Portugal
João Palhinha: uma confusão na vida do tipo das chuteiras no teto
2018-08-03 21:00:00
Bruno de Carvalho tem falado bastante de Palhinha.

João Palhinha está no meio de um forrobodó. Primeiro, parecia que tinha tudo para assumir o lugar de William, que saiu do Sporting. Depois, foi dispensado, supostamente para se juntar ao Lille. Mais tarde, Bruno de Carvalho começou a falar, em todas as intervenções públicas, da injustiça da dispensa do “menino de Alcochete”. Agora, a transferência para França parece bloqueada e não se sabe para onde vai Palhinha.

E já que se tem falado tanto do jovem médio, então falemos nós também. Fomos fazer umas perguntas a João Serrano e Diogo Bernardes, ex-colegas de Palhinha, que nos contaram umas historinhas de um tipo que só está bem a fazer asneiras. Mas sem maldade. Já lá vamos.

Primeiro, destacamos mesmo esta parte final. João Palhinha é um tipo que não sabe estar quieto. “Está sempre bem-disposto e sempre pronto para a palhaçada. Diverte as pessoas à volta dele e foi dos colegas com quem mais gostei de partilhar o balneário”, elogia João Serrano, apesar de acrescentar: “Mas também é dos jogadores mais profissionais que conheci. Queria sempre trabalhar mais, muito sério quando precisava de ser sério”.

Já Diogo Bernardes destaca também a boa disposição, mas junta-a à força mental. “O João é uma pessoa humilde e com uma enorme força mental, o que o torna um excelente companheiro de balneário uma vez que cativa todos pela sua vontade de vencer”.

Bom, mas vamos lá à primeira historinha, que passou nos juvenis do Sacavenense. A propósito, aproveitamos já para despachar o mais chato, mas necessário, perfil cronológico: Palhinha começou a jogar futebol no Alta de Lisboa e, ainda iniciado, foi para o Sacavenense. Só cinco anos depois foi “caçado” para os juniores do Sporting. Mas vamos lá à história. Nessa altura, em Sacavém, Palhinha já era um “gigantone” e fazia com que os avançados fossem… gozados.

“Lembro-me de que o João era um dos melhores marcadores da equipa. Era um "terror" para os adversários nos cantos. Sempre que falávamos, no balneário, sobre quem tinha mais golos, os avançados eram sempre alvo de gozo, porque um médio defensivo tinha mais golos do que eles, recorda Diogo Bernardes, ao Bancada.

"Não costuma perder um lance aéreo"

Isto dos golos é um bom ponto de partida para falarmos de bola. Quem é, afinal, o médio Palhinha?

João Serrano define-o e compara-o até com William, jogador que, supostamente, Palhinha iria substituir em 2018/19. “Ele é um guerreiro. Nunca dá uma bola por perdida e tem um grande espírito de combate e superação”, elogia, antes de detalhar a parte técnica do médio, que também pode atuar como central: “É muito forte no 1 contra 1 defensivo e no jogo aéreo. Fisicamente, também é muito possante e, apesar de não ser tão exuberante a sair a jogar como um William Carvalho, também sabe jogar e não tem medo de ter bola”.

Se dúvidas existem acerca de Palhinha ser um autêntico “cão de luta”, na zona central do campo, Diogo Bernardes dissipa-as, dizendo… o mesmo que João Serrano. “Tem muita raça e não dá uma bola por perdida. Depois tem muita força, usando o um porte físico muito importante para a posição que ocupa”, explica, destacando a tal arma da qual já falámos. “É forte no cabeceamento, devido à altura. Quer defensivamente quer ofensivamente é muito bom, não costuma perder um lance aéreo”.

Palhinha fez 23 anos há pouco tempo e, por isso, está numa fase-chave da carreira. Ou bem que joga e pega ou bem que não joga e pode muito bem ficar como eterna promessa. A transferência para o Lille, por empréstimo ou em definitivo, acabou por falhar, mas, a 3 de agosto, ainda há tempo para arranjar uma boa colocação para o médio.

E quem o levar, apesar de não levar um líder, leva um tipo impecável. “Como pessoa é cinco estrelas. Muito bem formado e, apesar de não ser um líder nato, como por exemplo eram um Rúben Dias ou o Domingos Duarte, era um elemento-chave do balneário. Sempre muito correto dentro e fora de campo”, analisa João Serrano.

Aliás, este é um bom gancho para a outra história que nos contou Diogo Bernardes e que mostra um pouco da personalidade de Palhinha. “Eu tive uma lesão grave no joelho, o que me impossibilitou de jogar durante bastante tempo. O João, sempre que me via, perguntava-me como estava e dizia-me para me manter forte, que tudo iria correr bem. Aliás, mesmo depois de ele ter ido para o Sporting, uma vez encontrei o João e uma das primeiras coisas que ele perguntou foi se eu já tinha recuperado e se estava bem”.

Confusão com Jesus é para levar 'na boa'

Como profissional, a boa disposição e bondade de Palhinha não lhe valeram, necessariamente, sucesso. Começou por ser emprestado ao Moreirense – muito boa temporada – e ao Belenenses, antes de duas temporadas de parca utilização em Alvalade, com Jorge Jesus. Atenção: utilização parca, mas intensa.

A 4 de fevereiro de 2017, Palhinha foi chamado à titularidade na derrota (2-1) no clássico frente ao FC Porto. Depois do jogo, Jorge Jesus foi… Jorge Jesus. Sem papas na língua, identificou publicamente em Palhinha um jogador pouco preparado e… com o “guião errado”.

“O FC Porto foi melhor na primeira parte porque o João Palhinha não levou o guião certo para se poder enquadrar com o que estava a acontecer. Perdeu-se durante meia-hora e isso foi fatal para nós”.

Palhinha, como é fácil adivinhar a partir da caracterização dos ex-colegas, foi, em bom português, “um bacano”. Não se chateou e tentou entender o treinador. "O míster Jorge Jesus tem a sua maneira de falar e as pessoas aproveitam-se um bocado disso para fazerem notícias. Ele tem a sua maneira de se exprimir e sei o que ele quis dizer. Ele assumiu a culpa pelo que aconteceu. As pessoas deram demasiada importância a essa frase. Já passou".

E olhe que passou mesmo. Tanto passou que, meses mais tarde, no jogo da Taça, em Oleiros, Jesus considerou Palhinha – que bisou na vitória por 4-2 – o melhor jogador em campo.

Chuteiras atadas e penduradas no teto

A terminar, a tal historinha das chuteiras. Como já vimos, Palhinha é um rapaz que só está bem a pregar partidas. No Sporting, pelo menos, era assim.

“Ele dava confiança a toda a gente para brincar e, depois, acabava por lhe custar caro. Por vezes, chegava ao balneário e tinha as chuteiras todas atadas umas às outras e penduradas no teto do balneário. Praticamente todos os dias alguém lhe escondia a roupa e, depois, ele fingia que ficava todo chateado. Era particularmente engraçado ver as palhaçadas que ele e o Gelson faziam um ao outro. Eles sempre foram grandes amigos e, por isso, era quase certo que todos os dias pregavam uma partida um ao outro”.