Albertino, ex-jogador do FC Porto, traça semelhanças entre o novo técnico e o histórico Pedroto
“Até podem não ganhar o campeonato, mas de certeza que se vão esfarrapar todos”.
O arranque de temporada do FC Porto é o melhor dos últimos 40 anos. Desde 1979/80 que os portistas não faziam melhor do que duas vitórias e diferença de cinco golos positivos, à segunda jornada. Curiosamente, essa equipa não foi campeã, perdendo o título para o Sporting, na reta final.
Nessa equipa de 79/80, com José Maria Pedroto ao leme, estava Albertino Pereira, histórico jogador do FC Porto. O Bancada quis perceber, com Albertino, quais são os pontos comuns entre este Porto e o de há 40 anos e, sobretudo, saber se há algo de Pedroto em Conceição.
“Pedroto é único, mas, quando oiço o Sérgio Conceição falar, parece que ele foi jogador do mestre Pedroto. Pode ser um “filho” do senhor Pedroto. Um discípulo. Com Sérgio, até podem não ganhar o campeonato, mas de certeza que se vão esfarrapar todos”, dispara Albertino. Porquê? Pela mística, a emoção e o estilo irascível que unem Conceição e Pedroto.
“Não tem papas na língua. Ele [Conceição] não manda recados, diz as coisas, como fazia o senhor Pedroto. E ainda não o picaram… ele ainda está em banho-maria”. Conceição será, portanto, o primeiro a defender o clube em momentos de eventuais queixas com arbitragens e fatores externos?
“Sem dúvida. Eu aposto nisso. O Pedroto era assim que fazia e o Sérgio, sem o conhecer, é um discípulo dele. O estilo é ‘pedrotista’. A massa associativa gosta disso”.
“Se o Maxi entra, o Ricardo não vai calçar mais” e o choro de Rúben Neves
Deixemos Pedroto e Conceição de lado e falemos de futebol jogado. Nesta temporada, o novo treinador portista fez poucas alterações nos nomes que compunham o onze-base de Nuno Espírito Santo. Para além de Aboubakar, a grande novidade é a inclusão de Ricardo Pereira, na posição de lateral direito, “roubando” o lugar a Maxi Pereira.
“O Ricardo está a cumprir. Defende bem e ataca bem. O Maxi ganha quatro milhões por ano e o Sérgio Conceição não liga nada a isso. Joga o melhor e penso que o melhor, agora, é o Ricardo”. Ainda assim, o clímax desta conversa sobre a lateral direita ainda estava por vir: “se o Ricardo se lesiona e o Maxi entra – com o seu espírito latino –, o Ricardo não vai calçar mais”.
Mas qual é, então, a principal virtude deste FC Porto? É a profundidade do plantel, que permite ter um Maxi no banco? Ou é o espírito de grupo, que permite ter um Maxi no banco, mas motivado? A resposta de Albertino é clara: são ambas. Lembra-se? “Até podem não ganhar o campeonato, mas de certeza que se vão esfarrapar todos”.
Albertino defende que Maxi é um grande suplente e um craque, antes de alargar a análise ao que Conceição construiu. “Esta equipa é uma família. Está unida e isso nota-se nos festejos dos golos. O Pedroto não queria que um jogador ficasse sozinho nos golos e com o Sérgio é igual. O golo é o sal do futebol e nota-se que o Sérgio está a colocá-los amigos uns dos outros”, argumentou, até recordar uma história de Rúben Neves.
“Lembro-me de o Rúben Neves, ainda há pouco tempo, não ter entrado depois de ter ido aquecer e ter começado a chorar. Mas ele não tem de chorar. Tem de estar preparado para tudo e motivar a equipa”.
Messi ou Ronaldo? Não. A solução é outra
Pegamos em Rúben Neves e na união do plantel, para voltar a 1979/80. “Quando jogámos com o AC Milan, em Itália, na Taça dos Campeões, os onze que entraram foram os onze que saíram. O Pedroto podia tirar um jogador aos 15 minutos de jogo, mas também podia não mexer na equipa o jogo todo. Éramos todos uma família e os suplentes apoiavam os titulares”, recorda, antes de estabelecer a ligação com o atual plantel: “O Sérgio está a conseguir unir a equipa desta forma. Havia muita mística, em 79/80, e agora parece estar a haver outra vez. Isto vale mais do que ter o Messi ou o Ronaldo”.
Voltamos a Conceição e à aposta de Pinto da Costa num treinador da casa. É esta a chave do bom início de temporada? “Sem dúvida. É a mística. O FC Porto, finalmente, arranjou um homem da casa. Um ex-jogador”.
Segundo Albertino, a direção não acertou com Peseiro, Lopetegui, Nuno ou Paulo Fonseca. Quem teriam sido, então, as boas escolhas? “Ex-jogadores que agora são treinadores podiam ocupar este lugar. Podia lá estar o Jorge Costa ou o Domingos, por exemplo, que são homens da casa e têm um amor muito grande ao FC Porto. O presidente acertou desta vez, com o Sérgio”.
O que é que Sérgio Conceição trouxe ao FC Porto e qual é a principal ligação entre esta equipa e a de 1979/80, de Pedroto? Exato, certamente já adivinhou:
“Até podem não ganhar o campeonato, mas de certeza que se vão esfarrapar todos”.