Portugal
“Há muita gente a viver do futebol e que não acrescenta nada”, diz Ivo Vieira
2021-05-26 10:50:00
Técnico do Famalicão diz que há “medo de dizer as coisas” e que esta questão “tem de ser discutida”

Ivo Vieira conseguiu uma recuperação notável no Famalicão, conseguindo garantir a manutenção, apesar de ter uma missão complicada: à classificação difícil, juntava-se um calendário assustador, que levou o madeirense a hesitar, quando recebeu a chamada do Minho.

No canal 11, o técnico (que acaba de renovar contrato por mais duas épocas) tece fortes elogios aos dirigentes famalicenses, em particular Miguel Ribeiro, presidente da SAD do Famalicão, que "fala a linguagem do futebol". No clube minhoto, Ivo Vieira encontrou esse trunfo.

Porém, o técnico não deixou de expressar desilusão pelo facto de ver que há outras pessoas, que gravitam no futebol, e que não trazem nada de novo.  

Não acredito em favores. Não peço a presidente nenhum para continuar nos clubes. Faço o meu trabalho. Se gostarem... Tive a felicidade de encontrar Miguel Ribeiro, no Famalicão, que fala a mesma linguagem dos treinadores. E às vezes o que acontece é que as pessoas não falam a linguagem dos treinadores”, afirmou. 

Ivo Vieira lamenta que a voz dos treinadores não seja ouvida. E fala de uma cultura de medo, na qual se inclui, apesar de manifestar coragem pelas palavras que disse, nesta entrevista ao programa Futebol Total.  

“Nós  e eu coloco-me nesse saco – muitas vezes vivemos no medo. Temos medo de dizer as coisas. Há muita gente que gravita no futebol e que não traz benefício nenhum, que não acrescenta nada ao futebol. E isso precisa de ser discutido”, argumentou. 

Há muita gente a viver do futebol e que não acrescenta nada de bom para o futebol. E continua a viver do futebol, sem o defender. E eu não consigo estar numa mesa a sorrir, ao lado de ma pessoa que faz mal ao futebol. Não consigo ter essa boa disposição quando vejo que há pessoas que não fazem bem aos clubes”, reforçou.  

Confrontado com o facto de estas palavras poderem provocar um travão na sua carreira, até porque já é difícil para um treinador conseguir exercer a sua profissão, o técnico assume que tem uma caraterística, da qual não abdica. 

É um defeito que eu tenho e vou morrer com ele. Eu não quero ser rico, quero ser feliz. Não tenho a ambição ou a ganância de treinar clubes XPTO. Tenho a missão de fazer o melhor possível. E o que tiver de acontecer acontece de forma natural. Não procuro nada de forma desesperada. Costumo dizer que quem não vive com um pão vive com meio. O importante é viver feliz”, afirmou 

A verdade é que a carreira de Ivo Vieira é um enorme ‘cartão de visita’. E mesmo com um discurso sem medo o técnico poderá almejar a chegar ao clube XPTO. Em Famalicão, a missão não seria fácil.  

“Quando olhei para o calendário, tremi um pouco”, confessa, o que o levou a ponderar bem o convite.  

“Vou ser muito honesto, porque não consigo ser diferente. Quando somos frontais e verdadeiros somos mal interpretados, mas eu gosto de ser assim. Eu não queria, no início, aceitar a proposta do Famalicão. Rejeitei-a mais do que uma vez. Assim como outras que surgiram. Eu tinha uma estratégia para a minha carreira, depois de um processo muito complicado, na Arábia, que não correu bem”, conta. 

Assim, Ivo Vieira ponderou e considerou que seria melhor não aceitar qualquer proposta até ao final da temporada. “Tomei a decisão: não vou trabalhar nesta época e vou começar uma temporada normal. A minha mulher deve estar a rir-se de mim. Arrumar a mala foi um pouco confuso, lá em casa. Estamos a falar de dois meses. E a decisão tinha sido essa, não correr riscos nesses dois meses, para a minha carreira. Olhei para o calendário, para o plantel. O Famalicão já tinha tido dois treinadores. E arrisquei a minha carreira, abraçando o projeto do Famalicão”, conta. 

“Recebíamos o SC Braga, que perdeu o segundo lugar connosco e tinha vencido 3-2 no Dragão, íamos à Madeira, que estava na mesma situação que nós, recebíamos o Paços, que estava no auge, e depois tínhamos o Sporting, em primeiro, a fazer uma campanha fantástica. Pensei: se nós não ganharmos nestes quatro jogos eu vou-me enterrar até ao pescoço”, prossegue. 

Porém, depois de uma reflexão, e após uma insistência por parte do presidente Miguel Ribeiro, Ivo Vieira decidiu aceitar o desafio, até porque a confiança depositada era enorme. O plantel do Famalicão era forte, mas estava em 17.º lugar. Ivo Vieira, no entanto, elogia os seus antecessores, destacando o excelente trabalho que desempenharam. 

“O José Pedro Sousa fez um trabalho extraordinário. É um 'gentleman', um senhor. Depois, o Silas continuou o processo e teve parte de responsabilidade neste sucesso. Na altura, apenas os resultados não estavam a aparecer”, elogia. 

A recuperação famalicense é conhecida. Os minhotos foram uma das melhores equipas da segunda volta e conseguiram a manutenção, que se julgava perdida. Convidado a projetar a próxima época, o técnico revela que é prematuro fazer uma antevisão da próxima temporada.  

“Não gosto de fazer promessas. Acredito no trabalho e nos atletas. É difícil prever o curto/médio prazo. O objetivo será fazer melhor. Mas temos de ser equilibrados em termos da projeção do futuro. Ainda não temos praticamente 50 por cento do plantel fechado”, explica.

Num olhar ao futebol nacional, Ivo Vieira espera que os ânimos sejam mais serenos. Apela aos adeptos para que compreendam que só um clube pode ser campeão e pede aos órgãos de comunicação social para que cumpram o papel de serenar esses ânimos. O técnico faz um paralelo com outras artes. 

Há três clubes que aspiram a ser campeões. Ou quatro, porque o SC Braga está lá metido. Só um pode ser campeão. Haverá a frustração de três. E depois isto envolve as massas. Eu não vejo pessoas a pagar para ir ao teatro, a pagar para ir ao cinema, e quando não gostam atiram as cadeiras e maltratam as atrizes e atores que representaram. E vocês, veículos de transmissão da informação, também deveriam fazer algo – ou fazer mais – neste sentido. Em vez de inflamar o fenómeno desportivo, provavelmente equilibrar e serenar o comportamento das pessoas. O futebol está um incêndio. E o nosso futebol poderia ser melhor”, conclui.