Há uma diferença grande entre adaptar o sistema a uma filosofia e revolucionar tudo esperando que o craque resolva
Pepe não teve problemas em assumir, antes do decisivo jogo de hoje, contra a Suíça, que à derrota em Basileia deve ser dado o devido desconto, porque foi sem Ronaldo em campo. Hoje, com o capitão no onze e o público por trás, a seleção portuguesa vai atacar a possibilidade de uma décima qualificação consecutiva para uma grande competição. Faz a diferença? Claro que sim. Mesmo que Portugal tenha sido campeão europeu com ele lesionado bem cedo no jogo da final e que, tal como voltou a ver-se em Andorra, a sua adição não represente grandes melhorias em termos de processo coletivo, é a qualidade individual que muitas vezes se sobrepõe a todos os outros argumentos. Em Portugal ou na Argentina.
Estou convencido de que houve mais descuido do que malícia quando Gianni Infantino disse que “seria injusto Messi retirar-se sem ganhar um Mundial”. E arrumo desde logo esta questão com uma lembrança – o presidente da FIFA estava a dar uma entrevista ao jornal “La Nación” e sabia o que queria ler o público específico daquela publicação. Foi traído pelo vício político de querer agradar à audiência. Não sei se diria o mesmo de Ronaldo se a entrevista fosse a um jornal português, porque apesar de tudo há uma diferença entre o histórico de uma Argentina duas vezes campeã do Mundo sem Messi e um Portugal que só ganhou um Europeu depois de aparecer Ronaldo e que, além disso, nunca falhou uma qualificação desde que ele chegou à seleção. Mais logo, quando soubermos se Messi e Ronaldo estão no Mundial ou no play-off – e o argentino pode até ficar já fora de tudo – faremos as contas.
Porque apesar de tudo há uma diferença abismal entre as realidades portuguesa e argentina, no que a equipas diz respeito. Portugal tem uma seleção consolidada, um modelo de jogo que pode até ser criticável por ser demasiado cauteloso, mas é uma equipa sempre performante e sólida. Com Ronaldo ou sem ele. Aliás, como se viu em Andorra, jogo no qual as dificuldades eram muitas, por via de um piso complicado e de um adversário acantonado frente à sua baliza, onde a entrada do Bola de Ouro não trouxe melhorias do ponto de vista do processo coletivo. A equipa continuou a jogar com muita gente atrás em início de construção, revelando dificuldade para meter jogadores dentro do bloco andorrano. E se ganhou foi porque com Ronaldo melhorou em termos de qualidade individual. Foi ele quem marcou o primeiro golo e quem construiu a jogada do segundo.
A Argentina, por sua vez, continua a viver um processo revolucionário permanente e tarda a apresentar resultados. Tenderão os analistas mais românticos a achar que ali há mais treinador, mas a mim parece-me que há, isso sim, mais excesso de protagonismo de quem treina. Muito melhor do que Portugal em alguns processos coletivos – início de construção, por exemplo – a seleção argentina emperra nas opções vincadas de Jorge Sampaoli, que parece saber sempre demais para a equipa que lidera. O que nem seria um problema, se conseguisse transmitir tamanha sabedoria aos jogadores que continua a fazer jogar em posições que lhe são estranhas ou se concedesse minimamente na adaptação ao grupo de que dispõe. O problema é que convenceram Sampaoli de que ele é um génio do futebol moderno e ele ter-se-á esquecido de uma realidade inatacável: quem ganha os jogos são os jogadores.
Há uma grande diferença entre adaptar uma equipa com uma filosofia de base a um sistema que é o que mais convém ao seu melhor jogador ou criar uma filosofia radical, “de assinatura”, e ir afastando da equipa os jogadores que possam eventualmente atravessar-se no caminho desse melhor jogador. O 4x4x2 de Portugal é o sistema que melhor permite a Ronaldo exprimir-se, porque não o amarra a uma faixa lateral, não deixa a equipa destapada se ele por lá estivesse e faltasse em transição defensiva, quando se deslocasse para o meio, e não o força a jogar sempre de costas para a baliza, como único ponta-de-lança de um 4x3x3 que tem mais tradição na seleção. Já a ausência de Dybala, porque cruza os mesmos caminhos de Messi em campo, é um tiro nos pés de uma Argentina à qual nem a superior qualidade do seu melhor jogador tem servido para subir o nível e evitar uma última noite atribulada.
Ainda assim, hoje, 10 de Outubro, de manhã, trilho o caminho de Infantino e escrevo que seria uma injustiça que Ronaldo e Messi não estejam no próximo Mundial. E estou convencido de que vão estar.