O selecionador nacional, bem como o próprio Danilo, teriam sido mais felizes, ontem, se conhecessem as leis.
Fernando Santos errou e está totalmente enganado. Tal como Danilo. Dizemo-lo com certeza, depois de o selecionador nacional ter contestado a expulsão do médio, nesta terça-feira, no Portugal-Polónia. O treinador protestou bastante logo no momento e, mais tarde, mesmo a frio, em conversa com os jornalistas, não se inibiu de dizer que, na sua opinião, o árbitro tinha errado.
Fernando Santos evocou o conceito da “dupla penalização”, argumentando que as recentes alterações às Leis do Jogo puseram fim a esse conceito. O conceito evocado até deve ser chamado “tripla penalização” e não dupla, mas esqueçamos este pormenor pouco relevante. O que interessa é que o selecionador está equivocado e o próprio Danilo, se conhecesse bem as leis, poderia ter evitado a expulsão. E na foto não estaria a dizer que não, com o dedo indicador. Mas vamos à prática.
Cenário: Um jogador segue isolado para a baliza, numa clara oportunidade para fazer golo. Já dentro da “grande área”, um defensor comete uma falta, derrubando o atacante e impedindo-o de poder marcar um golo. Aqui, o árbitro assinala penálti e expulsa o jogador. Certo? Não. Pelo menos não sempre. Este desfecho pode acontecer, mas consoante o tipo de infração. Expliquemos:
Se o jogador defensor cometer a falta numa ação na qual tentou jogar a bola – um carrinho ou uma tentativa de desarme com os pés, por exemplo –, então o árbitro deverá assinalar o respetivo penálti, mas mostrar apenas cartão amarelo. A ideia é não penalizar triplamente – penálti, expulsão e suspensão para o jogo seguinte – um jogador que, apesar da infração, até tentou jogar a bola de forma leal.
Caso o jogador defensor cometa a falta numa ação na qual não procura jogar a bola – um puxão ou um agarrão, por exemplo –, então o cartão vermelho mantém-se, não se aplicando a tal lógica de terminar com a tripla penalização.
Aos 63 minutos do Portugal-Polónia, Danilo agarrou Milik, impedindo-o de finalizar uma clara oportunidade de golo. É verdade que, instantes depois, o médio português até tentou (e conseguiu) fazer um corte, mas a falta assinalada pelo árbitro russo Sergei Karasev foi o puxão anterior. E a infração assinalada seria sempre sem qualquer intenção de jogar a bola. Ora veja lá se não foi assim.
Nota 1: Em traços gerais, numa generalização nem sempre aplicável, costuma dizer-se que se o defensor fizer uma falta com os pés é porque tenta jogar a bola, ao contrário de quando o faz com as mãos. É uma linha-mestra que pode ajudar, mas que nem sempre se aplica, no entanto.
Nota 2: quando um jogador tenta jogar a bola, mas fá-lo de uma forma grosseira – uma entrada de sola ou pontapé com violência considerável, por exemplo –, então mantém-se o cartão vermelho. Aí, o cartão não será por impedir uma clara oportunidade de golo, mas sim por ter feito uma falta grosseira.
Nota 3: o fim desta “tripla penalização” aplica-se apenas a faltas para penálti. Se a falta for cometida fora da “grande área” – e mesmo que tenha sido uma tentativa leal de jogar a bola –, o jogador será expulso. Porquê? Porque, aí, não se trataria de uma “tripla penalização”, dado que seria um livre direto e não um bastante mais castigador pontapé de penálti.
Tudo isto parece confuso, mas, na prática, é bastante simples. Resumamos: se, numa falta para penálti, o jogador tenta jogar a bola, vê o cartão amarelo. Se não tenta, vê o vermelho.
Caro Fernando Santos, convém ir ler melhor as leis. E caro Danilo: se soubesses melhor as leis, talvez tivesses tentado uma falta com os pés e não um puxão. E provavelmente terias acabado o jogo em campo…