suplente de Vítor Baía. Apesar disso, fez parte da equipa que venceu a Taça UEFA (2002/03) e a Liga dos Campeões (2003/04) e o campeonato por quatro vezes (2002/03, 03/04, 07/08 e 08/09). E fez também parte da equipa que venceu a Taça Intercontinental, em 2004, na qual substituíu Vítor Baía perto do final do jogo com o Once Caldas, a tempo de brilhar no desempate por penáltis.
No ano seguinte, pela mão de Jorge Mendes, Nuno foi um dos portistas a seguir para o Dínamo de Moscovo, por 2,5 milhões de euros. Acabaria por regressar ao Aves (2007) para meio ano depois voltar ao FC Porto, sob mediação de Mendes, onde esteve três anos quase sempre no banco de suplentes mas como a extensão de Jesualdo Ferreira no balneário. Quando pendurou as chuteiras em 2010, a segunda vida como treinador também teria o patrocínio do mesmo padrinho de sempre.
Começou como técnico de guarda-redes no Málaga e Panathinaikos, a convite de Jesualdo Ferreira, assumindo a carreira a solo no Rio Ave, Valencia CF, FC Porto e agora Wolverhampton, quatro clubes da esfera de ação de Jorge Mendes.
O dia em que NES telefonou em direto a Jorge Mendes…
Momento pitoresco na história da relação entre Nuno e Mendes foi aquele que Espírito Santo protagonizou quando o Rio Ave conseguiu chegar à final da Taça de Portugal e da Taça da Liga, na época 2012/2013. Para chegar ao Jamor, o Rio Ave eliminou, nas meias-finais, o SC Braga. No jogo decisivo venceu 2-0 em casa, e beneficiou de um empate (0-0) em Braga para garantir a final da competição. No final do jogo, na conferência de imprensa, surpreendeu ao surgir, em direto para as televisões, a falar ao telemóvel. Disse à pessoa do outro lado “Adoro-te!” e todos na sala pensaram que se tratava de algum familiar. Mais tarde, o próprio revelou que era Jorge Mendes, o amigo de sempre.
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… E a ‘bebedeira’ encenada para ir para o Depor
Outro episódio caricato teve a ver com a transferência do Vitória de Guimarães para o Deportivo da Corunha. Uma transferência que foi tudo menos simples e que implicou uma rigorosa encenação com Jorge Mendes a comandar as ‘operações’.
Nuno pretendia rumar à Corunha e Pimenta Machado, então presidente do clube minhoto, havia dito que a transferência seria aceite caso chegasse a Guimarães uma proposta de um milhão de dólares. O Deportivo demonstrou-se disposto a pagar o valor em causa, mas Pimenta Machado mudou de ideias e passou a pedir cinco milhões. Desesperado, Nuno recorreu a Jorge Mendes, que dava então os primeiros passos como agente de jogadores. E o que fez o agora superagente? Decidiu desarrumar o apartamento de Nuno, originando um cenário caótico. Disse então a Pimenta Machado que Nuno estava doente, muito doente.
“Então, o presidente do Vitória veio visitar-me e fingi que tinha acabado de chegar da rua. Ele perguntou: ‘Ele está bêbedo?’. Quando saiu, disse [a Jorge Mendes]: ‘leva-o amanhã [para a Corunha]… e não o deixes fazer um teste [de alcoolemia]”, contou Nuno ao jornal The Guardian. Com o aval de Pimenta Machado, Jorge Mendes foi então em busca do presidente do Deportivo para fechar a transferência. “O Jorge sabia exatamente a que horas [Augusto César] Lendoiro, o presidente do Depor, deixava o clube todos os dias. Ele saía, descia à rua e caminhava para um restaurante a 100 metros. O Jorge estava lá, a andar ao seu lado. Ele foi de Portugal, conduziu duas horas e meia por causa daqueles 100 metros. Mas sabia que aqueles 100 metros valiam ouro. Depois, conduziu duas horas e meia de regresso para me dizer que a transferência estava concretizada”, contou o agora treinador do Wolverhampton WFC.