Vitor Alcino foi o treinador de Ederson e de André Moreira no Ribeirão e já perspectivava sucesso a ambos
Na história do futebol português não terão sido muitos os treinadores do Campeonato de Portugal, ou segunda divisão zona norte como era ainda conhecida a competição em 2011/12, pela qual passaram dois futuros jogadores internacionais. Aconteceu-o no Ribeirão, clube de Vila Nova de Famalicão, pela qual passaram tanto Ederson como André Moreira. Vítor Alcino, hoje membro da equipa técnica do Famalicão, foi o treinador de guarda redes do anterior e, aparentemente, futuro guardião do Benfica.
“Miúdos com idade júnior assumir a baliza na II divisão B não é fácil”. A frase de Vítor Alcino, ao Bancada, via telefone, é ilustrativo das capacidades que tanto Ederson como André Moreira desde jovens mostraram. Mesmo tendo surgido no Ribeirão em idade júnior, ambos assumiram a baliza do clube nortenho em pouco tempo. Ambos, diga-se, em contextos bastante adversos. Ederson após ter sido dispensado dos juniores do Benfica e, André Moreira, após rescisão dos dois guarda redes principais da equipa do Ribeirão.
Entre Ederson e André Moreira, Vitor Alcino encontra semelhanças. Ambos guarda redes muito fortes entre os postes, tecnicamente evoluídos, mas, acima de tudo, guarda redes que desde muito cedo na carreira demonstraram uma mentalidade particularmente forte. Vítor Alcino percebeu desde logo que, ali, existia muito potencial. “Ambos eram muito fortes psicologicamente. Mostravam grande sobriedade, nunca acusavam a pressão”, conta-nos. A maturidade era algo transversal a ambos e mesmo que um erro surgisse no decorrer de uma partida, nenhum deles perdia tempo a lamuriar-se.
Ederson e André Moreira, viciados no trabalho e no treino
Vítor Alcino recorda-se especialmente bem da capacidade de trabalho de ambos os atletas. Em termos potenciais, os melhores que já lhe passaram pelas mãos. Ederson, por exemplo, teve de trabalhar bastante a recepção orientada e o seu pé menos forte para que fosse possível adequar o seu estilo a uma forma de jogar mais apoiada. O pontapé forte fora sempre uma característica de Ederson e Vítor Alcino recorda-se de um episódio em particular.
“No Campeonato de Portugal nem sempre as equipas se lembram, ou sabem, que nos pontapés de baliza não existem foras de jogo. Então num jogo contra o Varzim chegámos a isolar o nosso avançado três vezes após pontapés longos do Ederson”. A jogada do golo de Jiménez contra o Vitória de Guimarães não foi, por isso, uma surpresa para Vítor Alcino. Ao Bancada definiu a jogada, divertidamente, como a “jogada do Ribeirão”.
Se Ederson precisou de um aconselhamento mais próximo, André Moreira sempre mostrou ser um jogador com ainda mais cabeça. Tanto, que em 2014/15 exigiu ser emprestado a uma equipa do Norte do país de forma a poder terminar os seus estudos. A ascensão de André Moreira, no Ribeirão, é meteórica: em poucos meses, Moreira deixa os júniores do Ribeirão e a posição de terceiro guarda redes do clube para assumir a titularidade no mesmo. Uma ascensão que, aliás, levou mesmo André Moreira ao Europeu Sub-19 de 2014.
Vítor Alcino conta-nos outro episódio, agora, referente ao português. Após o Europeu, os atletas selecionados pela equipa de Portugal receberam um programa especial de treino para que não perdessem a forma em demasia durante as férias. Alcino nunca o tinha visto, mas André Moreira pediu-lhe para que durante as férias o acompanhasse durante os treinos – foi também a Alcino que André Moreira recorreu para recuperar da lesão grave que sofreu enquanto jogador do União. Importa referir que, por esta altura, André Moreira era já jogador do Atlético de Madrid e não atleta do Ribeirão mas, aquele jovem de 18 anos, não só não iria passar as férias a descansar, como as iria passar a treinar.
André Moreira, o miúdo com o perfil perfeito do guarda redes moderno
Para Vítor Alcino, André Moreira, até mais do que Ederson, apresenta as características e perfil perfeitos para aquilo que se exige hoje a um guarda redes. Alto, rápido, ágil, frio, maduro, bom jogo de pés… Poucos são os defeitos de André Moreira e, sendo exigente, Vítor Alcino destaca principalmente o controlo de profundidade do guardião português como o seu ponto mais trabalhável. Em comparação com Ederson, Vitor Alcino entende que André Moreira responde melhor sob pressão e atrapalha-se menos quando pressionado. Mais calmo. Mais frio.
Também contrariamente a Ederson, André Moreira sempre demonstrou grande capacidade e conforto para jogar com qualquer um dos pés e, principalmente, sendo um jogador forte na recepção e toque/passe curto. Algo tão exigível e necessário ao guarda redes moderno. Para Vítor Alcino, André Moreira sempre demonstrou uma mentalidade acima da média e uma capacidade de superação particularmente interessante para alguém tão jovem. Algo que, garante, o ajudará a assumir-se no Benfica apesar de estar parado há cerca de ano e meio após uma lesão grave que, para Vítor Alcino, “veio atrapalhar um bocado a sua evolução”.