Portugal
“Dou os parabéns a Varandas por metade do discurso”, diz Carlos Manuel
2021-05-21 15:35:00
Antigo futebolista não gostou da totalidade do discurso de Varandas, na Câmara de Lisboa

O presidente do Sporting necessitou apenas de alguns segundos para falar aos rivais, no seu discurso, na Câmara de Lisboa, onde os novos campeões foram recebidos, nesta quinta-feira. Frederico Varandas começou por agradecer a FC Porto e Benfica pelo modo como levaram a que os jogadores do Sporting se superassem, mas logo depois partiu para um inesperado ataque, falando em escutas, com os dragões como alvo, e nos casos de covid-19, que serviram de justificação do Benfica para a incapacidade de conquistar o título.

Carlos Manuel não gostou dessas palavras. E considera que o presidente do Sporting deveria ter optado por um discurso agregador, sobretudo porque se aproximam grandes desafios para o futebol português.

“Frederico Varandas tem uma época fantástica e há que dar valor ao que o presidente do Sporting foi sabendo gerir. Há uma quota parte de responsabilidade de Frederico Varandas neste sucesso. Esteve muito bem em, durante a época inteira, falar apenas o essencial. Neste momento, depois disto tudo, há o libertar de tensões acumuladas. Temos de dar esse desconto. O próprio Frederico Varandas também tem essas tensões”, começa por comentar o antigo futebolista do Benfica, na Sport TV.

Agora, “com tantas questões de interesse comum, por tratar, para o futebol, era importante que as pessoas pensassem de outra maneira”, prossegue Carlos Manuel, que não estava à espera de um discurso ‘bélico’, na hora de uma conquista importante para o Sporting.

“Eu pensava, na realidade, que Frederico Varandas, com a sua juventude, podia dar o mote [para uma mudança de paradigma]. E o mote foram aquelas primeiras palavras, em que deu os parabéns aos rivais. Mas, depois... foi dar porrada”, lamenta.

“Cada um tem as suas razões. Não discuto. Aceito. Agora, era bom, porque há assuntos pendentes que os três grandes podem ajudar a resolver”, lembra o antigo internacional português.

Carlos Manuel teme que o futebol português continue num ciclo vicioso, em que quem ganha atire pedras aos rivais, que as guardam no seu bolso para as devolver, na época seguinte, quando a glória mudar de paragens.

“Não nos podemos esquecer de que hoje está a ganhar, mas amanhã pode perder. E amanhã já é outro presidente a falar desta forma. E se isto andar assim, não vislumbro, num horizonte próximo, que se possam resolver os problemas. E isso é mau”, lamenta.

O comentador da Sport TV lembra importantes desafios que o desporto-rei enfrenta, como a centralização dos direitos desportivos. E salienta que a união será força, para quem ganha e para quem assiste à festa alheia.

“Quando houver a centralização de direitos, vai haver uma confusão enorme. Vamos lá ver o que isto vai dar. Vai dar um problema enorme. E os três grandes precisam de estar juntos. E tem de haver pacificação. Por todas as razões. Pela época, pelo que se passa extrafutebol, todas as situações que se passam e são menos boas”, prossegue Carlos Manuel.

O antigo futebolista do Benfica e da seleção faz questão de vincar os méritos do presidente do Sporting. Mas entende que aquele não foi o discurso de que o futebol português necessitava. Ou pelo menos, parte desse discurso.

“Frederico Varandas fez uma época muito boa, foi uma pessoa importantíssima, manteve-se firme e acho que esteve muito bem. Dou-lhe os parabéns pelo campeonato e pela forma como agiu durante toda a época e deixou de falar – só o fazia em questões essenciais. E dou os parabéns a Varandas por metade do discurso, depois de ser campeão. Não posso dar os parabéns pelo resto. Ele poderia dar o mote. Ele tem capacidade para isso, para que haja uma mudança”, insiste a antiga glória encarnada.

Sobre esta conquista leonina, Carlos Manuel vê-a como positiva, porque põe termo a um duopólio. “O Sporting sagrou-se campeão e pode haver uma mudança no futebol. Será interessante”, diz Carlos Manuel, referindo-se a uma quebra da hegemonia de FC Porto e Benfica.

No entanto, o futuro próximo será desafiante. “Foram campeões, mas o Rúben Amorim já avisou e muito bem: o Sporting poderá ter uma das épocas mais difíceis, que é a que vem. Os adeptos vão exigir mais, a época será diferente, haverá público, os adversários estão precavidos para um Sporting diferente... Vamos lá ver se há arcaboiço para aguentar todas estas situações”, diz.

Carlos Manuel lembra, por outro lado, que “é impossível ganhar sempre” e dá o exemplo do Liverpool, que passou de ganhar tudo para outra realidade bem diferente.

“Os adeptos do Liverpool não gostam. Mas eles têm uma cultura diferente – que nós devemos adotar. Que é ver o desporto pelo desporto. Nós somos latinos, mais fervorosos, mas isso é para discutir num café, num grupo de amigos. Agora, o que leva à violência temos de retirar. E ter alguma cultura desportiva é essencial”, conclui.