Martelinho falou ao Bancada sobre o começo de época do Boavista, as expectativas criadas e o reforço do plantel
Entre a pressa dos adeptos em voltar ao topo e a humildade imposta pela realidade atual do clube, assim arranca o Boavista para uma nova temporada em que as expectativas à volta do trabalho de Miguel Leal estão muito elevadas. No entanto, isso não poderá ser um problema porque “quem está no Boavista tem de estar preparado para a pressão”, segundo Martelinho, campeão pelo clube em 2001, que falou ao Bancada.
Miguel Leal substituiu Erwin Sánchez no comando técnico dos axadrezados a meio da temporada 2016/17 e conseguiu a melhor classificação do clube (9.º lugar) desde o regresso à Liga, ao mesmo tempo que colocou a equipa a praticar um futebol positivo. Esse bom trabalho de Miguel Leal elevou a fasquia agora colocada a próprio treinador, num clube em que as segundas temporadas têm sido difíceis para os técnicos. Petit não resistiu ao segundo ano depois de voltar à Liga e Sánchez, que o substituiu, também acabou demitido na sua segunda época.
A pressão parece ser inevitável no Bessa. “Isto é um grande clube, um clube que tem uma história enorme, é o quarto grande de Portugal. Podem dizer que neste momento não é, mas em títulos é e claro que quem lá joga tem de perceber que a exigência é muito grande e que não chega somente fazer um campeonato tranquilo, é preciso, aos poucos, ir crescendo”, diz Martelinho, apontando o oitavo lugar como uma possibilidade no curto-prazo, antes de pensar em voos mais altos. “Acho que, esta época, o Boavista já não pode somente olhar o objetivo da permanência. Acho que, humildemente, deve pensar o mais rapidamente em garanti-la, mas tem de ter mais ambição e, quando digo isto, digo dentro do grupo. Tem de ter ambição para subir mais um degrau, ou seja, tentar ficar ali nos oito primeiros e depois de conseguir isso, aí sim, na época seguinte sonhar com um sexto lugar, que por vezes até dá acesso à Liga Europa, como nesta época. Depois, conseguindo lá chegar, vêm mais apoios, mais dinheiro, mais patrocínios e isso claro que é importante para o clube e para os sócios e simpatizantes. É importante sentir o clube novamente a crescer e a chegar ao patamar que nos habituou”, segundo o histórico jogador.
Martelinho, no entanto, lembra que “isso não se consegue de um dia para o outro” e que tudo está “a seguir o seu rumo e ritmo normais”. “Penso que o Boavista, mais três épocas, e vai conseguir consolidar-se de vez na Primeira Liga e aos poucos vai conseguir ir encurtando distâncias para os da frente e que poderá começar a olhar a partir do quarto classificado, para equipas como o SC Braga, Vitória de Guimarães ou Marítimo, equipas tradicionalmente rivais do Boavista no acesso à Liga Europa.”
Manter a espinha dorsal e contratar dentro do orçamento
“Claro que, quando não há matéria prima, temos de ter a humildade de reconhecer que é difícil, mas penso que o Boavista e a sua direção estão, aos poucos, a tentar munir o plantel de bons jogadores e nota-se o crescimento que está a ter o clube”, diz Martelinho, ao analisar o comportamento do clube no mercado.
Para já, o clube do Bessa perdeu alguns jogadores, mas apresentou oito reforços. São eles o guarda-redes Raphael Spiegel, o lateral esquerdo Vítor Bruno, os centrais Stéphane Sparagna e Raphael Rossi, os médios Alex Rodríguez e Aymen Tahar e os atacantes Mateus e Yusupha Njie. Do lado das saídas, há alguns jogadores importantes como Lucas Tagliapietra, Philipe Sampaio, Anderson Carvalho, Iuri Medeiros e Schembri, mas Martelinho considera que o núcleo da equipa se manteve. “Acho que o grande trunfo foi manter a espinha dorsal. Perdeu um ou outro jogador influente, como o Iuri Medeiros, que não sabemos se será novamente emprestado ao clube, mas penso que o clube está atento e está a tentar ir buscar jogadores que caibam no orçamento, porque jogadores existem muitos, mas é preciso ter orçamento para os ter. Penso que, dado o orçamento que se tem tido, o Boavista tem sido muito assertivo nas contratações. Claro que ninguém é perfeito, mas, no cômputo geral, creio que têm vindo jogadores com potencial.”
A importância da formação
Martelinho, que teve uma passagem como treinador pela equipa de juniores do Boavista, considera “muito importante que o clube olhe para a sua formação, porque foi dali que tudo nasceu. O Boavista campeão tinha oito jogadores formados no clube e é muito importante não esquecer essa situação. O caso do Bruno Fernandes [contratado recentemente pelo Sporting à Sampdoria], jogador formado no Boavista que foi meu atleta na formação, é mais um exemplo… O Carraça e o Rochinha [atualmente no clube] também passaram pela formação, ou seja, é este o caminho, é tentar ano após ano ir lançando alguns jovens, apostar na formação e depois tentar ser assertivo nas contratações e, mais do que tudo, tentar ter um núcleo duro de jogadores de valor e tentar com esse grupo fazer um campeonato ainda mais positivo do que este e tentar subir mais um degrau, sabendo que qualquer adepto do Boavista é claro que gostavam de tudo para ontem, mas tem de ser passo a passo.”
E é esse o grande desafio de Miguel Leal para esta temporada: satisfazer adeptos que querem tudo para ontem, num clube que terá de subir passo a passo. Ironicamente, o passo dado na época passada devido ao bom trabalho realizado por Miguel Leal, poderá transformar-se num inimigo, caso resulte em demasiada pressão para a equipa.