Jonas fez o segundo golo do Benfica frente ao Paços de Ferreira e festejou-o com uma dedicatória especial
A vida de João Carlos Martins dava um filme em Hollywood e não é certo que um dia, tal, não venha mesmo a suceder. Seria merecido, pelo menos. O cinema brasileiro, porém, não ficou indiferente e, já este ano, Mauro Lima, estreou “João, o Maestro” – já em 2004 estreou “Paixão segundo Martins”, um premiado documentário franco-alemão. A história de João Carlos Martins é uma história trágica, de superação humana, e se mais motivos precisava para ser conhecida ou honrada, Jonas, ontem, após o golo que marcou na Luz frente ao Paços de Ferreira e que selou a vitória do Benfica por 2-0 sobre o conjunto pacense, retornou-a à praça pública. Em João Carlos Martins, Jonas vê um exemplo de vida. Confirmou-o, afinal, nas redes sociais após o jogo, dedicando ao maestro brasileiro o golo marcado frente ao Paços de Ferreira. A história de João Carlos Martins é uma história de resistência e amor pela vida, pela música, por Bach e por… futebol.
Foi o futebol que deu as primeiras alegrias a João Carlos Martins mas também uma das maiores lutas da sua vida, com a contrariedade a chegar precoce na vida e a obrigar João Carlos Martins a reinventar-se. Em 1965, aos 25 anos, João Carlos Martins, já um músico de renome, encontrou a equipa do coração, a Portuguesa, de São Paulo, no Central Park em Nova Iorque. Foi convidado por Aimoré Moreira, então técnico do emblema paulista com ligações a Portugal, para integrar a sessão de treino da equipa e uma queda durante uma disputa de bola resultou numa pedra a perfurar-lhe o braço, junto ao cotovelo, afetando nervos do braço direito que o impediram de tocar música convenientemente durante os anos seguintes. Três dedos da mão direita ficaram atrofiados de tal maneira que durante um ano foi mesmo obrigado a interromper todas as suas atividades musicais. Ele, um pianista de renome, considerado pela crítica como o maior interprete de Bach do seu tempo. Tal como a música, a fisioterapia era agora parte integrante da vida de João Carlos Martins. Durante cinco anos tocou sob grandes dificuldades até dizer basta e regressar ao Brasil para trabalhar como empresário musical e de… boxe. Música, mulheres e desporto. As grandes paixões de João Carlos Martins.
A tragédia nunca abandonou a vida de João Carlos Martins e esteve sempre presente ainda antes de nascer. Filho de um português de Braga, recebeu do pai o sonho da música e o interesse pelo piano. O pai, apaixonado pelo piano, teve o sonho de se tornar músico interrompido cedo, aos 10 anos, após uma prensa lhe ter decepado um polegar. Já emigrado em São Paulo, colocou João Carlos Martins na rota de Joseph Kliass – professor russo radicado em São Paulo – e, aos oito anos, o agora maestro, iniciou as suas aulas de piano. Cedo deu nas vistas e rapidamente se estabeleceu como um dos pianistas mais brilhantes da sua geração. Considerado pela crítica musical como o melhor intérprete de Bach do seu tempo – o irmão, José Eduardo, especializou-se em Debussy. Apesar do regresso ao Brasil para trabalhar como empresário, após a lesão sofrida em Nova Iorque, João Carlos Martins não ficou longe dos palcos durante muito tempo. Recuperou o público que perdera, entretanto, regressou aos concertos regulares, mas distúrbios ósseos e musculares, desenvolvidos devido ao esforço constante, obrigaram João Carlos Martins a abandonar a música mais uma vez. De novo, para se dedicar à sua carreira empresarial. O pior, porém, estava para chegar. Se tal ainda era possível.
João Carlos Martins tinha já regressado à carreira musical quando a 20 de maio de 1995, em Sofia – onde havia regravado praticamente toda a obra de Bach -, foi vítima de um assalto no qual foi agredido com uma barra de ferro na cabeça e sofreu um traumatismo craniano que afetou até a movimentação do braço direito e a fala. João Carlos Martins nunca desistiu e apesar das adversidades, reinventou-se sempre que a tragédia se cruzou consigo. Mesmo perante as limitações físicas do seu membro superior direito, João Carlos Martins continuou a tocar explorando acima de tudo a sua mão esquerda, até então, totalmente saudável. Gravou mesmo um disco somente com a mão esquerda. O esforço extra, porém, teria repercussões mais tarde. Desenvolveu Contratura de Dupuytren na mão esquerda e, por fim, foi obrigado a trocar o piano pela batuta – ou quase. A partir de 2003, o pianista João Carlos Martins, passa a ser “João, o Maestro”, mas as lesões que desenvolveu nas mãos impedem-no agora, até, de segurar uma batuta ou virar páginas de partituras. Decora-as. Milhares de páginas por ano e em 2012 foi submetido a uma intervenção cirúrgica ao cérebro, colocando ainda um estimulador eletrónico no peito, de forma a tentar recuperar os movimentos da mão esquerda que não conseguia, sequer, abrir, há vários anos. Em 2016 carregou a tocha Olímpica e tocou o hino brasileiro durante a cerimónia de abertura dos Jogos Paralímpicos.
Jonas não é indiferente à vida de João Carlos Martins e, ontem, após o encontro frente ao Paços de Ferreira, dedicou o golo que marcou, ao maestro brasileiro. Jonas, logo ele, cuja carreira está longe da tragédia de João Carlos Martins mas que, a certa altura, também pareceu perdida e requereu reinvenção – que o diga, também, a Portuguesa, clube do qual João Carlos Martins é fervoroso adepto. Jonas marcou e celebrou o golo dedicando-o a João Carlos Martins. Uma vida que é um exemplo. Uma vida que é uma história de superação e uma referência do estoicismo, resistência e resiliência humana.