Opinião
Um novo Portugal na Liga das Nações
Mauro
2018-09-11 14:00:00

A prova de renovação dada pela seleção nacional nos jogos com a Croácia e a Itália, este último já a contar para a Liga das Nações, foi uma excelente notícia para os adeptos da equipa campeã europeia. De pouco serve agora especular acerca das razões da estagnação que se seguiu ao título ganho no Stade de France em Julho de 2016, se esta se deveu à falta de vontade renovadora do selecionador a às más escolhas de mercado feitas por jogadores como Renato Sanches, João Mário ou André Silva. Importante é ver que a seleção tem estrada para andar e que estes dois jogos serviram para uma afirmação possivelmente irreversível de valores como João Cancelo, Rúben Dias ou Rúben Neves. Fica por perceber-se como vai encaixar Ronaldo no lugar do também surpreendente Bruma e até que ponto esse regresso contribuirá para mudar a ideia de jogo de uma equipa mais positiva do que no Mundial.

A Liga das Nações – excelente ideia, pelo menos para as seleções mais fortes, porque lhes eleva a exigência competitiva durante esta parte do ano em vez de as mandar andar a jogar com as Faroé e os Luxemburgos desta vida – deixou antever uma equipa de Portugal com muitos novos valores e um selecionador com uma ideia fixa, visível no facto de Fernando Santos ter entrado com o mesmo onze nos dois jogos. João Cancelo, muito bem tanto física como taticamente, deixou indicações claras de que já é a melhor opção para a posição de  lateral direito. Rúben Dias foi sempre eficaz ao lado de um Pepe a quem as 101 internacionalizações não roubam frescura, velocidade e lucidez. Bruma, é verdade que um pouco inconstante, foi o revulsivo de que a equipa necessitava, dando-lhe velocidade e profundidade, mas também largura a partir da esquerda. E Rúben Neves é daqueles jogadores que influencia todo o jogo da equipa, dando-lhe qualidade na saída, mas também no passe para a zona de definição – sendo que ao contrário do que eu temia, William não saiu penalizado pela mudança de posição, assinando dois excelentes jogos ele também.

A mudança no plano de jogo da seleção, que teve mais bola do que o adversário nos dois jogos e ameaça por isso transformar-se numa equipa mais dada à iniciativa e ao ataque organizado do que à expectativa e à exploração das transições ofensivas, teve muito de Rúben Neves – ainda que frente à Itália as coisas nem sempre tenham funcionado bem, devido à presença de Zaza e Immobile frente aos centrais portugueses – mas também algo de Pizzi e Bernardo Silva. Os dois combinaram sempre bem em sucessivas triangulações, envolvendo também Cancelo, na direita, faltando agora perceber o que sucederá a esta equipa com o regresso de Ronaldo. E atenção, que Ronaldo não será seguramente o único a voltar, pois Moutinho, João Mário, Adrien ou até Fonte e Quaresma podem perfeitamente continuar a fazer parte deste grupo. O que importa neste momento, contudo, é antecipar os efeitos da entrada de Ronaldo, tentar perceber o que muda no equilíbrio global da equipa. E uma coisa é certa: Portugal passará a
fazer mais golos, porque a falta de qualidade e segurança na definição dos lances – precisamente a qualidade maior de Ronaldo – foi a maior pecha da equipa nestes dois jogos.

Depois de ver os jogos com a Croácia e a Itália fiquei com a ideia de que, afinal, este 4x3x3 pode funcionar com Ronaldo. O maior problema para Portugal em ter Ronaldo a partir da faixa era defensivo: para ser eficaz e importante, Ronaldo precisa de deixar muitas vezes o corredor e de surgir em posição central, onde se fazem os golos, o que deixava a equipa vulnerável no momento da perda de bola, com um lateral-esquerdo frequentemente desamparado. Mas, se assumirmos que o lugar de Ronaldo será aquele que nestes jogos foi ocupado por Bruma, há um pormenor que não deve ser esquecido: é que William apareceu sempre do lado onde estava Bruma (e mais tarde Gelson), possivelmente como forma a servir de tampão para as diagonais do número sete. Portugal poderá assim encontrar equilíbrio num 4x3x3 que terá Bernardo Silva de um lado, um médio mais combinativo a pedir tiki-taka perto dele (Pizzi, João Mário, Bruno Fernandes…), e Ronaldo do outro, com um médio mais capaz de assegurar as coberturas atrás dele (em princípio William, mas podendo também ser Moutinho ou Adrien).

Na teoria, a coisa até pode funcionar. Falta ver se no campo também resulta bem.