Portugal
Descalabro do sistema defensivo do Estoril-Praia não é apenas culpa dos defesas
2017-10-02 22:20:00
Antigos jogadores consideram que o problema da equipa da linha de Cascais "tem a ver com o desacreditar, com o medo"

Há um problema à deriva na defesa do Estoril-Praia, que vai com 20 golos sofridos nas primeiras oito jornadas da Liga, o que já não acontecia em Portugal há 14 anos. Os seis golos que o SC Braga marcou na baliza Moreira, no último domingo, contribuíram de grande forma para o aumento do número, que se junta a um total de cinco derrotas consecutivas para a Liga (e uma para a Taça da Liga pelo meio). Os antigos defesas do Estoril-Praia demonstram-se apreensivos pelo registo mas não culpam exclusivamente os defesas de Pedro Emanuel.

Questionado pelo Bancada se costuma ver os jogos do Estoril-Praia, Amílcar da Fonseca foi claro na resposta. "Sim, vejo os jogos todos. É um clube que eu não deixo de ver", admitiu, pelo que a opinião do antigo internacional português sobre o estado da equipa revelou ser bem formada e justificada. Para o ex-treinador do Portimonense, o problema não está na qualidade dos jogadores mas sim na forma como o bloco defensivo (não) está a funcionar, tendo até dado um exemplo para facilitar a compreensão.

"Eu não acredito que os jogadores que jogam na defesa - porque uma coisa são os jogadores que jogam na defesa e outra é a forma como a equipa defende - tenham toda a culpa. O Estoril não está a defender bem. Aliás, até lhe confesso que o Benfica também está a ser esse problema. Toda a gente fala dos jogadores que saíram mas a verdade é que a equipa não está a defender tão bem como defendia", começou por dizer o antigo defesa ao Bancada, continuando: "no Estoril, realmente, há ali falhas que têm de ser atribuídas aos jogadores que jogam na defesa mas a verdade é que a equipa não está a defender bem. O bloco defensivo, que começa no ponta-de-lança e vai até ao guarda-redes, não está a ser bem interpretado e depois acontece aquilo que se passou em Braga. Foi uma situação normal, porque a equipa já estava a dar sinais que não estava a defender bem".

Amílcar da Fonseca jogou no Estoril-Praia entre 1975/76 e 1978/79, antes de rumar ao Belenenses. No clube de Cascais chegou a ser colega de Teixeirinha, outro defesa que concorda que as coisas não vão bem para os lados da equipa amarela. O antigo jogador nascido em Angola concorda com Amílcar, afirmando que a defesa não é composta apenas pelo quatro atletas mais recuados (se excluirmos o guarda-redes).

"O treinador é o mesmo e a defesa não mudou assim tanto. É o início da época e talvez ainda se estejam a adaptar ao modelo de jogo, que talvez tenha variado. Uma equipa não é só composta pela defesa mas sim pelo seu todo e quando o seu todo não carbura... é difícil. E há uma parte da equipa que sai sempre a perder, e tem sido a defesa. O Estoril já sofreu bastantes golos, vai com 20, e não é fácil", considerou Teixeirinha ao Bancada.

Esse ponto voltou a ser referido por Amílcar da Fonseca, que deu um novo exemplo e assegurou que o registo de golos sofridos não é apenas consequência da qualidade - ou falta dela - dos defesas. Do meio-campo para a frente é essencial ter jogadores que saibam recuperar a bola com qualidade.

"As equipas fortes começam cá atrás e são as que têm melhor poder de recuperação de bola. Vou dar um exemplo: há três ou quatro anos, quando o meio-campo tinha o Iniesta e o Xavi, o FC Barcelona era a melhor equipa do mundo a recuperar bolas e isso às vezes é que faz com que as equipas não sofram muitos golos. Os defesas do Estoril são bons jogadores mas a equipa não está a defender bem e está a sofrer golos infantis", explicou.

Ver os adversários em celebrações de golos: uma imagem que não tem sido estranha para os jogadores do Estoril-Praia em 2017/18 (António Cotrim/Lusa)

Sobre a falta de capacidade do Estoril-Praia em recuperar de desvantagens, o que tem sido comum em 2017/18 visto que os 'canarinhos' têm sofrido golos ainda na primeira parte na maioria dos jogos em que saíram derrotados, Amílcar da Fonseca é da opinião que isso acontece devido à falta de crença e confiança. O futuro, esse, não será risonho se nada mudar na equipa.

"Isso tem a ver com o desacreditar, com o medo. A equipa não está confiante em termos defensivos e abana quando sofre um golo. Em Braga, o que vi nas expressões dos jogadores foi que eles nem sabiam a quem dar culpas. A equipa não tem crença e uma equipa que não tem crença é uma equipa muito fraca, independentemente dos jogadores que tenha. A crença é fundamental e o treinador tem de passar tranquilidade à equipa. Se a equipa continuar assim vai afundar, de certeza absoluta", concluiu.

Teixeirinha mostrou ainda o apreço que sente pelo técnico estorilista e sugeriu que a pausa para seleções, que teve início esta segunda-feira, pode ser benéfica para o Estoril-Praia. "O Pedro Emanuel tem uma forma de estar agradável e penso que ele é um bom treinador e condutor de homens. Os jogadores, penso, estão com o treinador. [O caminho] é trabalhar e tentar corrigir o máximo possível o que menos saiu bem agora, neste interregno".

O histórico das equipas com 20 ou mais golos sofridos à oitava jornada não é feliz, o que deve preocupar o Estoril-Praia, visto que as últimas três vezes em que isso aconteceu os conjuntos em questão acabaram por descer ao segundo escalão. Foi em 1989/90, com o Portimonense (21 golos sofridos após oito rondas), em 1995/96, com o Campomaiorense (23) e em 2003/04, com o Estrela da Amadora (22). Nenhuma das três equipas se conseguiu manter na Liga no final da prova.

O Estoril-Praia está entre os últimos quatro classificados da tabela, somando os mesmos seis pontos que CD Tondela, Moreirense e Aves. Ainda é demasiado cedo para qualquer tipo de certeza, mas a vida não está fácil para a formação de Pedro Emanuel, a mais batida de toda a Liga.