Portugal
“Cresci com o Sporting a vencer pouco, mas muito rico em valores, princípios”
2021-07-31 18:00:00
Frederico Varandas explica a "missão" de "devolver a dignidade ao Sporting"

O presidente do Sporting, Frederico Varandas, explicou como as dificuldades que viveu a nível pessoal o prepararam para assumir o desafio de pegar num clube que vinha a perder “valores” e “princípios”, ao ponto de ter chegado mesmo a um estado de “guerra civil”.

Numa entrevista que faz manchete da revista E, do jornal Expresso, o dirigente explicou que o amor ao emblema do leão rampante não se explica. “Por influência do meu avô nasci Sporting. Sou um homem de ciências e o Sporting sempre  foi o lado irracional da minha vida”, comentou.

Sócio leonino desde nascença, Varandas tinha 3 anos quando entrou no clube como atleta da ginástica. Começou a aprender que “era um clube diferente”, com muitos “valores e princípios”, mas poucas vitórias.

O tempo foi passando e, nos anos mais recentes, foi-se acentuando uma degradação na ‘alma’ do clube. “A verdade é que o Sporting não só continuava a perder como também ia perdendo valores, postura e, acima de tudo, dignidade”, explicou.

Foi então que Frederico Varandas descobriu uma “uma espécie de missão” pessoal: “Devolver a dignidade ao Sporting”. “Num país em que há a convicção generalizada de que quem tem mais poder ou está mais ‘instalado’ pode tudo, consegue tudo, é muito importante sublinhar o mérito, sinalizando que ele pode e deve prevalecer sobre o resto”, fundamentou.

Os “inúmeros desafios” e as “provas de superação” que tinha vivido até então, como o internato na Academia Militar e o meio ano como médico na guerra no Afeganistão, deram ao então diretor clínico do Sporting a certeza de que tinha de se candidatar à presidência do Sporting.

“Descobri que, quando mais a ‘situação aperta’ e mais crítico é o momento, mais à vontade me sinto. Em vez de perder a calma ou o fio do raciocínio, sinto-me mais sereno, mais alerta e com os sentidos mais apurados. Quando vi o Sporting de rastos, em ruínas, em guerra civil, achei que era capaz de ter o que me parecia imprescindível: o conhecimento interno do clube (era seu diretor clínico há sete anos) e a força, a determinação, a resiliência para o que aí vinha”, justificou.

Tendo crescido com “educação e valores”, Frederico Varandas aprendeu a “conquistar pelo mérito”. Foi com esse espírito que avançou para as urnas, sendo eleito para devolver “a dignidade ao clube e o orgulho aos sportinguistas”.

Por esta altura, o dirigente confessa o “segredo” deste mandato: “Nunca governámos o clube preocupados com a popularidade ou a nossa reeleição”.

“Aprendi a nunca desistir nem ceder. Quanto mais me ameaçam, mais força me dão. Prefiro perder ou até morrer com as minhas ideias do que sobreviver sem acreditar no que estou a fazer”, garantiu.

Uma forma de governar que “exige desprendimento pelo lugar” e acentua a “solidão, um dos fardos de quem lidera”.

“Há que lidar com isso. Aguentar a dificuldade de manter o rumo quando ‘n’ pessoas à nossa volta nos garantem que vamos na direção errada! E aí resta acreditar e seguir em frente no refúgio do isolamento”, acrescentou.

Foi nesse “refúgio” que Frederico Varandas se recolheu após o “enorme risco” de contratar Rúben Amorim, o técnico mais caro na história do Sporting e que nem sequer tinha habilitação para treinar uma equipa da I Liga.

“Foi uma intuição, mas obviamente baseada no conhecimento. Toda a gente me apelidou de louco”, recordou Varandas: “Se fosse ele o treinador certo iria potenciar tudo o resto, iria dar-me vitórias, iria mobilizar os jogadores, entusiasmar o plantel, e estes 10 milhões iriam parecer cêntimos. Portanto, a questão era simples: era ou não o treinador certo? Era”.

Frederico Varandas garantiu ainda que, enquanto liderar o clube, o Sporting vai ser orientado por “valores”, mesmo sabendo que o futuro será sempre ditado pelos resultados desportivos, pois “a unidade existe quando há resultados”.

“Como não tenho a memória curta, nunca me esqueço como é que isto estava quando aqui cheguei. Mudou muita coisa, mas temos de nos manter humildes e continuar a trabalhar”, concluiu o presidente do Sporting.