Portugal
“Futebol nos tempos de cólera”: uma obra de Keizer Garcia Márquez
2018-11-29 20:00:00
Esta goleada, apesar das fragilidades do adversário, já tem dedo de Keizer.

Os tempos são de cólera, na segunda circular. Na Luz, confusão com um treinador. Em Alvalade, um treinador à procura de acalmar os exigentes adeptos de um clube que acabou de despedir Peseiro. Mas, hoje, no meio da cólera, como um dia escreveu Garcia Márquez, houve amor. Ou melhor, houve futebol. E do bom. O Sporting venceu o Qarabag, por 6-1, no Azerbaijão, e carimbou a passagem aos 16 avos de final da Liga Europa. 

Para que fique claro: este Sporting já mostra dedo de treinador. E dizer isto não é um entusiasmo precoce com um imponente 6-1 ou uma simpatia para com Keizer. É, sim, a clara evidência de que já há ideias e fundamentos diferentes: bola no pé, triangulações a um/dois toques, jogadores próximos e a lógica de "toca, vai e pede", com futebol sempre apoiado e um meio campo em 1x2 (Gudelj atrás de Wendel e Bruno Fernandes). Isto é dedo de Marcel Keizer.

Até aqui, o Sporting mostrava uma avidez tremenda pela procura dos corredores, apostando em isolamentos dos extremos para 1 contra 1, acabando as jogadas com cruzamentos. Agora, os leões mostram a ideia de querer os jogadores mais juntos, com poucos toques na bola e, ao contrário do que acontecia, a procura de envolver Bas Dost nas triangulações, pedindo apoios frontais ao holandês.

Num estádio gigante, mas quase vazio, o primeiro golo – penálti ganho e convertido por Dost – nasceu precisamente disso: a equipa procurou o ala, sim, mas apenas depois de, com triângulações centrais, chamar o lateral contrário à zona central, desposicionando-o e dando espaço ao ala para definir.

Importa dizer que o Qarabag não é um “papão”. Aliás, os azeris cometeram o pecado clássico de quem defronta uma equipa que quer jogar como jogou o Sporting: fizeram pressão individual e focada no homem da bola. Contra equipas que querem fazer isto, a pressão tem de ser feita com controlo da zona e não com referências individuais, porque sempre que chegarem ao homem da bola, já ela saiu de lá.

Este modelo leonino tem, ainda, outra vantagem: depois de meia hora de bola no pé e passes a um/dois toques, os adversários começaram a contar com isso, podendo ser surpreendidos quando os leões quiseram sair em condução, algo que Gudelj e Wendel não se inibiram de fazer. E ganharam vantagens assim uma mão cheia de vezes.

Voltando ao filme do jogo: o Qarabag empatou aos 15', mas Bruno Fernandes desempatou aos 21, com ajuda preciosa de Halldórsson. Nani resolveu individualmente o 3-1 e “matou” o jogo.

A segunda parte foi uma formalidade. O Sporting jogou com mais calma, mas, com os azeris mais abertos – e visivelmente cansados, também –, vieram os golos: Diaby (duas vezes) e Bruno Fernandes construíram a goleada, sendo que o golo do português voltou a ser construído com a tal matriz de passes curtos e triangulações rápidas.

Que fique claro: esta goleada, apesar das fragilidades do adversário, já tem dedo de Keizer. E isso só pode ser uma boa notícia para os sportinguistas que queriam mais qualidade do Sporting de Peseiro.