Portugal
"Ninguém na equipa do Benfica quer assumir a responsabilidade. É safar o eu”
Redação
2021-02-26 16:35:00
Segundo Carlos Manuel, o Benfica repetiu lacunas frente ao Arsenal e perdeu a oportunidade de “mudar o chip”

A derrota diante do Arsenal, nesta quinta-feira, determinou o afastamento do Benfica da Liga Europa, o que representa mais um objetivo perdido. Carlos Manuel detetou os mesmos problemas na equipa de Jorge Jesus, alguns dos quais perturbadores: o receio dos jogadores em assumirem protagonismo, o facto de se esconderem, por receio de errarem.   

“Nota-se no Benfica algo que não é um pormenor. Num lançamento da linha lateral, os jogadores do Benfica escondem-se. E quem tem medo de jogar não consegue jogar bem. Ninguém no Benfica quer assumir a responsabilidade. É safar o eu. Não digo que os jogadores o façam de propósito, não é o ‘que se lixe o outro’. Não. É algo interior, que se tornou normal: o receio de as coisas não correrem bem. E quando um jogador se esconde, a equipa não é equipa, é uma manta de retalhos. É muito difícil virar uma situação destas”, considerou o antigo futebolista, na SportTV, num comentário ao jogo dos encarnados nas competições europeias. 

Carlos Manuel lembra que “o Arsenal não está a um nível normal” e seria um adversário ao alcance do Benfica. Sobretudo depois de a equipa lusa estar em vantagem. E referque esta derrota por 3-2 resulta de um problema gravíssimo na equipa do Benfica, nesta época, que marca este percurso na Europa e na I Liga 

A antiga glória encarnada recupera a justificação de Jorge Jesus para a má temporada (o surto de covid-19) para rebater esse argumento, até porque antes desse surto o Benfica foi afastado da Champions e depois do surto cai da Liga Europa. Durante o surto, passou a observar o campeonato como uma miragem. 

Não sei se o Benfica é um caso de estudo. Deve haver uma análise, para que se perceba o que aconteceu. Não sei se é só a pandemia. Houve o antes da pandemia, o durante a pandemia e há o pós-pandemia”, assinala, como forma de salientar que essa argumentação já não fará sentido. 

Outro problema que Carlos Manuel deteta prende-se com a ausência de agressividade. E a estatística comprova-o. “O Benfica, em 90 minutos, fez três faltas. Num jogo destes? Com uma adrenalina enorme? Indicia alguma coisa. O Benfica é uma equipa macia, defende com os olhos, não arrisca no desarme, não pressiona. É o lado menos bom deste Benfica”, salienta. 

Estrategicamente, não se compreende a forma como a formação de Jorge Jesus defende a vantagem, abdicando de atacar e manifestando incapacidade em procurar o contra-ataque. 

“Quando faz o 2-1, o Benfica abdica de atacar e nem sequer conseguiu sair em contra-ataque, nem que fosse para pôr o Arsenal em alerta. O Arsenal jogou no meio-campo do Benfica porque o Benfica o deixou”, aponta Carlos Manuel. 

Porém, nem tudo foi mau no Benfica de ontem, que mostrou algo mais do que na partida da primeira mão, diante do mesmo adversário. Carlos Manuel destaca a organização. Ontem, o Benfica foi mais equipa, mais organizada, jogou melhor do que em Roma, trabalhou mais. Mas acho que ainda tem pouco poder no ataque, muito pouco, e tem insegurança a defender. Frente ao Arsenal, que não é uma equipa por aí além, não esteve bem”, realça. 

O golo que afastou o Benfica chegou perto do fim. E depois do jogo, segundo Carlos Manuel, Jorge Jesus só terá uma mensagem para os jogadores: “Não se pode perder este jogo”. 

Quando se perde a três minutos do fim, depois de estar duas vezes por cima da eliminatória, chega-se ao balneário e qualquer treinador diz ‘é impossível perdermos este jogo’. Não sei se Jesus o disse. Depois de estar a vencer por 2-1, quando o empate chegava, o treinador deveria ter dito aquilo: ‘Não poderíamos perder este jogo”, reforça. 

Numa análise à temporada, que se arrasta para o fim com os objetivos do Benfica a caírem, o ex-futebolista retoma o raciocínio e aponta mais erros a este Benfica: “Tudo o que era objetivo vai-se diluindo. O Benfica está a perdê-los. A equipa não tem coletivo, nem é muito solidária”. 

Mais do que ser afastado da Liga Europa, o Benfica perdeu uma oportunidade para ‘virar o jogo’ e encontrar um caminho, afastando os fantasmas que travam o percurso da equipa.  

Há momentos aos quais a equipa tem de se agarrar, para mudar o chip. Ontem, era um momento importantíssimo para a própria equipa encontrar ali uma segurança, passar a eliminatória, acreditar no que está a fazer”, diz Carlos Manuel, que antecipa que Jorge Jesus tem “muito trabalho” pela frente, para que os poucos objetivos que ainda restam sejam alcançados.